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Jerusalém
Imaginem
um jardim situado entre dois desertos e próximo a um
mar que não tem vida, o Mar Morto. Ao sul dele espalha-se
o terrível Neguev e, ao oriente, as áridas areias
avermelhadas da Judéia. A escassa água que por
ele corre tornou-se através dos séculos motivo
de lutas entre todos os povos vindos das terras escaldantes
dos arredores. Além disso, entre os ciprestes e rochas
que se espalham pelos Montes de Sion, Scopus, Moriah e Oliveiras,
encontram-se inúmeras grutas e cavernas que todos supõem
serem sagradas. De pedra cinza-claro, a beleza e mistério
delas exerceu sempre um espantoso efeito de atração
sobre os habitantes da antiga Canaã. Pensavam que por
aquelas aberturas naturais feitas na rochas os deuses enviavam-lhes
augúrios ou advertências. Eram, diziam, as gargantas
dos deuses. Os ruídos e estranhos sons por elas omitidos
somente cabia aos profetas e aos iluminados de Deus entender.

A
capital das 12 tribos
Bem ali,
em meio àquele desconsolo de pedras e areia que cercava
um riacho, envolvida por um ar de magia e fé, formou-se
Jerusalém! Num dos seus primeiros momentos, as lutas
pela sua posse entre filisteus politeístas e monoteístas
hebreus, conduziram a que o rei Davi, o sucessor de Saul,
conquistasse-a dos jebusianos. Supõe-se que ao redor
do ano 1000 a.C., o rei-pastor consagrou-a como a capital
de todas as 12 tribos de Israel. Sucedido em 970 a.C. pelo
seu magnífico filho, o sábio rei Salomão,
com seus tributos de 666 talentos de ouro, com quatro mil
estábulos para os seus 12 mil cavalos, Jerusalém
tornou-se a digna morada de Jeová, em honra de quem
o lendário rei, trazendo cedros do Líbano, reformou
o Primeiro Templo. O deus dos hebreus deixava de ser uma divindade
dos desertos para ir habitar um grande centro.

Zeus
e Marte
Zeus e
Marte trazidos em 332 a.C. nas pontas das lanças das
falanges de Alexandre, o Grande, tomaram de assalto a cidade
sagrada. A política de tolerância religiosa do
afamado conquistador macedônico, porém, não
foi seguida pelos seus sucessores. Antíoco Epifanes,
um inábil governante, exigiu que Zeus fosse cultuado
dentro do templo, enquanto proibia aos judeus de praticar
os seus ofícios. O resultado não se fez esperar.
Em 168 a.C., eclodiu a terrível rebelião dos
macabeus. Primeiro foi o sacerdote ancião Matatias,
o Hasmodeu quem comandou a resistência, em seguida foi
seu filho Judas, o Macabeu ("o martelo") que liderou
a revolta até que Zeus e Marte fossem expulsos dos
altares do Templo de Jerusalém. Depois, devidamente
purificados, instituiu-se a festa da Hanucá, a "festa
das luzes".

Os
romanos
Nem bem
o todo-poderoso do monte Olímpico retirara-se de Jerusalém
quando, em 63 a.C., chegou a vez Júpiter Capitolino
lá ir assentar-se. Dessa vez o novo deus viera trazido
pelas poderosas legiões romanas de Pompeu.
Percebendo que a sobrevivência de um estado hebreu seria
impossível sem o apoio de Roma, o rei Herodes, também
um Hasmodeu, o tão odiado tirano das lendas cristãs,
resolveu submeter-se ao novo poder emergente. O Reino de Israel,
de 37 a.C. a sete d.C., tornou-se um estado vassalo dos césares.
O soberano governante não sentiu nenhum pudor em batizar
uma série de localidades hebréias com nomes
romanos (tais como o porto de Cesaréia ou o Lago Tiberíades),
afirmando publicamente aquela subordinação.
Foi por essa época, da aliança entre Jeová
dos judeus e Júpiter Capitolino dos romanos que uma
seita de camponeses, pastores e alguns pescadores floresceu
na Galiléia, aproximando-se depois para as cercanias
da cidade.
Jesus
Cristo
Eles seguiam
um pregador milagroso de Nazaré chamado Jesus. Para
os crentes, era evidente que aquele homem santo tratava-se
do tão esperado messias, o salvador, anunciado pelo
profeta Elias. Apesar de ter concentrado sua atividade ao
redor do Mar da Galiléia (Lago Tiberíades),
Jesus Cristo percebeu que a grande batalha se daria com a
conversão de Jerusalém. A qual ele também
previu maus agouros. Quando ele saía do Templo em Jerusalém
e os discípulos mostravam-lhe as construções
do grande edifício, ele lhes disse; "Estais vendo
tudo isto? Em verdade vos digo: não ficará pedra
sobre pedra que não seja demolida"(Mateus, 24).
Numa das páscoas, ele fizera uma entrada triunfal na
cidade sagrada, onde a multidão o acolheu com palmas.
Mas foi só. Os demais hebreus, principalmente os sacerdotes
do Sinédrio, viram-no como um herético, um desordeiro.
"Jerusalém,
Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que
te são enviados, quantas vezes quis eu ajuntar os teus
filhos... e não o quiseste!" - Jesus Cristo (Mateus)

