Virada cultural paulistana de 2010
por Mathias Reis

No  dia 14 de maio de 2010 a equipe da Sunrise Musics desembarca na capital paulistana para cobrir a virada cultural, uma das maiores mobilizações artísticas atuais em todo o globo. Realizada pela secretaria da cultura desde 2005, foi inspirada na ´Nuit Blanche´ de Paris onde o evento é realizado desde 2002. Em curtas palavras trata-se de um evento de 24h seguidas de espetáculos gratuitos de gêneros imagináveis e inimagináveis tendo o centro da cidade como palco principal. Parece simples? Longe disso, a virada cultural impressiona desde os moradores da própria cidade como turistas, viajantes e aventureiros de todas faixas etárias e gostos que testemunham a experiência pelas ruas de São Paulo.

Além das 982 atrações principais que se concentram em 54 pontos do centro decorado exclusivamente para impactar o publico estimado em quatro milhões de pessoas; o espectador também assiste a performances que se estendem por toda a vista como globos da morte, insetos mecânicos gigantes, intervenções artísticas independentes (happenings), pianos voadores e acrobacias entre os edifícios históricos iluminados para esbanjar beleza ao cair da noite no início do evento.

A programação é tão extensa que é necessário se organizar para não perder os acontecimentos de maior interesse. Pensando nisso selecionamos um roteiro exclusivo que você irá conferir a seguir com as apresentações que considerávamos as melhores propostas para se assistir nesse ano.


Praça Júlio Prestes - Fotografia: Leonardo Wen - Folha Imagem

Dia 15 de Maio de 2010 (Sábado)

Ao chegar na virada pegamos a linha vermelha do metro para a estação Santa Cecília onde começamos nossa jornada. A primeira parada escolhida foi o show do conceituadíssimo musico e arranjador brasileiro Hermeto Pascoal no Bulevar da Praça São João. Por volta das 19h passamos em frente a Barão de Limeira onde pudemos apreciar um pouco da obra de Arrigo Barnabé em uma apresentação que mostrava muita influência do músico americano Tom Waits, mas é claro, com todas as excentricidades do artista paranaense que oferecia musica e performance de ótimo gosto.


Arrigo Barnabé – Fotografia: Marcus Desimoni - UOL

O movimento ainda estava apenas começando ao passar pelo palco rock na Av. São João, mas quando chegamos ao bulevar se podia notar o publico gigantesco que se antecipara para prestigiar o gênio nascido em Alagoas, reverenciado pela critica mundial por seu som experimental que iria se apresentar com a formação clássica Hermeto Pascoal e Grupo. Começando a escurecer, o palco gigantesco em formato de cúpula acendeu seu lustre junto com os postes alaranjados da cidade, os refletores nos parapeitos dos edifícios e as luzes do palácio Itália que era visto atrás completando o cenário. Todo o contexto estava preparado quando Hermeto subiu no palco com seu chapéu preto e visual "jazz" que se mostraria compatível com a seqüência indescritível de musicas que estava prestes a iniciar. No comando de seu teclado começou a aquecer o show com a banda realizando um som free jazz de improvisos moderados. Ao finalizar a primeira musica foi aclamado pelo público e prosseguiu com o repertorio, que a cada musica que se passava aumentava de intensidade com as desarmonias; gerando uma espécie de hipnose na platéia que nem conseguia piscar os olhos enquanto o musico ia coordenando a participação com palmas e aplausos ao final dos solos vibrantes intercalados entre os integrantes da banda. A virtuosidade ia expandindo e chegava a dar arrepios o que se ouvia. Entre as musicas refletia-se o entusiasmo do público que gritava e acenava tentando compreender o que havia acabado de presenciar. Foi na metade do show que Hermeto levou todos ao delírio quando expôs sua criatividade tocando uma chaleira em dueto com um trompete. A essa altura a apresentação lembrava muito o som que fez no Montreux Jazz Festival em 1979. A segunda parte do show começou com o acompanhamento de vocal feminino (que era difícil de acreditar que estava vindo de uma pessoa) entre improvisos impossíveis que seguiam a linha de seu trabalho lançado em 2002 “Mundo Verde Esperança” até o final; quando a banda tocando garrafas de cerveja, devolveu o público a realidade após abrir a virada em um patamar altíssimo de qualidade.


