Henri Rousseau

Henri-Julien-Félix Rousseau (21 de Maio de 1844, Laval – 2 de Setembro de 1910, Paris), conhecido também pelo público como "Le Douanier" (aduaneiro) por ter trabalhado como inspetor da alfândega em Paris, foi um pintor francês inserido no movimento moderno do pós-impressionismo.


Henri Rousseau

Baixo, cabelos castanhos, começou a pintar aos domingos, nas horas livres, só podendo se dedicar totalmente à arte quando se aposentou. Renunciou à perspectiva linear da arte clássica, que não dominava completamente, e conferiu à realidade uma aparência onírica. Sua obra foi objeto, a princípio, de escárnio generalizado, tendo sido constantemente remetida para o grupo da arte naïf e primitivista - pelo seu carácter autodidata, resultado da inexistência de formação acadêmica no campo artístico, pela recusa dos cânones da arte reconhecida até então e pela aparente ingenuidade grotesca.

Vida

Curiosamente, Henri Julien Félix Rousseau nasceu numa torre medieval, chamada Portal Beucheresse, que pertencia as muralhas da cidade provinciana de Laval, no noroeste da França, em 21 de maio de 1844. No térreo desse lar, próprio para estimular contos de fadas, o pai tinha uma casa de ferragens, que faliu. O pai perdeu as terras que possuía, mas Henri permaneceu na cidade até terminar os estudos. As dificuldades financeiras, porém, impediram que os pais, que não tinham, ao que se sabe, nenhum interesse por artes plásticas, pagassem ao menino algum tipo de educação nessa área, embora ele houvesse demonstrado interesse.

Na escola, Rousseau não foi um bom aluno. Era comumente reprovado nos exames, mas mostrava gostar de música, poesia e desenho. O desfecho foi o esperado. Aos 19 anos, desistiu da escola e conseguiu uma vaga para o humilde cargo de escriturário de um advogado da cidade.

Mas o futuro artista durou pouco no emprego. Foi preso, acusado pelo patrão de ter roubado selos, no valor de 25 francos. Julgado, foi condenado a um mês de prisão. Após cumprir a pena, para tentar reconquistar a estima da família, alistou-se no 51º Batalhão de Infantaria.

Ao retornar, em 1868, após a morte do pai, provavelmente em busca de um maior reconhecimento da mãe, agora viúva e dos conhecidos, simplesmente inventou que fora ao México, como clarinetista, durante a campanha de Napoleão III, em apoio ao Imperador Maximiliano, que acabou fuzilado, pelas forças republicanas locais, em 1867, em cena imortalizada pelo pintor Manet, um ano após o fato histórico.

Essas narrativas heróicas eram logo desmascaradas por todos após algumas perguntas mais aprofundadas sobre essa viagem. Posteriormente,ao ser perguntado sobre a fonte de inspiração de suas numerosas pinturas sobre selvas, Rousseau insistia no argumento de que ela vinha das selvas americanas, quando, de fato, o máximo de vegetação exótica que conhecia ao vivo retirava das visitas freqüentes aos jardim botânico e zoológico de Paris, para onde se mudou ainda em 1868.

Casa nesse ano com Clémence Boitard, uma costureira, com quem terá 5 filhos, dos quais 4 morrerão precocemente.

A imagem de Clémence está provavelmente imortalizada no quadro Retrato de uma mulher. Merece destaque, no canto inferior direito da tela, um pequeno gatinho brincando com um novelo de lã, uma imagem desproporcional em relação à dama de negro que preenche o quadro. No fundo da tela, há uma selva , provavelmente inspirada nos lugares que o casal freqüentava aos domingos: o Bois de Boulogne, bosques nos arredores de Paris, corridas de Longchamps e o mencionado Jardim Botânico.


Retrato de uma mulher (1895-1897)
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A partir de 1871, e após ter trabalhado como empregado de um oficial de diligências, Rousseau inicia o seu trabalho na Alfândega de Paris. Ele devia permanecer nos portões de pedágio da cidade e fiscalizar a entrada e a saída de produtos como sal, vinho, leite e cereais, evitando o contrabando. O trabalho era simples e sobrava tempo para contemplar os belos bosques do subúrbio onde trabalhava.

Logo que começou a pintar, Rousseau pediu conselhos ao seu vizinho e amigo, o pintor Clément, que, além de orienta-lo, o ajudou a ter uma autorização de copista, que lhe permitia livre acesso ao Louvre e a outras galerias. Seu maior ídolo, no entanto, era Gerôme, que o aconselhou a observar a natureza, mas sem perder o próprio estilo. Os dois amigos observaram que Rousseau, embora se esforçasse, não conseguia copiar os acadêmicos e atribuíam isso ao fato do Douanier ter a singularidade de estilo própria dos autodidatas.