A
Rebelião
No ano
de 66, a sempre tensa paz entre romanos e hebreus foi rompida.
Milhares deles, a partir de Cesaréia, durante quatro
anos, pegaram em armas numa tentativa inútil de expulsar
os funcionários de César da terra prometida.
A vingança de Júpiter Capitolino foi terrível.
Em 70, o general romano Tito, obedecendo as ordens do seu
pai Vespasiano, enviados ambos à Palestina para reestabelecer
a ordem imperial, assaltou Jerusalém, e incendiou e
arrasou o templo, não sem antes promover-lhe o saque
completo. Deu-se assim a segunda destruição
do templo, separada da primeira, executada pelos babilônicos
fazia quase 600 anos atrás. No arco comemorativo de
Tito, erguido em Roma,
O espólio
do Tempo celebrando o episódio, pode-se ver num dos
frisos o desfile dos troféus pilhados pelos romanos.
Entre eles, o enorme Candelabro de Hanuká, o das sete
velas, carregado pelos vitoriosos. A destruição
do templo desarticulou o povo hebreu. Doravante o seu único
amparo viria do Livro, das rezas e das súplicas. A
cidade de Jerusalém transformou-se num quartel romano.
O imperador Adriano, que a visitou no ano de 131, chamou-a
de Aelia Capitolina.

Judeus,
um povo errante
Os hebreus,
gente sem terra, sem templo e sem rei, a partir de então,
principalmente depois do fracasso do levante de Bar Kokhba
(esmagado pelo general romano Julius Severus no ano de 135),
passaram a ser referidos como judeus. Marcados como um povo
danado, obrigado a errar para cá e para lá aos
sabores do acaso. Espalharam-se. Jeová, reduzido ao
nomadismo dos tempos das tribos de Israel, rumou então
para a longa diáspora que se estendeu por dezenove
séculos. Nesse tempo todo virou um errático,
num deus quase clandestino, cultuado muitas vezes à
socapa. Cumpria-se, assim diziam, coletivamente, a maldição
que Jesus teria lançado sobre o sapateiro Aasverus
de Jerusalém o qual, negando-se a dar-lhe apoio quando
cambaleava indo com a cruz para o Gólgota, foi condenado
a vagar pelo mundo sem lar e sem sepultura por toda a eternidade.Enquanto
isso, a cidade de Jerusalém transformou-se num quartel
romano. O imperador Adriano, que a visitou no ano de 131,
chamou-a de Aelia Capitolina.
Jerusalém
cristã
Entrementes,
o Cristianismo ganhava adeptos em Roma e em Bizâncio,
ofuscando Júpiter Capitolino. O mundo pagão
declinava e o dos seguidores de Jesus ascendia. Jerusalém,
quase deserta, empobrecida e abandonada por todos, foi salva
do mais completo desconsolo pela conversão do imperador
Constantino, o Grande (ocorrida em 312). Foi Helena, a imperatriz-mãe,
uma fervorosa adepta da nova religião, quem lá
chegando atrás da cruz, providenciou o reconhecimento
dos lugares santos por onde Jesus passara e sofrera, restaurando
o trajeto do calvário e mandando erguer a Igreja do
Santo Sepulcro. Assim por meio de uma série de obras
piedosas fizeram com que dali em diante Jerusalém também
se tornasse um lugar de devoção dos cristãos.
Os seus portões passaram então a abrir-se, acolhendo
as levas de peregrinos recém-convertidos à nova
fé do Império Romano.

