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Novo
documentário dos Rolling Stones contará com
80% de imagens inéditas
Um novo documentário da banda de Mick Jagger e Keith
Richards deve ser lançado ainda neste ano. Diferente
dos outros filmes dos Rolling Stones, o novo trabalho contará com
80% de imagens inéditas.
Ainda sem título e previsto para ser lançado
nos cinemas em setembro deste ano, o documentário
contará com a direção de Brett Morgen – diretor
de O Show Não Pode Parar (2002).

Rolling Stones 1963
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Integrantes
dos Rolling Stones no começo
da carreira. (Divulgação)
"Ninguém
nunca montou a história como uma narrativa. Olhamos
embaixo de cara pedra, vasculhamos o arquivo deles. Será como
uma música nunca ouvida antes e já fiz mais
de 50 horas de entrevistas com eles. Quando terminarmos,
será a entrevista em grupo mais longa que eles já terão
feito", disse o diretor em entrevista à Rolling
Stone estadunidense.
Keith
Richards ficou surpreso pela quantidade de material inédito. “Ele – Morgen - me disse que
80% das imagens nunca foram vistas antes, o que me surpreende.
Não sabia que tinha tanta coisa", escreveu
o guitarrista na internet.

Richards, 1972
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Charles and Mick

The Rolling Stones, 1972
O filme
será o primeiro a passar por todas as fases
da banda e vai ser uma das principais ações
para celebrar os 50 anos dos Stones. A produção-executiva
do filme está nas mãos de Mick Jagger, Keith
Richards, Ron Wood e Charlie Watts.
Alguns Filmes sobre os Stones
1966 - Charlie Is My Darling
1968 - Sympathy For The Devil
1968 - The Rolling Stones Rock And Roll Circus
1969 - The Stones In The Park
1974 - Ladies and Gentlemen: The Rolling Stones
1975 - Cocksucker Blues
1982 - Let's Spend the Night Together
1984 - Video Rewind
1989 - 25 x 5: The Continuing Adventures of The Rolling
Stones
1991 - Live At The Max
1994 - Live Voodoo Lounge Souvenir Video (Giants Stadium)
1994 - Voodoo Lounge
1998 - One Plus One
1998 - Bridges To Babylon Tour 97-98
2003 - Four Flicks
2004 - Toronto Rocks
2007 - The Biggest Bang
2008 - The Rolling Stones Shine a Light |

Ronnie Wood (left) and Mick Jagger
(right) 1975
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Tour of the Americas '75, 23 July 1975
L to R: Wood, Richards and Jagger
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Stones 2006

Stones 2008
Discografia
Rolling Stones
Exile on Main St.
A
força de uma lenda
"Você não consegue um take até o
Keith começar a olhar para o Charlie e chegar perto
dele e, depois, Bill se levantar da cadeira. Então,
isso se transforma nos Rolling Stones", diz Andy Johns,
engenheiro que gravou boa parte de Exile on Main St., dos
Stones, há quase quatro décadas. "No
resto do tempo, é só besteira. Mas se o Bill
se levanta da cadeira e o Keith está olhando para
o Charlie, você sabe que está chegando perto.
E vai de 'Que diabos é isso?' a 'Meu Deus do céu!' É uma
experiência de outro mundo.". Embora o currículo
de Johns como engenheiro e produtor inclua mais de 200
projetos, com álbuns que vão de Led Zeppelin
IV ao IV do Godsmack, ele nunca conseguiu fugir daquele
porão abafado no sul da França, com Keith
Richards, Mick Jagger, Mick Taylor, Bill Wyman e Charlie
Watts - ainda jovens e flexíveis, descamisados e
suados - tocando repetidamente versões claudicantes
e fora do tom de músicas ainda incompletas, até os
Rolling Stones se materializarem repentinamente. Só que
o s Stones também nunca conseguiram fugir de lá.
Exile
on Main St., de 1972, foi relançado nos Estados
Unidos em um pacote mais do que luxuoso que inclui um CD
remasterizado com o álbum original, outro disco
com dez gravações (algumas com letras e vocais
recém-adicionados), um livro de 64 páginas
e um documentário em DVD. Para quem quer vivenciar
novamente Exile em sua forma mais pura, também há uma
versão remasterizada em vinil. "Se eu me lembro
de como isso funcionava", diz Jagger, com sua famosa
ironia, "você tocava um lado, ia comer alguma
coisa e depois botava o outro para tocar".