Hermeto Pascoal – Fotografia: Leonardo Soares - AE

Logo após o término da apresentação de Hermeto Pascoal, do outro lado da Av. São João no palco rock, aguardava-se o início da tão esperada apresentação da Grand Mothers. Reunião de membros fundadores da Mothers of Invention (banda qual fazia parte o maestro e compositor americano Frank Zappa na década de 60 e início da década de 70) e de músicos que futuramente o acompanharam em sua carreira solo em registros como “The Dub Room Special” e “Baby Snakes”. Napoleon Murphy Brock, que cantou e tocou em diversas gravações trouxe a voz original das canções, assumiu os holofotes de forma carismática e logo ao final da primeira música fez referência a Frank Zappa tendo uma forte resposta do público. Aproveitando essa deixa a banda fez São Paulo tremer com o início do poderoso hit “Peaches In Regalia” do disco “Hot Rats” (1969), sendo esse um dos momentos mais impactantes do evento. A sonoridade dos sons de Zappa reproduzidos ao vivo transmite sensações indescritíveis e oferecem uma compreensão maior sobre a grandiosidade da obra do artista. A banda deu continuidade ao set-list entre groove e muito felling transmitindo sonoridade espantosa e deixou o público sem palavras ao se despedir com “Montana”, uma das musicas de Frank Zappa mais elaboradas e sarcásticas do disco “Overnite Sensation” (1973).


Napoleon Murphy Brock (Grand Mothers) - Fotografia: Marcus Desimoni – Uol

Ainda sem fôlego com o show da Grand Mothers a multidão eufórica aplaudiu a entrada da banda Big Brother & The Holding Company que teve início na década de 60 em São Francisco e fez parte da lisérgica revolução cultural tocando ao lado de Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger e Grateful Dead. O grande ápice de popularidade da banda aconteceu em 1966 com a entrada de Janis Joplin nos vocais e com a gravação do disco “Cheap Thrills” (1968). Apesar de ofuscada pelo show anterior a banda teve grande aceitação do público e fizeram uma apresentação respeitável, digna da tradição que carregam desde seus anos selvagens. Com quase todos integrantes originais trajando chapéus e paletós, foram reproduzidos clássicos com muito estilo começando por “Down On Me” e chegando ao auge com a belíssima “Summertime”.


Big Brother & the Holding Company - Fotografia: Marcus Desimoni – Uol

De volta ao palco dos artistas virtuosos no Bulevar fomos conferir o multi-instrumentista e compositor Booker T. Jones nascido em Memphis conhecido por liderar a banda Booker T & The MG’s. A essa altura da noite o público se acumulou ao máximo e o caos foi instaurado ficando realmente difícil de locomover pela região entre o público que misturava famílias, jovens, artistas e arruaceiros oportunistas. O show iniciou com um público razoável devido às outras apresentações simultâneas e foi aumentando aos poucos. Com musicas instrumentais, muito blues e melodias de voz ao estilo hip-hop, entretiveram a platéia até o clímax quando o órgão estilo californiano se juntou para completar a formação dos instrumentos, aproximar ao som de Booker T & The MG’s e executar o clássico hit lançado em 1962 – “Green Onions”.