A
chegada de Alá
Tudo parecia
indicar que Jerusalém, com o banimentos dos judeus,
daria abrigo perpétuo ao deus cristão. Então
um novo e empolgante deus emergiu dos desertos da Arábia,
logo trazido até a Palestina pelas cimitarras dos beduínos.
Foi a vez de Alá deslocar o deus cristão, instalando-se
na cidade santa pelas mãos do califa Omar, que a ocupou
em 636. Em pouco tempo, os minaretes dominaram a paisagem.
Não demorou muito para que o grande edifício
da Esplanada da Mesquita, com sua maravilhosa cúpula
dourada - que brilha como um sol no seu esplendor -, afirmasse
que dali em diante a Palestina inteira deveria seguir os ensinamentos
do profeta. Construíram-na sobre o Monte Moriah, bem
sobre a pedra em que o patriarca Abrãao teria feito
o sacrifício do seu filho Isaac e de onde, bem mais
tarde, o espírito de Maomé erguera-se em direção
ao além.
Maomé
e os hebreus
O profeta
Maomé, num primeiro momento ainda em Medina, pensava
ordenar aos seguidores que fizessem a qibla, a orientação
das suas preces, na direção de Jerusalém.
O motivo era que lá também celebrava-se um só
deus, o "Mericordioso", como tantas vezes os hebreus
testemunhavam. Mas os judeus de Medina zombaram da nova fé.
Maomé lhes moveu guerra e os submeteu a um imposto.
Isso não o impediu que, quando Alá o avisou
da proximidade da sua morte, ele ter feito uma longa cavalgada
noturna de Meca a Jerusalém para ir dali direto ao
Sétimo Céu, para um encontro com o Eterno. O
califa Omar ( não se sabe se Omar I, ou Omar II, que
governou de 717 a 720) porém, uns tempos depois, elaborou
para o "Povo do Livro" um estatuto melhor, tornando-os
seus protegidos ( dimis). Desde que aceitassem o domínio
do Islã poderiam manter a sua liberdade religiosa,
ainda que sob certas restrições.

A
tolerância de Saladino
Em 1187,
Saladino, sultão do Egito e da Síria, estimulando
todo o povo árabe à Jihad, a um levante sagrado
contra os cristãos, conseguiu, graças as suas
habilidades guerreiras e às artimanhas diplomáticas,
retomá-la dos cruzados. Demorara 88 anos para que um
muçulmano voltasse a pôr os pés na no
Haram As-Sharif, o monte onde se encontra a Grande Mesquita
em Jerusalém. Em seguida, permitiu que os judeus para
lá voltassem. Alá, então, foi misericordioso
com o povo de Jeová, aceitou que lá abrissem
a sinagoga de Ben Najmam em 1267. Mais tarde, com a proteção
da Sublime Porta Otomana, Alá reinou quase que absoluto
na Cidade Santa por sete séculos seguidos, até
a chegada das tropas britânicas. Em 1918, sob o comando
do general Allenby, a cidade sagrada foi resgatada dos turcos.
Então deu-se a vez do deus cristão voltar a
dominar.
O
Retorno de Jeová
Jeová
enquanto isso preparava-se para voltar. Depois de ter padecido
nas mãos da Inquisição do Santo Ofício,
de ter sido humilhado nos pogroms dos cristãos ortodoxos
no leste europeu, e de ter sido quase exterminado pelos nazistas
na Segunda Guerra Mundial, o deus dos judeus começou
seu caminho de retorno a Jerusalém. Em cinco de maio
de 1948 fundou-se o Estado de Israel. Hoje, é Jeová
quem conta com o apoio do seu antigo algoz, o Deus da cristandade,
em sua luta contra Alá. Desde então, há
mais de meio século, Jerusalém voltou a ser
palco de intensas disputas. Os israelenses querem-na por inteiro
pelo seu simbolismo, por representar a sua unidade, por ter
sido a antiga capital das 12 tribos de Israel. Os árabes,
por sua vez, sofrem pesadelos em imaginar que a Esplanada
do Templo, da sacrossanta Al Aqsa Mosque, possa vir a cair
definitivamente nas mãos dos israelenses. E assim se
encontra até hoje a Cidade Santa. O que deveria ser
o exemplo da concórdia e da tolerância entre
os homens do mundo inteiro tornou-se o seu contrário.