Deixaremos
para discutir se Exile é ou não
o melhor álbum de rock and roll de todos os tempos
para outra hora: em 2003, uma pesquisa entre críticos,
músicos e representantes da indústria musical
levou a e dição norte-americana desta revista
a colocá-lo na sétima posição,
atrás de, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band,
Pet Sounds, Revolver, Highway 61 Revisited, Rubber Soul
e What's Going On. Mas mesmo se você adotar essa
lista, o duro, desafiador, depressivo e às vezes
exuberantemente desagradável Exile é, certamente,
o álbum mais roqueiro de seu segmento. Nenhum dos
outros chega tão perto da síntese ideal de
blues, country e R&B - e nenhum se aproxima de sua
energia resoluta.
Infelizmente,
a safra desses discos - Exile é o
mais recente deles - não representa com precisão
a contínua vitalidade do rock. E, se você fica
deprimido ao pensar que essa obra-prima foi lançada
no mesmo ano em que a primeira calculadora portátil,
como seus criadores se sentem? A obsessão deles
com Exile terminou quando a de todo mundo começou
- isto é, quando a última faixa finalmente
foi mixada - e desde então eles esgotaram o assunto,
mas estão colaborando; sua gravadora, a Universal
Music, investiu uma fortuna nessa empreitada conspicuamente
nostálgica. As primeiras palavras a sair da boca
de Richards são: "A droga do Exile on Main
St., certo?" Ele ri quando diz isso, mas passou 2009 "preso
tentando se lembrar do passado" enquanto trabalhava
com o escritor James Fox em uma autobiografia a ser publicada
em outubro. "Se procurassem os autos dos tribunais",
conta, "teriam mais fatos do que eu". Os outros
stones e o círculo deles estão compartilhando
lembranças para o livro de Richards.O novo documentário,
Stones in Exile, precisava de mais entrevistas e - agora
que o pacote finalmente está saindo - é a
vez de os repórteres perguntarem. "Já aconteceu",
afirma Watts. "Tenho certeza de que o Mick está cheio
disso, porque ele não é exatamente fã do
passado."
Nenhum
dos stones é. Embora Watts tenha ouvido
as "faixas-bônus" ("Acho que é assim
que as chamam atualmente", diz), ele não escutou
novamente o álbum original. " Mas nunca escuto
nossas coisas - nenhuma delas." Quando a Universal
sugeriu a reedição de Exile, Richards não
reagiu positivamente. " 'Não sei, lançar
um disco antigo?' E eles argumentaram: ' Ei, é um álbum
muito interessante, tem uma espécie de aura em volta
dele'." Agora que o revisitou, parece mais carinhoso
do que reverente. "Quer dizer, não é como
se nunca o tivesse ouvido depois de gravarmos, claro",
afirma, "mas, escutando-o inteiro agora, acho que
ele ainda se segura. Até gostei de 'Torn and Frayed'.
Amo 'Sweet Virginia', e acho 'All Down the Line' matadora, é incrível
conseguir tocá-la." Jagger sabe tudo sobre
essa "aura" - concorda com o resto da banda que
Exile era a escolha certa para uma reedição
de luxo - mas não lhe peça para explicar
por que fãs e críticos têm uma fixação
pelo álbum. "Acho que significa coisas diferentes
para várias pessoas", diz. "Não
sei o porquê, de verdade. Elas gostam de sua amplidão,
dos estilos diferentes, dos trechos estranhos, do som bruto,
e pronto. Quem sabe? As pessoas gostam de muitas coisas
nele. Acho que é um tanto extensivo, então
sempre dá para encontrar alguma coisa que você não
ouviu antes, talvez?"
Jagger
reconhece que falar sobre musicas antigas e memórias "não é a
minha" mas foi o primeiro a vascular o material gravado
entre 1960 e 1972 a partir do qual o álbum original
foi montado. Ele entregou discos rígidos (com cerca
de 300 horas de musica) a Don Was, produtor dos Stones
desde 1983. "Acho que foi um presente de grego",
relembra Was. "Não era algo que eu queria fazer,
ele meio que se desculpou por me meter nisso." Jagger
também deu a ideia de um documentário sobre
Exile e embora a maioria das faixas instrumentais para
o CD-bônus fosse forte - Richards passou apenas uma
hora acrescentando guitarra aqui e ali -, cinco delas (mais
uma instrumental curta) nunca haviam recebido vocais ou
letras, e Jagger tratou de terminar o trabalho. "Ouvi
um pouco do álbum e simplesmente incorporei a atitude.
