Délhi,
Mumbai, Chennai and Bangalore
Opostos
Viajar
pela Índia exige estômago forte. Para começar,
há o jet lag que destroça qualquer viajante.
São pelo menos 20 horas de vôo a partir
do Brasil e oito horas á frente no fuso horário.
Chegando lá, outro golpe : a vertigem provocada
pelo calor sufocante, a cacafonia do trânsito
e a inacreditável multidão que entope
as ruas. E, por fim, ao se postar em frente a primeira
refeição made in India, é
possível se entender porque Salman Rushdie transformou
esse codimento em praticamente um protagonista de seu
livro O Último Suspiro do Mouro. Simplesmente
usa-se pimenta em tudo e em quantidades industriais.
Aventurar-se
pelas metrópoles indianas significa se acostumar
com os motoristas enlouquecidos e com a sinfonia de
buzinas e motores barulhentos de carros e triciclos
motorizados, chamados de auto-riquixás. É
dar de cara com uma vaca atrapalhando o trânsito
ou ver macacos destruindo antenas de carros estacionados.
É exercitar a paciência com a legião
de miseráveis que segue e aborda insistentemente
os turistas desacompanhados.
Ao
pisar em solo indiano, esqueça a lógica
que norteia o mundo ocidental. Com 1,03 bilhão
de habitantes, 25 línguas oficiais, 4,5 mil anos
de civilização e 330 milhões de
deuses apenas no hinduísmo, não é
possível para o turista encarar a índia
da mesma forma que um país europeu e até
mesmo asiático, como o Japão. A pobreza
convive com uma opulência sem limites de palácios
e hotéis de luxo.

Taj Mahal, Agra
Deslumbramentos
Viajar
para a India é também se deslumbrar com
as indianas de sáris e cabelos enfeitados com
jasmim. É topar com uma diminuta capela multicolorida
e adornada com imagens numa esquina onde foi feita uma
puja ( oferenda ). É visitar um templo
jain que resplandece de tão limpo. É,
ainda, viajar de avião numa poltrona vizinha
à de um sadhu ( homem santo ) descalço,
sem camisa e enrolado em um pano que faz as vezes de
manto.
Nos
mercados, quinquilharias chinesas disputam espaço
com tecidos de seda e pashmina ( lã
de cabra do Himalaia ) que custam algumas centenas de
dólares. O país da ahimsa ( a
disciplina da não-violência ) vive em prontidão
militar e às vezes é surpreendido por
ataques terroristas como as explosões que ocorreram
recentemente em Délhi. Não é preciso
mais que uma conversa rápida com um indiano que
professa a fé hindu para perceber ressentimentos
com os compatriotas de origem muçulmana. A recíproca
também é verdadeira.

Jain Temple, Mumbain
Castas
e Modernidade
Nos
últimos anos, a sociedade indiana se abriu para
o mundo. Brotaram pelas metrópoles shopping centers,
prédios revestidos de alumínio e vidro,
cafés no estilo Starbucks e lojas de grife. Mas
esse é um fenômeno superficial. Por baixo
da casca da modernidade das grandes cidades e dos jovens
que trabalham no setor de tecnologia de informação,
ainda há um povo com tradições
arraigadas, princípios religosos seguidos à
risca e um sistema de castas que resiste a séculos.
Nas ruas, é possível ver os dalits
( antes chamados intocáveis ) fazendo todo
o tipo de serviço que os membros de outra casta
se recusam. São dalits as mulheres que,
encurvadas varrem as ruas com suas vassouras de palha.
Assim como são dalits os homens que
mergulham sem qualquer tipo de proteção
em águas fétidas para limpar canais por
onde corre o esgoto.
Em
um país tão caótico e diverso não
é preciso ir além dos limites da grandes
cidades para se perceber a dimensão do gigantesco
quebra-cabeças indiano. Lugares como Agra, Varanasi
e Jaipur são obrigatórios, mas Délhi,
Mumbai, Chennai e Bangalore têm atrações
de sobra para mostrar o quanto a Índia é
complexa e intrigante. E a primeira regra para um turista
que desembarca por lá é entender que uma
cidade, um prédio e mesmo uma rua podem ser chamados
por nomes diferentes.
A
metrópole colonial dos ingleses teve seu nome
original Bombaim, trocado por outro em homenagem a uma
deusa, Mumbaim, há cerca de 10 anos. O mesmo
aconceteceu com Madras, que virou Chennai. Até
Calcuta da Madre Teresa também foi varrida por
um furor nacionalista e virou Kolkata.

A
questão é que os nomes novos e os antigos
sobrevivem lado a lado. Cada um chama do nome que mais
gosta. O mesmo acontece com ruas, prédios públicos
e museus. Deu de cara com uma placa escrito Chhatrapati
Shivaji Maharaj Vastu Sangrahalay? É o novo nome
do Prince of Wales Museum, de Bombaim, ou melhor, Mumbai.
Não acha no mapa a Adam´s Road, de Chennai
? Tente Swami Sivananda Salai.
Hotéis-Palácio
A
Índia tem tradição em hotéis-palácios
- são dezenas por todo o país, de redes
como Taj e Oberoi. Muitos estão instalados em
palácios legítimos ocupados pelos tais
nababos e marajás do passado. Mas há também
versões de opulência para os novos tempos
da tecnologia da informação, como o Leela
Palace de Bangalore, ligado ao grupo alemão Kempinski.
O hotel, em pleno centro da tecnologia de computação
da Índia, ocupa uma imensidão de nove
acres de jardins.
A
arquitetura foi inspirada no império hindu Vijaynagar,
que ocupou todo o sul da Índia no século
16, região onde está hoje Bangalore. Lá
estão as cúpulas douradas, arcos e tetos
copiados dos palácios antigos da região.
No quartos, banda larga e duas linhas telefônicas
diretas garantem a conectividade dos magnatas do Vale
do Silício que visitam constantemente a região.
Não é a toa que na lista dos hóspedes
ilustres do Leela figura nada menos que o próprio
Bill Gates, o dono da Microsoft e homem mais rico do
mundo.


Fontes
: Daniel Hessel Teich, Princess Travel e Interpoint |