Booker T Jones – Fotografia: Leonardo Soares – AE

 

Dia 16 de Maio de 2010 (Domingo)

Uma grande surpresa na virada foi a banda Terra Celta. Com muito carisma e talento os paranaenses conseguiram prender a atenção e juntar um público que estava de passagem para seu show devido ao som exótico com grande influência gaulês-irlandesa misturada com características brasileiras. A banda reúne acordeom, violino, gaita de fole, tin wistle e tudo que se tem direito para impressionar. Mesmo em desvantagem por terem sido colocados na programação para tocar em um momento em que o público já estava exausto, conseguiram interagir com a platéia e até evocar danças pagãs demonstrando que merecem mais atenção para a próxima edição do evento. Quem estava presente com certeza teve muita sorte em poder conferir o alto astral e energia transmitidos na apresentação recheada com material de autoria própria realizada pelos integrantes devidamente trajados com chapeis de duendes, saias escocesas e roupas verdes.


Terra Celta – Fotografia: Sylvio Fagundes - flickr.com/j_sylvio

Chegando de metrô na Luz era possível desfrutar de apresentações no clássico piano na entrada da estação (que teve programação individual esse ano) antes de sair para a praça (ao lado da Pinacoteca) onde se encontrava um ambiente muito agradável. Sentadas nos gramados as pessoas descansavam apreciando a orquestra sinfônica de São Paulo tocar obras sofisticadas que conferiam com o momento de tranqüilidade já na reta final para o término do evento.


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – Fotografia: Leonardo Wen - Folha Imagem

Mas muito longe de qualquer tranqüilidade, o encerramento da virada cultural de 2010 ficou por conta da banda de rock tradicional de São Paulo Titãs, reconhecidos desde a década de 80 (principalmente depois do lançamento do disco “Cabeça de Dinossauro”) por suas músicas que refletem o lado obscuro da cidade e expressam todo o desespero e ranger de dentes de um cotidiano cheio de injustiças, desigualdades e opressões vividas na metrópole. Conhecidos também por hits de pop/rock lançados nas décadas posteriores, o show reuniu uma verdadeira multidão na Av. São João. Privilegiados por começar com o pôr-do-sol atrás do palco, os Titãs trouxeram de volta para a virada agitação e euforia. Após as primeiras músicas com direito ao hino “AAUU” ser cantado em coro e ecoar entre os edifícios, Paulo Miklos, que começou o show nos vocais e tocando guitarra, deu o polêmico recado da banda para a ocasião introduzindo um dos clássicos do disco
“Jesus não tem dentes no país dos banguelas”:

“... A vida até parece uma festa em certas horas isso é o que nos resta.
Tudo isso às vezes só aumenta a angústia e a insatisfação.
Às vezes qualquer um enche a cabeça de álcool atrás de distração.
Nada disso diminui a dor e a solidão. Tudo isso, às vezes tudo é fútil,
Mas ficar sóbrio não é solução. Diversão é solução sim, diversão é solução pra mim...”


Titãs (Paulo Miklos, Tony Belloto e Branco Mello) – Fotografia: Marcus Desimoni - UOL

Além de Paulo Miklos, Branco Mello, Tony Bellotto e Sérgio Britto da formação original, Arnaldo Antunes (Ex-integrante do Titãs) que havia sido a atração anterior foi chamado de volta ao palco para cantar “O Pulso”. Canções de todas as fases da carreira foram executadas, dentre elas “Homem primata”, “Polícia”, “Porrada”, “Cabeça Dinossauro”, “Lugar nenhum”, “Epitáfio”, “Flores”, “Bichos escrotos”, “Vossa excelência” finalizando a virada cultural por volta das 19:00 de domingo com a “A melhor banda de todos os tempos da ultima semana”.


Publico na Av. São João acompanha encerramento com Titãs – Fot. Marcus Desimoni - UOL

 

Roteiro Sunrise Musics:

Dia 15/05 (Sábado)
19:00 - Hermeto Pascoal – Bulevar São João
20:00 – Grand Mothers - Re: Invented – Av. São João
22:00 – Big Brother & the Holding Company – Av. São João
23:00 – Booker T – Bulevar São João

Dia 16/05 (Domingo)
14:10 – Terra Celta – Caspér Libero (Lado Mauá)
16:00 – Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – Praça da luz
17:30 – Titãs – Av. São João

 

SÃO PAULO - Quatro milhões de pessoas acompanharam neste fim de semana a 6ª edição da Virada Cultural de São Paulo. O evento promoveu mais de 24 horas ininterruptas de shows e apresentações gratuitas, principalmente no centro da cidade.

