Principais
produções segundo a crítica especializada
Silent
Souls
O
russo Alexei Fedorchenko ficou conhecido por seu primeira
longa, “First on the Moon”, um delicioso falso
documentário sobre um programa espacial secreto.
Agora
em Veneza está novamente sob os holofotes com o seu
terceiro filme, “Silent Souls” (competição),
significativamente diferente em tom e estilo mas partilhando
o gosto visual e o olhar sobre as memórias secretas
da “alma russa”.
Evocando
uma etnia eslava há séculos completamente desaparecida,
os Merjan, Fedorchenko ficciona (a partir de um livro de Aist
Sergeyev) que os seus rituais e a sua memória se mantêm
vivos, pelo meio dos telemóveis, dos LCD e dos jipes,
num recanto da Rússia moderna.
“Silent
Souls” é ao mesmo tempo um “road movie”
que acompanha dois homens no ritual de enterro da esposa de
um deles e um requiem formalista por uma cultura e por uma
memória perdida, com especial atenção
ao trabalho audiovisual (design de som e fotografia são
extraordinários).
Lânguido
e hipnótico, é um filme com algo de sonho acordado,
tal a força sensorial do modo como Fedorchenko organiza
a narração visual. Lembrámo-nos, por
vezes, de formalistas latinos como Lisandro Alonso ou Carlos
Reygadas, mas também sentimos algo do regionalismo
de Paradjanov ou do estetismo emocional de Tarkovski, mas
ainda sem o controle narrativo que iguale qualquer uma das
referências.
“Silent
Souls” é frio (talvez excessivamente), deslumbrante
(inevitavelmente), e um dos objetos mais intrigantes que Veneza
propõe este ano.
The
Ditch
O
filme "The Ditch" ( "O Fosso"), do realizador
chinês Wang Bing, co-produção que envolveu
Portugal ( Francisco Villa-Lobos), é o filme surpresa
do festival de cinema de Veneza e que integra a competição
pelo Leão de Ouro.
Rodado
integralmente na China foi produzido por Villa-Lobos (produtor
radicado na França) em parceria com uma produtora de
Hong Kong e outra da Bélgica.
Francisco
Villa-Lobos conheceu Wang Bing há sete anos em Turim
e ficou a par da idéia do filme que o chinês
queria fazer. O projeto só seria retomado em 2007 e
foi terminado há pouco tempo. Deve estrear comercialmente
no próximo ano, em data ainda por anunciar.
"The
Ditch" é uma ficção que se baseia
em fatos reais sobre os campos de trabalhos forçados
que o governo chinês criou nos anos 50 e 60 e para os
quais enviou milhares de cidadãos que discordavam ou
criticavam o Partido Comunista, sendo considerados "dissidentes
de direita".
O
filme foi rodado no planalto do deserto do Gobi, na China
ocidental, e, apesar das condições difíceis
da filmagem por causa da localização, o governo
chinês não colocou qualquer entrave à
produção, porque simplesmente desconheceu a
existência do filme.
"Não
teve nenhum tipo de fuga de informação. O filme
foi apenas anunciado neste momento e apenas a partir de agora
é que o filme existe seja para festivais, seja para
a imprensa ou para o governo chinês ou qualquer entidade.
Só a partir de agora é que o governo chinês
vai saber da existência do filme", explicou o produtor
português.
Depois
de Veneza, onde é forte candidato ao prémio
máximo do festival - o Leão de Ouro -, "The
Ditch" será exibido no festival de cinema de Toronto,
no Canadá, com projeções marcadas para
os dias 14, 15 e 16.
Para
"The Ditch", Wang Bing baseou-se no romance "Goodbye,
Jiabiangou" e em dezenas de testemunhos que recolheu
sobre a realidade dos sobreviventes dos campos de trabalhos
forçados de Jiabiangou.
Nas
notas de produção, o cineasta explica que foi
sua intenção abordar sobretudo histórias
de resistência, mas também submissão do
povo chinês, num registo documental, mas também
com um discurso realista.
Venus
Noire
Abdellatif Kechiche, diretor do excelente O Segredo do
Grão, quis deixar o espectador desconfortável,
chegando ao limite do suportável – e provocou
muita polarização e polêmica.
A trama
é incrivelmente baseada na história real de
uma sul-africana descendente do povo hotentote. O filme começa
com uma estátua da personagem e partes anatômicas
reais sendo apresentadas numa conferência da Academia
Real de Medicina em Paris, em 1817, e descritas como muito
parecidas com aquelas de símios. Com nádegas
e seios grandes e a genitália com características
especiais, ela tinha saído de seu país com seu
patrão na época, Hendrik Caezar (no filme, interpretado
por Andre Jacobs), iludida pelo sonho de ser artista, em direção
a Londres. Seus shows, no entanto, eram pura exploração
de seu visual diferente – na verdade, ela vira atração
de circo mesmo.