Não sei se isso as diminui ou não, quer dizer,
posso ter mentido para você - e você teria
acreditado totalmente em mim." O engenheiro Bob Clearmountain,
que mixou as novas faixas, mexeu um pouco na voz de Jagger "para
tentar fazer com que ele soasse como era há 30 anos".
E é preciso ter alguém com ouvido apurado
- Charlie Watts, por exemplo - para detectar uma firmeza
delatora e um timbre mais fino e cortante do que Jagger
tinha aos 20 anos. "Minha única crítica
sobre as novas faixas é que a voz soa como se tivesse
sido gravada ontem", diz Watts. "Isso é inevitável,
mas acho que o Mick gosta delas. Estava bem satisfeito
quando as entregou para mim, deve ter curtido."
Jagger,
Was e Clearmountain tentaram manter o som das faixas
recém-completadas o mais parecido possível
com o ambiente áspero e cru criado por Johns e pelo
produtor de Exile, o falecido Jimmy Miller (o próprio
Miller não gostava dele, e Jagger também
já expressou descontentamento). Com exceção
de alguns vocais secundários e uma seção
de cordas de seis violinos em "Following the River",
eles não usaram músicos que não estavam
nas sessões de gravação originais;
para uma faixa, "Plundered My Soul", Jagger levou
Mick Taylor, que saiu dos Stones em 1974, a um estúdio
de Londres, no ano passado, para incluir "aquelas
linhas principais de Mick Taylor". Was e Clearmountain
até mantiveram a mesma colocação dos
instrumentos no espectro esquerdo-direito. "Se o piano
está em um determinado ponto em Exile, está no
mesmo ponto agora", afirma Was. "Não tentamos
mudar nada."
Richards,
sempre com uma metáfora citável
na ponta da língua, diz que retocar as gravações "não
foi repintar o sorriso da Mona Lisa. É uma obra única,
feita em um lugar peculiar, e tinha de soar assim".
Algumas das músicas que entraram no Exile original,
como "Shine a Light," "Sweet Virginia" e "Stop
Breaking Down", haviam sido gravadas no Olympic Studios,
em Londres, em sessões para os álbuns anteriores
dos Stones, Let It Bleed e Sticky Fingers, mas eles gravaram
a base das músicas que melhor o definem - "Tumbling
Dice," "Happy" e "Rocks Off" -
em Nellcôte, a mansão alugada por Richards
em Villefranche-sur-Mer, na Côte d'Azur francesa,
entre o final de junho e outubro de 1971. Se ainda é difícil
se preparar para ouvir Exile - Don Was admite que "até hoje é muito
mais fácil colocar Let It Bleed para tocar" -
isso pode ter algo a ver com as circunstâncias nas
quais o disco foi gravado. Richards fala do período
em Nellcôte como "uma luta para a banda se manter
viva", e sem dúvida os Stones deixaram quaisquer
tristezas e ansiedades individuais e coletivas que tinham
transparecer nas faixas.
Os
Stones devem ter sido um grupo de pessoas nervosas naquele
verão. Quatro anos antes, Jagger e Richards
haviam sido presos com drogas pela primeira vez; a banda
tinha demitido seu primeiro empresário (e mentor),
Andrew Loog Oldham; e Richards estava morando com Anita
Pallenberg, namorada de Brian Jones, membro fundador e
ex-líder da banda. Então, em 1969, eles demitiram
Jones, e o substituíram por Mick Taylor, o guitarrista
de 20 anos do John Mayall's Bluesbreakers. Pouco depois,
Jones apareceu morto em sua piscina. Naquele outono, na
Altamont Speedway, na Califórnia, o Hell's Angels
matou um fã enquanto a nova formação
dos Stones tocava "Under My Thumb". Em 1971,
a banda teve um novo álbum de sucesso, Sticky Fingers
- e descobriu que, apesar das vendas, estava falida. Graças
a uma relação desastrosa com o agente, Allen
Klein, cada um deles (exceto o recém-contratado
Taylor) devia mais de £ 100 mil em impostos. O grupo
também rompeu com Klein, mas ele ganhou os direitos
de todo o catálogo de músicas lançadas
antes de 1970, e, devido à alíquota de imposto
confiscatória da Inglaterra, os Stones não
tinham esperanças de pagar as contas e voaram para
a França. Por que a França? Principalmente
porque era perto e tinha leis fiscais mais brandas. Logo
depois da mudança, Jagger se casou com a modelo
nicaraguense Bianca Pérez Morena de Macías,
em uma cerimônia em Saint-Tropez para a qual ninguém
dos Stones, exceto Richards, foi convidado. Enquanto isso,
Richards e Anita refugiaram-se em Nellcôte com o
filho, Marlon, e se tornaram Lorde e Dama da Anarquia.