Os músicos cubanos Barbarito Torres e Ignácio Mazacote abriram oficialmente a Virada 2010 no sábado (15), às 18h. As apresentações só acabaram por volta das 20h de ontem (17), com o show dos violeiros Elomar, Xangai, Vital Farias e Geraldo Azevedo.

 


Público assiste ao show do grupo ABBA - The Show na praça Júlio Prestes, no início da tarde de domingo (16/05/2010)

 


A banda que já foi liderada por Frank Zappa, Grand Mothers: Re-Invented, apresenta-se na Virada Cultural paulista, edição 2010 (15/05/2010)

 


Apresentação da banda Living Colour no palco da estação Júlio Prestes, no centro de São Paulo (16/05/2010)

 


Ignacio Mazacote e Barbarito Torres (ao fundo) se apresentam no palco do praça Júlio Prestes (15/05/2010)

Para o prefeito Gilberto Kassab, o evento foi um sucesso. Em entrevista coletiva, ele afirmou que a presença do público ajuda a consolidar a Virada como uma das datas mais importantes do calendário de São Paulo, e que a organização do evento se aprimora ano a ano.


Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) se apresenta em palco dedicado a orquestra, na estação da Luz (16/05/2010)

 


Barraca de pastel da Jura, no centro de São Paulo. Esta edição da Virada traz as dez melhores barracas de pastel da cidade, segundo eleição feita em 2009 (15/05/2010)

 


Atores do grupo Cia. Quase Cinema se apresentam em frente à estação a Luz, no centro de São Paulo (15/05/2010)

 


Integrantes do grupo ABBA - The Show, que faz covers da banda sueca e conta com integrantes que participaram da banda original, apresentam-se em palco na praça Júlio Prestes

“A segurança e a limpeza estão mais eficientes”, afirmou Kassab. “O número de atrações aumentou assim como os locais dos eventos."


Arnaldo Antunes se junta aos Titãs e fecha palco do rock na 6ª edição da Virada Cultural (16/05/2010)

De acordo com a organização, 4,3 mil pessoas trabalham na segurança da Virada. Entre eles, policiais militares, guardas civis metropolitanos e seguranças particulares.

Apesar disso, um jovem de 17 anos foi morto na madrugada de domingo, nas proximidades de um dos palcos de show. O jovem foi esfaqueado e morreu no hospital.

Sobre o incidente, a organização da Virada e a prefeitura preferiram não se pronuciar. Elas informaram somente que a Secretaria de Segurança Pública investiga o caso.


O guitarrista Edgar Scandurra e Arnaldo Antunes fazem show em palco da avenida São João (16/05/2010)

 


O músico paranaense Arrigo Barnabé faz show em palco da Virada Cultural (15/05/2010)

 


Zélia Duncan faz show em palco da estação Júlio Prestes na Virada, após apresentação dos músicos cubanos que abriram o evento (15/05/2010)

 


Pablo Moses canta no sábado à noite em palco dedicado ao reggae, durante a Virada Cultural (15/05/2010)

 


Sucesso na década de 90, o grupo italiano Double You foi uma das atrações do palco Vieira de Carvalho (16/05/2010)

"Estive varios shows da Virada Cultural.
Gostei do Abba The Show(cover) são suecos/as e ingleses/as
Living Colour(USA), Zelia Duncan, Toquinho.

Foram todos no mesmo lugar Praça Julio Prestes.
Foi tudo tranquilo, organizado."

Fontes: Equipe Sunrise Musics, Mathias Reis; DCI, F. Brunheroto; UOL Entretenimento

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