Festival de Veneza 2010

Principais produções segundo a crítica especializada


Silent Souls

O russo Alexei Fedorchenko ficou conhecido por seu primeira longa, “First on the Moon”, um delicioso falso documentário sobre um programa espacial secreto.

Agora em Veneza está novamente sob os holofotes com o seu terceiro filme, “Silent Souls” (competição), significativamente diferente em tom e estilo mas partilhando o gosto visual e o olhar sobre as memórias secretas da “alma russa”.

Evocando uma etnia eslava há séculos completamente desaparecida, os Merjan, Fedorchenko ficciona (a partir de um livro de Aist Sergeyev) que os seus rituais e a sua memória se mantêm vivos, pelo meio dos telemóveis, dos LCD e dos jipes, num recanto da Rússia moderna.

“Silent Souls” é ao mesmo tempo um “road movie” que acompanha dois homens no ritual de enterro da esposa de um deles e um requiem formalista por uma cultura e por uma memória perdida, com especial atenção ao trabalho audiovisual (design de som e fotografia são extraordinários).

Lânguido e hipnótico, é um filme com algo de sonho acordado, tal a força sensorial do modo como Fedorchenko organiza a narração visual. Lembrámo-nos, por vezes, de formalistas latinos como Lisandro Alonso ou Carlos Reygadas, mas também sentimos algo do regionalismo de Paradjanov ou do estetismo emocional de Tarkovski, mas ainda sem o controle narrativo que iguale qualquer uma das referências.

“Silent Souls” é frio (talvez excessivamente), deslumbrante (inevitavelmente), e um dos objetos mais intrigantes que Veneza propõe este ano.

 

The Ditch

O filme "The Ditch" ( "O Fosso"), do realizador chinês Wang Bing, co-produção que envolveu Portugal ( Francisco Villa-Lobos), é o filme surpresa do festival de cinema de Veneza e que integra a competição pelo Leão de Ouro.

Rodado integralmente na China foi produzido por Villa-Lobos (produtor radicado na França) em parceria com uma produtora de Hong Kong e outra da Bélgica.

Francisco Villa-Lobos conheceu Wang Bing há sete anos em Turim e ficou a par da idéia do filme que o chinês queria fazer. O projeto só seria retomado em 2007 e foi terminado há pouco tempo. Deve estrear comercialmente no próximo ano, em data ainda por anunciar.

"The Ditch" é uma ficção que se baseia em fatos reais sobre os campos de trabalhos forçados que o governo chinês criou nos anos 50 e 60 e para os quais enviou milhares de cidadãos que discordavam ou criticavam o Partido Comunista, sendo considerados "dissidentes de direita".

O filme foi rodado no planalto do deserto do Gobi, na China ocidental, e, apesar das condições difíceis da filmagem por causa da localização, o governo chinês não colocou qualquer entrave à produção, porque simplesmente desconheceu a existência do filme.

"Não teve nenhum tipo de fuga de informação. O filme foi apenas anunciado neste momento e apenas a partir de agora é que o filme existe seja para festivais, seja para a imprensa ou para o governo chinês ou qualquer entidade. Só a partir de agora é que o governo chinês vai saber da existência do filme", explicou o produtor português.

Depois de Veneza, onde é forte candidato ao prémio máximo do festival - o Leão de Ouro -, "The Ditch" será exibido no festival de cinema de Toronto, no Canadá, com projeções marcadas para os dias 14, 15 e 16.

Para "The Ditch", Wang Bing baseou-se no romance "Goodbye, Jiabiangou" e em dezenas de testemunhos que recolheu sobre a realidade dos sobreviventes dos campos de trabalhos forçados de Jiabiangou.

Nas notas de produção, o cineasta explica que foi sua intenção abordar sobretudo histórias de resistência, mas também submissão do povo chinês, num registo documental, mas também com um discurso realista.

 

Venus Noire

Abdellatif Kechiche, diretor do excelente O Segredo do Grão, quis deixar o espectador desconfortável, chegando ao limite do suportável – e provocou muita polarização e polêmica.

A trama é incrivelmente baseada na história real de uma sul-africana descendente do povo hotentote. O filme começa com uma estátua da personagem e partes anatômicas reais sendo apresentadas numa conferência da Academia Real de Medicina em Paris, em 1817, e descritas como muito parecidas com aquelas de símios. Com nádegas e seios grandes e a genitália com características especiais, ela tinha saído de seu país com seu patrão na época, Hendrik Caezar (no filme, interpretado por Andre Jacobs), iludida pelo sonho de ser artista, em direção a Londres. Seus shows, no entanto, eram pura exploração de seu visual diferente – na verdade, ela vira atração de circo mesmo.