É difícil sentir pena desses refugiados
de alta categoria - e, para mérito deles, os integrantes
dos Stones não pareciam sentir pena deles mesmos. "Ei,
o que é tão difícil em gravar um álbum
na Riviera?", Richards se lembra de pensar na época. "Sabe,
deitado numa praia sob o sol? Jesus, o que mais eu poderia
querer?" Ainda assim, eles tinham casas e, em alguns
casos, famílias, na Inglaterra, e Watts, por exemplo,
nem falava francês. "Como um legítimo
inglês", Wyman escreveu em sua autobiografia: "Eu
tinha dúvidas a respeito do exílio no sul
da França... mas minha relutância em ir foi
substituída por nossa condição financeira
desesperadora". Quando chegaram - Wyman em Grasse,
Jagger em Biot e Watts, que não gostava da Côte
d'Azur, em uma fazenda a seis horas de distância
-, começaram a procurar um estúdio onde gravar
um sucessor para Sticky Fingers, que havia sido lançado
enquanto eles saíam da Inglaterra, em abril. "De
repente, tivemos de deixar tudo, onde sabíamos como
trabalhar e onde estávamos acostumados a trabalhar",
conta Richards, "e agora - bum, vamos sair. Como vamos
montar tudo em outro lugar? Achávamos que em Cannes,
Nice, Monte Carlo ou Marselha haveria um estúdio
decente para trabalharmos. Nada disso. Quer dizer, esses
caras estavam gravando jingles franceses. Então,
para encurtar a história, lembramos que tínhamos
nosso próprio caminhão de gravação".
Como já o tinham usado em Stargroves, a casa de
campo de Jagger em Berkshire, para partes de Sticky Fingers,
o que poderia dar errado? "Então", diz
Richards, "todos se viraram para mim ao mesmo tempo
e olharam para meu porão. O principal [de Exile]
foi feito em Nellcôte, no porão. Estou vivendo
em cima da fábrica, e que fábrica era aquela".
A mitologia
de Nellcôte, as lendas sobre privilégio
decadente e prazeres fora da lei - um dos quais era o vício
de Richards em heroína - e a sinistra história
da casa deram o tom da reação a Exile. Richards
ainda afirma que a majestosa mansão, construída
por volta de 1890, com suas colunas, espelhos e cortinas
onduladas, serviu de quartel da Gestapo durante a Segunda
Guerra Mundial, e a principal evidência disso parecem
ser fofocas e as suásticas que ele e Johns viram
nas saídas de aquecimento do porão (essa
teria sido uma forma muitíssimo estranha de homenagear
o Reich: a suástica, um símbolo antigo, era
um motivo decorativo comum muito antes dos nazistas). O
quarto onde Watts ficava, lembra Johns, "parecia o
dormitório de uma prostituta cara. Tinha uma cor
rosa e uma cama grande. Na verdade, lembro que transei
com uma garota ali e fui descoberto". Em um momento,
o trabalho teve de parar porque algumas guitarras foram
roubadas. "É o sul da França, o que
você espera?", diz Richards. "Quero dizer,
eles abrem cassinos lá, sabe? Na verdade, recuperei
a maioria delas e peguei o cara que fez isso, mas essa é outra
história." Ele dá uma risada de pirata. "Ele
não está mais andando por aí."
Toda
essa opulência movida a ópio parece
se encaixar com as sonoridades sombrias e ásperas
de Exile, seu ar de ameaça sexy e suas letras dilapidadas
e devastadoras. No mundo de Exile, um amante é um "parceiro
de crime" e quem teve o coração partido
anseia pelos confortos da crueldade. Mas, depois de todos
esses anos, ver astros do rock consumindo drogas não
parece mais ser peculiarmente escandaloso para os padrões
de decadência dos vídeos de rap. Nellcôte
parece quase confortável. Portanto, a reedição
de Exile pode ser uma oportunidade de ouvir o álbum
como ele sempre foi: não apenas uma obra-prima,
mas um triunfo do trabalho em condições surpreendentemente
adversas.