As apresentações
ficam cada vez mais agressivas, principalmente quando, já
em Paris, ela fica sob o comando de Réaux (Olivier
Gourmet), virando atração também para
os cientistas. A protagonista praticamente só encontra
gente interesseira e nada preocupada com sua humanidade. É
impressionante a atuação de Yahima Torrès,
favorita à Coppa Volpi de melhor atriz, no papel de
Saartjie, passando toda a tristeza e passividade da personagem
com muita economia de expressões e gestos.
Kechiche
filma muito bem e utiliza planos longos, com sequências
inteiras dos shows de horrores a que a protagonista é
submetida. É muito, muito doloroso de ver – e
a intenção é justamente retirar totalmente
o espectador de sua zona de conforto.
Balada
Triste de Trompeta
"Balada Triste
de Trompeta", um filme delirante do espanhol Alex de
la Iglesia, agitou o Festival de Veneza com um retrato extravagante
do franquismo e das duas Espanhas que "gelam o coração".
O filme, o único
espanhol que compete pelo Leão de Ouro, coloca o espectador
em 1937, em plena Guerra Civil espanhola, para iniciar uma
revisão original da história recente da Espanha,
através de dois palhaços desfigurados, Javier
e Sergio, o triste e o feliz, que combatem até a morte
pelo amor de uma acrobata.
"É
uma história de amor, de amor selvagem, de horror e
humor", descreveu de la Iglesia durante coletiva de imprensa.
A obra é
uma metáfora das duas Espanhas e como na poesia de
Antonio Machado, "gela o coração graças
ao emprego de todos os gêneros cinematográficos
e às sequências disparatadas, próximas
ao estilo ''pulp''".
O autor de filmes
como "A Comunidade" (2000) e "O Dia da Besta"
(1995), certamente convencerá com sua última
obra o presidente do júri, Quentin Tarantino, com suas
cenas excessivas, grotescas, surpreendentes.
"É
o filme mais arriscado que realizei e do qual estou mais orgulhoso",
disse o cineasta espanhol.
A paródia
do "horror", com os personagens do circo como pano
de fundo e palhaços transformados em monstros entre
elefantes e anões chega até a década
de 1970, pouco antes do final do franquismo.
"Temos um
passado terrivelmente doloroso que condiciona o presente",
reconheceu de La Iglesia, que enche o filme de horrendas e
sarcásticas cenas de violência e vingança.
"A sensação
que tenho desse passado é a violência (...),
vivíamos como se fosse algo normal, natural",
lembra.
A mistura de imagens
reais com ficção e as referências históricas
são notáveis: o atentado em 1973 contra o presidente
Luis Carrero Blanco, as baladas cantadas pelo então
célebre Raphael e o início dos programas de
variedade televisivos.
A irreverente e
forte cena na qual o protagonista (Carlos Areces), tratado
como um vira-lata, morde o general Francisco Franco soma-se
à lista de alucinações, sonhos e pesadelos
que o realizador criou "para exorcizar uma dor na alma
que não quer ir", confessou.
"Balada Triste
de Trompeta", que entrará em cartaz na Espanha
em dezembro, conta também com Carolina Bang, Antonio
de la Torre e Fernando Guillén Cuervo e compete com
outras 23 filmes na seção oficial.
Somewhere
O
filme do Sofia Coppola "Somewhere", que conta a
história da vida de um ator de Hollywood que se entorpece
com álcool, drogas e sexo casual, foi o grande vencedor
do Festival de Cinema de Veneza.
Coppola
conta a história de Johnny Marco, um astro promissor
cujos dias se dividem entre hotéis de cinco estrelas,
Ferraris e beldades louras, mas também solidão,
perseguição pela mídia e tédio.
Marco,
interpretado por Stephen Dorff, tem que um dia enfrentar a
sua vida e o destino de frente, quando sua filha de 11 anos
aparece inesperadamente para passar uns tempos com ele.
A filha
do diretor Francis Ford Coppola e ganhadora do Oscar de melhor
roteiro por "Encontros e Desencontros" baseou o
filme parcialmente em suas próprias experiências
como uma menina viajando de hotel em hotel com o pai. "Agradeço
a meu pai por me ensinar", disse ela na cerimônia
de premiação.