Sarah Bernhardt - Uma Dama indócil

Sarah Bernhardt não nasceu para a felicidade. Ela foi feita para o sucesso. Ao se transformar na mulher mais famosa de seu tempo - e na inventora de um fenômeno tão atual, o da celebridade -, a atriz francesa pagou o preço da exposição pública. Cumpriu suas vontades sem submissão. A desobediência, porém, teve a insatisfação como companheira. Para um de seus incontáveis amantes, o ator Mounet-Sully, ela se confessou: "Não é minha culpa que eu sempre esteja à procura de novas sensações e emoções. Meu coração exige excitamento maior do que alguém pode oferecer. Sou uma pessoa incompleta."


Art of the diva

A incompletude se explica no começo de tudo, segundo o biógrafo Robert Gottlieb, autor de Sarah - The Life of Sarah Bernhardt (Yale University Press, 236 págs., US$ 25). Nascida em 1844, a atriz francesa era filha ilegítima de Youle, cortesã de homens influentes, como o todo-poderoso duc de Morny, meio-irmão de Napoleão. Pior que a acusação de ser bastarda foi a rejeição da mãe. Ex-editor-chefe da revista New Yorker, Gottlieb acredita que a falta de amor materno incutiu em Sarah a obsessão por ser o centro das atenções.

A carreira artística foi uma ideia do duc de Morny para se livrar da indomável Sarah. Indicada pelo amante da mãe, ela entra no Comèdie Française, o teatro mais importante de Paris. A magreza, a palidez e a baixa estatura não agradaram ao diretor da casa. Os gestos voluntariosos logo provocaram a sua expulsão. Tempos depois, ela se integrou ao Odéon. Nesses teatros, aprendeu a arte de interpretar sem obedecer a regras - ao contrário da contenção recomendada no palco, ela transbordava emoção, erotismo e feminilidade. O maior defeito de Sarah - o caráter indócil e firme - revelou-se a maior qualidade.


Lafayette Paris Private Collection/Divulgação

Caprichos. Seguindo os próprios caprichos, Sarah Bernhardt inventou o fenômeno da celebridade: os escândalos da vida privada repercutem mais que as realizações artísticas. Segundo Gottlieb, ela gostaria de ser a atriz mais famosa do mundo e ganhar dinheiro com o sucesso. Conseguiu.

A fama se fortaleceu com os boatos sobre a incansável vida amorosa. Com a manipulação de uma invenção recente - a fotografia. As poses para os fotógrafos demonstram o domínio da própria imagem. E com as extravagâncias: o chapéu de morcego empalhado, o caixão mantido no quarto e a criação em casa de um pequeno zoológico com camaleão, crocodilo, filhotes de leão.

Sarah amadureceu, de fato, aos 35 anos. Nessa idade, ela se desligou do Odéon - onde ficou célebre com Ruy Blas, peça de Victor Hugo. Iniciou a primeira das nove turnês pelos EUA, nas quais amealhou fortunas. Pela primeira vez, o biógrafo identifica em Sarah uma preocupação sólida com o ofício. A sua interpretação trágica sem maneirismos se estabeleceu como o padrão para o teatro da época. A maturidade, Gottlieb afirma, levou Sarah a se adaptar a peças de diferentes características: La Dame aux Camélias, Phèdre, Gismonda, La Tosca e Hamlet.

Ela se casou uma vez. A união com Jacques Damala, aristocrata grego que morreu pelo uso de morfina, quase arruinou a vida da atriz. Segundo o biógrafo, o casamento foi o maior erro dela. Um dos modelos de Bram Stoker para inventar Conde Drácula, Damala era uma Sarah de saias em versão exagerada.


A Portrait of Sarah Bernhardt

Mãe solteira, aos 20 anos ela deu à luz Maurice, criado para ser aristocrata. Muito ligados, os dois só se desentenderam quando do Caso Dreyfus, evento marcado pelo antissemitismo. Maurice defendia a tese da traição à pátria cometida pelo oficial Alfred Dreyfus.

Patriotismo. Descendente de judeus, Sarah a repudiava. Nada poderia irritá-la mais do que ser apontada como antipatriota. Em duas ocasiões, ofereceu provas irrefutáveis de patriotismo. Durante a Guerra Franco-Prussiana, transformou o Odéon em hospital de campanha. Na 1.ª Guerra Mundial, ela se apresentou para os soldados franceses.

Na velhice, arcou com as dívidas do filho playboy, viciado em jogatina. A necessidade de dinheiro, apesar da fortuna gerada pela fama, explica a atuação no palco até o fim.