Os
integrantes dos Rolling Stones podem ter imaginado ficar
deitados na praia tomando sol, mas
aquele "porão
sujo e nojento" cantado por Jagger em "Let It
Bleed", de 1969, acabou se tornando profético. "Não
havia ar ali", lembra Andy Johns. "Havia uma
ventilação minúscula de uns 12 ou
15 centímetros em uma janela, no canto, que girava
umas 20 vezes por minuto. Era terrível." E
sombrio. "Era uma atmosfera estranha", relembra
Richards. "Era muito, muito escuro - e empoeirado.
Não era um ambiente bom para, digamos, respirar.
Mick Taylor e eu olhávamos um para o outro no meio
da escuridão e dizíamos: 'Ok, em que acorde
está?' Era muito hitleresco - como os últimos
dias em Berlim." O porão era dividido em cômodos
pequenos e os músicos levavam amplificadores e tambores
de um lado para outro, em busca de sons interessantes.
Enquanto
isso, a unidade móvel com o equipamento
de gravação ficava estacionada no lado de
fora. "A comunicação eletrônica
não estava funcionando", lembra Johns, "e
eu tinha de sair do caminhão, correr pela casa,
descer a escadaria de ferro - em espiral - e gritar 'Pessoal!
Para tudo!'" Os músicos tinham de fazer o mesmo
na direção contrária. "Nossa,
cara, muita corrida", conta Richards. "Se eu
quisesse ouvir um playback, era sair do porão, ir
até o térreo e... Acabou se tornando parte
da rotina." Pelo menos essa perturbação
era previsível - diferentemente da eletricidade. "A
banda estava operando os equipamentos a partir do caminhão",
diz Johns. "E alguém teve a brilhante ideia
de, para economizarmos, fazer um 'gato' da rede elétrica
da rua." Isso dá uma noção clara
de qual deve ter sido a mentalidade em Nellcôte;
diz-se que Richards pagava £ 1 mil por semana de
aluguel. "Era como um grande transformador, mas, se
a voltagem caísse para um certo nível, apagava
tudo. Quer dizer, é a França, cara. Eles
ainda usavam cavalos para arar, e demorava meia hora para
fazer uma ligação telefônica. Além
do fato de que tudo saía do tom a cada dois minutos
por causa do calor, depois você tinha que lidar com
a queda de eletricidade - e isso acontecia quando eles
realmente estavam tocando no tom. Pela primeira vez em
quatro horas."
E a
falta de energia tinha seu equivalente humano. "O
talento, quando aparecia", afirma Johns, "tinha
de atravessar uma espécie de armadura de tédio.
Havia tanta espera e vadiagem... Bill chegava na hora,
eu chegava na hora, o Charlie também. Mas a programação
do Keith era bastante diferente da dos outros". Wyman
ficava particularmente frustrado com a ausência e
sumia também. Em algumas das faixas de Nellcôte,
Richards ou Taylor tocam baixo; meses depois, em Los Angeles,
o baixista Bill Plummer fez gravações para
quatro músicas. Jagger também se ausentava
frequentemente - ele tinha se mudado para Paris com Bianca,
e voava para as sessões. "Bianca estava grávida
e sentindo dores", Jimmy Miller lembrou, em 1977. "Muitas
manhãs, depois de ótimas noites de gravação,
eu ia para a casa do Keith almoçar, e, em poucos
minutos, sabia que algo estava errado. Ele dizia: 'Mick
fugiu para Paris de novo'."