As apresentações ficam cada vez mais agressivas, principalmente quando, já em Paris, ela fica sob o comando de Réaux (Olivier Gourmet), virando atração também para os cientistas. A protagonista praticamente só encontra gente interesseira e nada preocupada com sua humanidade. É impressionante a atuação de Yahima Torrès, favorita à Coppa Volpi de melhor atriz, no papel de Saartjie, passando toda a tristeza e passividade da personagem com muita economia de expressões e gestos.

Kechiche filma muito bem e utiliza planos longos, com sequências inteiras dos shows de horrores a que a protagonista é submetida. É muito, muito doloroso de ver – e a intenção é justamente retirar totalmente o espectador de sua zona de conforto.

 

Balada Triste de Trompeta

"Balada Triste de Trompeta", um filme delirante do espanhol Alex de la Iglesia, agitou o Festival de Veneza com um retrato extravagante do franquismo e das duas Espanhas que "gelam o coração".

O filme, o único espanhol que compete pelo Leão de Ouro, coloca o espectador em 1937, em plena Guerra Civil espanhola, para iniciar uma revisão original da história recente da Espanha, através de dois palhaços desfigurados, Javier e Sergio, o triste e o feliz, que combatem até a morte pelo amor de uma acrobata.

"É uma história de amor, de amor selvagem, de horror e humor", descreveu de la Iglesia durante coletiva de imprensa.

A obra é uma metáfora das duas Espanhas e como na poesia de Antonio Machado, "gela o coração graças ao emprego de todos os gêneros cinematográficos e às sequências disparatadas, próximas ao estilo ''pulp''".

O autor de filmes como "A Comunidade" (2000) e "O Dia da Besta" (1995), certamente convencerá com sua última obra o presidente do júri, Quentin Tarantino, com suas cenas excessivas, grotescas, surpreendentes.

"É o filme mais arriscado que realizei e do qual estou mais orgulhoso", disse o cineasta espanhol.

A paródia do "horror", com os personagens do circo como pano de fundo e palhaços transformados em monstros entre elefantes e anões chega até a década de 1970, pouco antes do final do franquismo.

"Temos um passado terrivelmente doloroso que condiciona o presente", reconheceu de La Iglesia, que enche o filme de horrendas e sarcásticas cenas de violência e vingança.

"A sensação que tenho desse passado é a violência (...), vivíamos como se fosse algo normal, natural", lembra.

A mistura de imagens reais com ficção e as referências históricas são notáveis: o atentado em 1973 contra o presidente Luis Carrero Blanco, as baladas cantadas pelo então célebre Raphael e o início dos programas de variedade televisivos.

A irreverente e forte cena na qual o protagonista (Carlos Areces), tratado como um vira-lata, morde o general Francisco Franco soma-se à lista de alucinações, sonhos e pesadelos que o realizador criou "para exorcizar uma dor na alma que não quer ir", confessou.

"Balada Triste de Trompeta", que entrará em cartaz na Espanha em dezembro, conta também com Carolina Bang, Antonio de la Torre e Fernando Guillén Cuervo e compete com outras 23 filmes na seção oficial.

 

Somewhere

O filme do Sofia Coppola "Somewhere", que conta a história da vida de um ator de Hollywood que se entorpece com álcool, drogas e sexo casual, foi o grande vencedor do Festival de Cinema de Veneza.

Coppola conta a história de Johnny Marco, um astro promissor cujos dias se dividem entre hotéis de cinco estrelas, Ferraris e beldades louras, mas também solidão, perseguição pela mídia e tédio.

Marco, interpretado por Stephen Dorff, tem que um dia enfrentar a sua vida e o destino de frente, quando sua filha de 11 anos aparece inesperadamente para passar uns tempos com ele.

A filha do diretor Francis Ford Coppola e ganhadora do Oscar de melhor roteiro por "Encontros e Desencontros" baseou o filme parcialmente em suas próprias experiências como uma menina viajando de hotel em hotel com o pai. "Agradeço a meu pai por me ensinar", disse ela na cerimônia de premiação.

 

Fontes: http://cinema.uol.com.br/ultnot/reuters/2010/09/10/

festival-de-veneza-nao-tem-um-claro-favorito-ao-leao-de-ouro.jhtm;

http://ultimosegundo.ig.com.br/veneza/;

http://ipsilon.publico.pt/veneza/texto.aspx?id=264382; Reuters; Estadão Online

http://www.publico.clix.pt/

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