Jerusalém
hoje
No perímetro
de Jerusalém se encontram os lugares mais sagrados
do cristianismo (Santo Sepulcro) e do judaísmo (Muro
das Lamentaçõees), assim como o terceiro lugar
santo do Islã (a esplanada das mesquitas, com a mesquita
Al Aqsa).Proclamada capital do estado de Israel em 1948, Jerusalém
oeste nunca foi reconhecida como tal pela comunidade internacional,
que tampouco reconheceu a anexação unilateral
da parte oriental da Cidade Santa após a guerra dos
Seis Dias em junho de 1967.
Cidade
sagrada para árabes, judeus e cristãos, Jerusalém,
graças ao seu poder simbólico, tem sido historicamente
palco de terríveis guerras e massacres entre os seguidores
de Deus, de Jeová e de Alá.
Dia
a Dia
Mesmo
após Israel ter capturado a parte oriental em 1967,
a cidade ainda é dividida fisicamente, apesar de ser
inteiramente governada pelos israelenses.
No lado
oriental, vivem os árabes, tanto muçulmanos
quanto cristãos. Há alguns encraves judaicos,
onde vivem israelenses. Um dos dois campi da Universidade
Hebraica de Jerusalém também fica no lado oriental.
Na parte
ocidental, vivem os israelenses judeus. É a parte moderna,
onde se localiza o Knesset (Parlamento), a Suprema Corte,
os shoppings, os bares, as boates e as charmosas ruas Jaffa
e Ben Yehuda, que infelizmente já foram alvo de dezenas
de atentados terroristas. Entre os dois lados, está
a parte antiga de Jerusalém. Lá dentro está
o Muro das Lamentações, a Esplanada das Mesquitas
e a igreja do Santo Sepulcro.
Mas antes
uma nova explicação sobre outra divisão
dessa cidade. A parte velha é dividida em quatro quadriláteros:
o muçulmano, o cristão, o armênio e o
judaico.
Para entrar
na cidade, há sete portões. O mais usado pelos
árabes é o portão de Damasco -- de onde
saía a estrada para a atual capital da Síria.
Os judeus usam mais o portão Jaffa -- de onde seguia
a estrada para a cidade que hoje se tornou um subúrbio
de Tel Aviv - e o portão Zion, que dá acesso
direto ao Muro das Lamentações.
A parte
muçulmana é a mais agitada, sempre lotada de
árabes que a utilizam para fazer as suas compras do
dia-a-dia. Há casas de câmbio e lojas de CDs
e fitas piratas, uma cena comum em mercados árabes
em outras cidades da região, como Cairo e Damasco.
A música é um rock árabe. No meio das
lojas, em uma espécie de praça, mulheres vendem
folhas de uva sentadas no chão. Há barracas
de suco e de shawarma -- sanduíche árabe.
A Esplanada
das Mesquitas fica na parte muçulmana. No alto dela,
localizam-se a mesquita do Domo da Rocha, de onde o profeta
Muhammad teria subido aos céus, e a mesquita de Al
Aqsa. Porém o acesso a elas se dá pela parte
judaica, por uma escadaria que fica ao lado do muro.
Para entrar
na parte judaica, é preciso passar por detectores de
metal. A principal atração desse quadrilátero
é o muro, que fica lotado após o pôr-do-sol
da sexta-feira, quando tem início o shabat - dia do
descanso para os judeus.
O colorido
dos judeus rezando --homens de um lado e mulheres do outro--
é impressionante. De pé, eles fazem movimentos
nos quais curvam a coluna em direção ao muro
seguidas vezes. Grupos de judeus, a maioria ortodoxos, chegam
juntos, cantando músicas religiosas, animados. Em um
dos cantos, um rabino toca uma espécie de berrante,
enquanto outras pessoas dançam em uma ciranda de mãos
dadas.
O muro
é o suporte da Esplanada das Mesquitas --que os judeus
chamam de Monte do Templo. Isso porque nesse local ficava
o templo de Salomão, exatamente no mesmo lugar onde
hoje está o Domo da Rocha --a pedra dentro da mesquita
de onde o profeta Muhammad subiu para os céus, e a
mesma na qual o patriarca judeu Abraão sacrificou o
seu filho Isaac.
A Esplanada
das Mesquitas permanece vazia durante a maior parte do tempo.
Lota nos horários das orações, especialmente
às sextas-feiras, dia sagrado para os muçulmanos.
Hoje é
complicado entrar nas mesquitas. Apesar de não ser
proibida a visitação, alguns homens ficam nas
portas de entrada e, se percebem que o turista não
é muçulmano, o impedem de entrar. E não
tem discussão.
A parte
cristã da cidade tem que começar a ser visitada
a partir do quadrilátero muçulmano --ponto de
partida da Via Dolorosa. O ideal é que esse passeio
ocorra também em uma sexta-feira --obviamente o melhor
dia para ir à cidade. É nesse dia que os franciscanos
organizam uma procissão, passando por todas as estações
da Via Dolorosa até chegar à igreja do Santo
Sepulcro.
Jerusalém
- Temperatura Celsius ( Miníma / Máxima
) - Janeiro : 6-11 ; Agosto : 19-28
Fontes
: Embaixada Israelense (Brasil), National Geographic e http://educaterra.terra.com.br
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