No
entanto, uma das melhores faixas de Exile surgiu quando
todos menos Richards faltaram. "Simplesmente aconteceu
numa tarde na qual ninguém estava lá",
conta. "Eu tive uma ideia e não havia uma alma
por perto. Então Bobby Keys apareceu com o sax barítono,
e Jimmy Miller também." Miller, um baterista
experiente, sentou-se atrás da bateria de Watts
- e a base de "Happy" saiu. "Já a
tínhamos concluído antes de o resto do pessoal
chegar." Mas nem tudo foi um acidente feliz. Outra
faixa crucial, "Tumbling Dice", demorou para
ser finalizada. "Tínhamos mais gravações
dela do que de qualquer outra coisa", diz Johns. "Acho
que pelo menos 30 rolos de 2 polegadas. Keith se sentou
lá uma tarde, só tocando a repetição
de uma passagem por umas seis horas. Várias e várias
e várias vezes. Sentado na cadeira com as pernas
para cima ou algo assim." Richards não se lembra
disso, mas admite que parece plausível. "Se
eu não acerto, tento até conseguir",
diz. "Isso deve matar os outros de tédio, cara." Richards
não era o único amaldiçoado pela música. "Charlie
teve muita dificuldade em tocar a parte final", afirma
Johns. "Sabe onde ela quebra antes do fim? Ele teve
um bloqueio mental naquilo." Então, novamente,
Miller foi para trás da bateria: a versão
final tem Watts até o ponto no qual a seção
rítmica cai, então Miller entra para a conclusão
majestosa.
Miller
passou a pensar em Exile como "o álbum
do Keith", e a maior parte de seus momentos inesquecíveis
na guitarra - aquela introdução insuportavelmente
triste de "Tumbling Dice", o ritmo e o solo sobrepostos
em "Happy", com seu som cortante e implorador
- pertencem a ele. Mick Taylor nunca teve a chance de mostrar
totalmente sua habilidade, como fez na longa seção
final de "Can't You Hear Me Knocking", de Sticky
Fingers; ele simplesmente arregaça as mangas e vai
trabalhar em "Rocks Off", quando a faixa sutilmente
diminui de volume. Vista em 2010, a condução
excessiva, à Eric Clapton, de Taylor em músicas
como "Shine a Light" pode soar datada - sua guitarra
slide ardente em "All Down the Line" é uma
exceção brilhante - enquanto Richards, tocando
com mais coração do que técnica, continua
atemporal. Johns se lembra de uma noite em Nellcôte
quando Richards deu uma bronca em Taylor por tocar alto
demais. "Não sei do que se tratava, alguma
política interna, sabe. Porque Mick Taylor estava
tocando em volta dele, não tinha culpa." Entretanto,
hoje Richards diz que amou trabalhar com Taylor. "Antes
disso, tinha sido Brian e eu. Brian ficou cada vez mais
difícil, especialmente depois que roubei a mulher
dele - dá para imaginar [como era o clima]. Mas
com Mick Taylor meio que tive de descobrir uma nova maneira
de tocar. Tínhamos uma separação entre
a guitarra solo e a rítmica. Trabalhando com Brian,
não havia uma divisão em particular, mas
Mick Taylor era virtuoso, e eu era muito cru. Eu falava
'tenho os acordes, baby, o ritmo e o riff - crie alguma
coisa'. Ele ainda me impressiona - se dependesse de mim,
ainda estaria na banda." Por mais generoso que isso
seja, o emprego de Ron Wood provavelmente está garantido.
Mas Taylor livrou Richards de ser mal-interpretado como
um guitarrista solo convencional - como em "Sympathy
for the Devil", de 1968 - e permitiu que mostrasse
ao máximo seu anti-heroísmo bagunçado.
Richards saiu de Nellcôte mais ele mesmo; Taylor
saiu com o único crédito de composição
durante sua estada nos Stones para "Ventilator Blues".
Os
Rolling Stones finalmente deixaram a França
em novembro de 1971; o longo verão havia acabado,
mas o lugar estava ficando quente demais para eles. A banda
passou os meses seguintes em Los Angeles, adicionando os
vocais de Jagger, os backing vocals, as faixas instrumentais
de Plummer e do tecladista Billy Preston e, o mais torturante,
mixando tudo. Não acabou bem - ou, se você prefere
o veredicto de Miller e Jagger, acabou brilhantemente. "Para
todos os padrões de gravação de álbuns",
afirma Was, "os vocais são insanamente baixos.
Você ouve 'Tumbling Dice' e é ridícula
- mas é uma das melhores músicas do rock
and roll. Está além de qualquer julgamento".
Em 2003, Jagger disse que adoraria remixar Exile, "não
só por causa dos vocais, mas porque acho que ele
soa desleixado". Hoje, ele parece resignado. "Eu
estava bem ali na sala [de mixagem], então sou tão
culpado quanto qualquer um. Se você quer ouvir os
vocais mais altos, enfie tudo no iTunes e mixe por conta
própria."
