"O Vermelho e o Negro" - Stendhal

Stendhal, nasceu em Grenoble, no dia 23 de janeiro de 1783, sendo registrado como Marie Henri Beyle. Ficou órfão de mãe em 1789, e acabou sendo criado pelo seu pai e sua tia. Rejeitou as virtudes monárquicas e religiosas que lhe ensinaram e expressou cedo a vontade de abandonar sua cidade natal. Abertamente republicano, acolheu com entusiasmo a execução do rei e celebrou inclusive a breve detenção de seu pai. A partir de 1796 foi aluno da Escola central de Grenoble e em 1799 conseguiu o primeiro prêmio de matemática. Viajou a Paris para ingressar na Escola Politécnica, mas adoeceu e não pôde se apresentar à prova de acesso. Graças a Pierre Daru, um parente longínquo que se converteria em seu protetor, começou a trabalhar no ministério de Guerra. Como subtenente, luta com as tropas de Napoleão na Itália. Em 1810 torna-se auditor do Conselho de Estado e participa da campanha da Rússia.

Em 1814, com a queda de Napoleão, muda-se para Milão, Itália, lugar que o fascina e onde vive até 1821. Retorna a Paris e fica conhecido nos meios literários como historiador de arte italiana e biógrafo de artistas. Grande parte da sua obra é publicada postumamente. Sem obter sucesso na literatura, ganha a vida em outras atividades. Em 1827 escreve seu primeiro livro, "Armance", no qual já está presente uma marca de sua obra: a luta do indivíduo contra as adversidades. O seguinte, "O Vermelho e o Negro" ( Le Rouge et le Noir 1830), é considerado sua obra-prima.

"Permita-nos o leitor que forneçamos poucos fatos claros e precisos da vida de Julien. Não porque eles nos faltem, muito pelo contrário; mas talvez porque o que ele viu no seminário é muito escuro para o colorido moderado que se procura conservar nestas páginas.[...]Temos medo de fatigar o leitor com o relato dos mil infortúnios do nosso herói" (O Vermelho e o Negro, p.181-184).

O perfil psicológico e a vida do protagonista desta obra eterna, o jovem Julien Sorel, "um homem infeliz em guerra com a sociedade", na definição de seu criador, tem por fundo a França do período da restauração napoleônica, retratada ao mesmo tempo com agudo realismo e fantasia transfiguradora. Julien Sorel é sem dúvida um dos personagens mais fascinantes da literatura de todos os tempos.

Julien é um aspirante a padre nascido numa cidade inventada pelo autor chamada Vérrièrs, na obra, situada no interior da França, próxima de Besançon. Faz da hipocrisia e de sua grande capacidade intelectual, armas potentes para sair de sua vida triste e medíocre. Muito oprimido pelo seu pai marceneiro e irmãos consegue sair de casa através de um convite tentador do Senhor de Rênal, então prefeito da cidade, para ser preceptor de seus dois filhos.

Estudou durante toda sua infância e adolescência com um cirurgião-mor da cidade e, após a morte deste, com o Cura, que lhe ensinou latim e principiou seu estudo das Escrituras, pouco depois já sabia latim e tinha decorado todo o Novo Testamento. Foram esses conhecimentos que possibilitaram sua ascensão social.

Seu ídolo é Napoleão Bonaparte. Mas, na época em que se passa a história, a da Restauração absolutista na França (1815-30), Napoleão e seus defensores (entre eles o próprio Stendhal) estão em desgraça; admirá-lo é algo de imprudente e inconfessável.

Sthendal apresenta nessa grande obra o pensamento de se obter lucro a qualquer preço, a necessidade de se manter a casta pura dos "bem-nascidos" e das aparências sociais, as pérfidas intrigas dos poderosos, nobres, comerciantes, militares e clérigos.

Na sua nova casa, a do prefeito, Julien fica obcecado pela idéia de conquistar a Senhora de Rênal, esposa do prefeito, e inventa verdadeiras estratégias para conquistá-la (note que, como em toda obra de Stendhal, ele próprio criava estratégias para tentar conquistar outras mulheres).

Por fim, este romance se torna um escândalo. Julien parte para Paris e recomeça o segundo ciclo do personagem. Ele volta a se apaixonar, aogra por Mathilde, se engaja como secretário de um Marquês, pai de Mathilde.

Nesta parte o livro faz incontáveis paralelos entre o interior e a capital francesa, respectivamente, Paris e Vérrièrs. Bem como das distinções entre o amor vivido lá e no interior. Também compara com o amor do período pré-napoleônico.

Madame de Rênal denuncia-o ao marquês. Julian, enraivecido, dá-lhe dois tiros. É preso, condenado e decapitado. Madame de Rênal também morre no fim do livro.

O trágico destino foi inspirado num evento real, ocorrido em Grenoble: condenado pelo assassinato de uma ex-amante, cometido no interior de uma igreja, um seminarista de 26 anos, Antoine Berthet, foi executado na guilhotina em fevereiro de 1828.

A partir desse fato rumoroso, Stendhal (1783-1842) entreviu a possibilidade de fazer o que chamou de "crônica do século XIX", um ácido retrato da França. Muito do encanto irrepetível e da inesgotável vitalidade de "O Vermelho e o Negro" reside na tensão entre as dimensões realista e romântica, entre a crônica quase jornalística dos fatos exteriores e a construção trágica do destino dos personagens, especialmente do protagonista, suspenso no descompasso entre sua alma ardente e o tempo mesquinho que lhe tocou viver.

Foi só no século 20 - aliás, cumprindo uma profecia sua - que a obra de Stendhal passou a ser devidamente apreciada como um dos marcos incontornáveis da literatura moderna. A complexidade psicológica de seus personagens e suas penetrantes análises sociais influenciaram toda a literatura francesa posterior. No início de sua carreira, seus romances foram recebidos com frieza, exceto por Balzac e Baudelaire. Seu estilo, ao contrário do excesso de ornamentos, valoriza o perfil psicológico dos personagens, a interpretação de seus atos, sentimentos e paixões.


Marie Henri Beyle ( Stendhal )

Frases Stendhal

"Todas as religiões são fundadas sobre o temor de muitos e a esperteza de poucos."

"A velhice, essa época em que se julga a vida e em que os prazeres do orgulho se revelam em toda a sua miséria (...)."

"Em quase todos os acontecimentos da vida, uma alma generosa vê a possibilidade de uma uma ação, que uma alma comum não tem a mesma idéia. No próprio instante em que a possibilidade dessa ação se torna visível para a alma generosa, é de seu interesse levá-la a cabo. Se não executasse essa ação que acaba de lhe surgir no espírito, desprezar-se-ia a si própria; seria infeliz. Têm-se deveres conforme o alcance do espírito. (...) É contra a natureza do homem, é impossível para o homem não fazer sempre, e em qualquer momento que se queira examiná-lo, o que nesse momento é possível e lhe dá prazer." Stendhal, in 'Do Amor'

Machado de Assis, tinha intimidade com a obra de Stendhal. Brás Cubas, afirma:

"Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores , cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta , nem vinte, e quando muito, Dez? Talvez cinco."

Fontes: STENDHAL. O Vermelho e o Negro. Tradução de Souza Júnior e Casemiro Fernandes. São Paulo: Abril Cultural, 1981.Cosac Naify, Anamélia Dantas Maciel, BOTOSO, Altamir¹, Arte e Letra, Citador, JC Online, Planeta News

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