Em 1905, ao atuar em La Tosca, de Victorien Sardou, no Teatro Municipal do Rio, Sarah machucou o joelho direito em uma cena e nunca mais se recuperou do ferimento. Em 1915, ela decidiu amputar a perna direita, atingida por dores insuportáveis. A coragem de fazer a amputação, segundo Gottlieb, revela o frio realismo com que Sarah se percebia. Foi assim até a morte, em 1923. O funeral de três dias, em Paris, causou agitação comparável ao enterro de Victor Hugo, 40 anos antes. A mulher carente e pecadora se tornara o símbolo de um povo.


Sarah Bernhardt Divine inspiration

BY THE time Sarah Bernhardt died in 1923, the great French actress had become an international institution. Half a million people lined the funeral route. For decades kings had showered her with jewels and honours, students had strewn petals in her path, crowds at railway stations had thrown down their coats before her.

She had come a long way. Robert Gottlieb runs through what little is known of her early life—the Jewish Dutch background, courtesan mother, intermittent father, her tantrums, illnesses and desperate attention-seeking escapades. Despite the histrionics, no one considered the theatre until her mother’s lover, the duc de Morny, suggested it. His influence at the Comédie-Française, France’s premier theatre company, smoothed her path, a path she soon made rough again, walking out, making up and finally going solo.

Bernhardt possessed an iron will, particularly after the birth of her son, and used her thin, pale beauty and her wits to succeed. She created an exotic persona, held court with cheetahs and tiger cubs and installed a coffin in her bedroom. She went up in a balloon and down the Niagara Falls, and liked to create her own fashions—a stuffed bat, for example, perched on a hat. Alphonse Mucha, an Art Nouveau painter who designed her posters and some of her costumes, said of her “that rarely has someone’s soul been more faithfully exteriorised”.

On stage Bernhardt embodied love, suffering and death, intoxicating audiences with her famous “golden voice” in the French classics—or more often, as time went by, in trashy melodramas which she commissioned as vehicles for herself. Not everyone was impressed. But for many she was a revelation. Lytton Strachey felt himself “plunge shuddering through infinite abysses” at her “Phèdre”. Ellen Terry admired her ability to “transcend all personal and individual feeling”.

Sarah Bernhardt is a gift to the raconteur. Mr Gottlieb takes full advantage. Where he can, he stages her life as a performance, with knowing asides and a certain kind of old-fashioned fun. But even her great work during the Prussian invasion of 1870, when she turned the Odéon theatre in Paris into a hospital, gets slightly jokey treatment. He acknowledges her toughness and wit, especially in old age when, in spite of an amputated leg, she visited the trenches and toured America in the Allied cause. But there is something missing from this lively and amusing account—something that might explain the extraordinary devotion she inspired.

Fontes: Francisco Quinteiro Pires - O Estado de S.Paulo; The Economist Newspaper Limited 2010; Youtube

Home
Links


Matérias: Matérias Antigas | Quando o Jazz é sagrado | Strokes lança primeira música em seis anos | Videos Criativos 2011 | BMW Jazz Festival | Fitas cassete resistem | Lotus - Santana | Virada Cultural 2011 | Gismontipascoal | Tom na Visão de Nelson | Nas Paredes da Pedra Encantada | A Trilogia Sagrada | Reinauguração do Teatro Municipal de São Paulo | Pitchfork Music Festival 2011 | O Adeus à Diva | Philip Glass: uma assinatura própria | Rock in Rio 2011 | SWU | Lista Eldorado 2011 | Kisses on The Bottom | Oscar 2012 | Festival da Cores | Novo Documentário dos Stones | The | The Band: O Ùltimo Concerto de Rock | The Singer - Liza Minnelli | Psicodalia por ordem cronológica

Destaques: A volta do Queen | Babyshambles | Cantoras Brasileiras | Cena Eletronica | Clocks | Corinne Bailey | Dig Out Your Soul | Escola do Pop Rock | Horace Silver | Im Takt der Zeit | Keane | Jamie Cullum | John Legend | Julliete & The Licks | Kantata Takwa | Led Zeppelin | Madeleine Peyroux | Michael Jackson - Thriller 25 | Little Boots | Miriam Makeba | Mostra de Arte / Casais | Musicians and Machines | Nara e Fernanda | Nonsense | Oscar Peterson | Paul McCartney | Piaf - Um hino ao amor | Prokofiev | Regentes | Rotciv | Stay | Studio 54 | Yo-Yo Ma | The Heist Series | The Verve - Forth | Vanessa da Mata | Demis Roussos & Aphrodite's Child | Tommy avec The Who | Villa Lobos, Brisa Vesperal