Atualmente,
Jagger e Richards minimizam as histórias
de drama, drogas e brigas que permeiam Exile on Main St.
- o que aumenta sua mística enquanto obscurece sua
conquista. "As pessoas gostam de pensar que Nellcôte
era caótica", afirma Jagger, "mas algumas
sessões no [estúdio] Olympic, nos anos 60,
eram incrivelmente caóticas. Cheias de pessoas que
estavam por ali e, sabe, um desastre. Muito divertidas,
mas um tanto deficientes como uma máquina de gravação.
Talvez algumas sessões em Nellcôte tenham
sido assim, e outras foram dias de trabalho bons e fortes".
Evidentemente, ele está certo quando diz que a maquinaria
lenta de Nellcôte não era uma aberração
para os padrões dos Stones: os agradecimentos em
Sticky Fingers - parcialmente gravado no Olympic - citam "Glyn
e Andy Johns [Glyn é o irmão mais velho de
Andy], Chris Kimsey, Jimmy Johnson e todos que tiveram
a paciência de esperar sentados por 2 milhões
de horas". Richards parece estar em sintonia com Jagger. "Falam
sobre excessos e tudo o mais", diz. "Quero dizer,
não dá para compor, gravar e abusar ao mesmo
tempo. Eu ia de bar em bar de vez em quando, o de sempre,
as pessoas ficavam bêbadas, chapadas, mas não
havia nada além das sessões que fizemos para
gravar Let It Bleed. Nenhuma bailarina de dança
do ventre ou orgias, embora as pessoas gostem de imaginar
isso, e eu também, mas não, estávamos
ocupados demais trabalhando, cara. Na verdade, eu ia levar
as dançarinas, mas elas ficaram presas em Paris."
De
qualquer forma, por que alguém se importa quatro
décadas depois? A esta altura, Exile não
deveria simplesmente se sustentar como uma criação,
descontaminada por toda a história de bastidores?
Só que os Rolling Stones, como todos os astros de
rock, também vendem personalidade como parte do
produto. Se os Stones se rebelassem contra essa convenção,
seu senso de negócio teria vencido há muito
tempo. Então, naturalmente, o novo documentário
usa o mito para divulgar a reedição de Exile,
com cenas semelhantes a filmes caseiros de Nellcôte
mostrando os rapazes em modo mocinho/vilão, fazendo
esqui aquático, desfilando com chapéus engraçados,
tomando banho nus e, claro, tocando guitarra no porão,
enquanto as entrevistas narradas começam a insinuar
a "escuridão" que está por vir.
Essa é a narrativa que todos conhecemos: problemas
no paraíso, estrelando os anjos rebeldes do rock
and roll.
Pela
estimativa de Jagger, dez das 18 faixas básicas
de Exile saíram dos cinco meses em Nellcôte:
isso quer dizer uma faixa a cada duas semanas. "Talvez
a lenda seja só 70% verdadeira", afirma Was, "ou
talvez exista mais do que acreditamos, mas independentemente
do que realmente aconteceu em Nellcôte, quando eles
desceram a escada para gravar um disco, ninguém
se desfez. Por todas as efemeridades que os cercavam, ter
esse tipo de resultado, conseguir fazer este álbum
duplo e, agora, com mais dez músicas - e há mais,
só paramos por aí - quer dizer, você tem
de ser muito bom para trabalhar nesse nível".
Uma parte do material, lançada extra oficialmente
em discos piratas como Taxile on Main St., sugere que os
integrantes dos Stones não foram sempre tão
bons. Quando não acertavam na mosca, podiam soar
muito como, digamos, um grupo de pessoas debilitadas fazendo
uma jam no porão de alguém. Os membros dos
Stones gastaram tempo demais em Nellcôte chapados
e vagabundeando? Bom, o quanto é demais? E era o
tempo de quem? No fim, nunca foi da nossa conta, por mais
assustadoramente fascinantes que sejam as lendas e por
mais que os próprios Stones chamem nossa atenção
com o barulho da publicidade. O que a banda realmente atingiu
- simplesmente o álbum mais importante do rock -
deveria calar a boca de todos. Mas é claro que nunca
conseguirá isso.
Fonte:http://www.territorioeldorado.limao.com.br/musicas/playlists/p l;http://rollingstone.com.br/edicao/45/rolling-stones-a-forca-de-uma-lenda
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