A estréia artística ocorreu em 1885. Rousseau enviou dois quadros ao Salão dos Artistas Independentes, sociedade organizada por pintores de vanguarda que haviam tido seus trabalhos recusados pelo Salão dos Artistas Franceses. Eles foram recebidos com ironia: "Seus quadros lembram as garatujas que nos encantavam quando éramos crianças. Passei mais de uma hora diante dessas ‘obras-primas’, analisando as expressões das pessoas que as olhavam. Todas riram até as lágrimas. Feliz Rousseau", disse, com sarcasmo, um crítico da época.

Em 1888, após 19 anos de casamento, com a morte da esposa, vítima de tuberculose, Rousseau se viu sozinho com duas crianças para criar. Seu potencial criativo foi salvo no ano seguinte, com a Feira Mundial, em Paris. Teve então a oportunidade de ver, de uma só vez, a reconstrução de um palácio asteca e de aldeias asiáticas e africanas, alimentando-se com numerosas imagens de culturas exóticas.

Toda essa informação não só foi passada para suas telas, como também resultou numa comédia de três atos: Visita à Exposição de 1889, em que deixa claro a forte impressão que o evento lhe causou. O texto, recusado pela Comédie Française, "devido ao alto custo envolvido na produção da peça", só foi encenado em 1969.

Em 1890, Rousseau pintou um de seus quadros mais conhecidos, Eu mesmo: retrato-paisagem. Nele, aparece com o uniforme que utilizava no trabalho, com uma boina estilo Rembrandt, em frente ao posto de pedágio do rio Sena, onde há um navio, e paleta na mão, onde estão gravados os nomes de suas duas esposas, Clémence e Joséphine. Ao fundo, a Torre Eiffel, retratada, ao que se sabe, pela primeira vez num quadro e, à esquerda, alguns edifícios típicos da capital francesa. No céu, um balão, uma das invenções que mais maravilhavam o período.


Eu Próprio, Retrato-Paisagem (1890)
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A repercussão do quadro foi péssima. "O retrato-paisagem é a sua própria invenção, e eu o aconselho a registrar a patente, pois pessoas inescrupulosas poderão fazer uso dela", escreveu um crítico. Rousseau, no entanto, não percebeu a ironia e guardou a crítica, considerando-a um elogio, em seu álbum de recortes, passando a se auto-denominar, até o fim da vida, "o inventor do retrato-paisagem".

O tempo lhe deu razão. A tela ficou tão célebre, que foi escolhida pela direção da Galeria Nacional de Praga para ser a imagem da capa do catálogo especial da instituição, quando esta completou 200 anos, em 1996, deixando para as páginas internas obras de Dürer, Frans Hals, Picasso e Miró.

Quando Rousseau se aposentou, em 1893, passou a dedicar todo o tempo à carreira artística. Como ganhava pouco, completava seu sustento tocando violino nas ruas. Suas crianças, perante a vida irregular do pai, foram enviadas para a casa de parentes em Angers.


Surprised (1891) - Clique aqui ou na imagem para vê-la ampliada

No final do século XIX, alguns quadros de Rousseau começaram a chamar a atenção. Isso se deve, principalmente aos esforços do escritor Alfred Jarry (1873 – 1907). Também nascido em Laval, mas 30 anos mais jovem que o artista plástico, ele apresentou Rousseau às vanguardas francesas e o contratou para ilustrar a revista que dirigia, L’Imagier.

Foi ainda Jarry, que conheceu Rousseau com cerca de 20 anos, que passou a chamá-lo de Douanier e o fez conhecer pessoalmente artistas plásticos como Gauguin e o escritor Mallarmé. O autor de Ubu Rei logo se impressionou com a originalidade do trabalho do conterrâneo e teve seu esforço de promoção recompensado, pois, ao ser expulso, em 1897, da pensão em que morava, em Paris, Rousseau o abrigou em sua própria casa.

Jarry pode ainda ser considerado o responsável indireto por um dos poucos comentários críticos favoráveis que Rousseau recebeu em vida. Ele encomendou ao pintor uma litografia para L’Imagier. A partir daí, Rousseau fez um quadro chamado A guerra (1894), em que uma menina vestida de branco e um enorme cavalo negro surgem saltando sobre corpos mutilados, numa imagem que evoca o célebre quadro Liberdade guiando o povo, de Delacroix. O poder da imagem levou o jornal Mercure de France a publicar um artigo elogiando-a.


A Guerra (1894) - Clique aqui ou na imagem para vê-la ampliada

Em 1898, Rousseau pintou uma de suas mais importantes obras-primas, A cigana Adormecida. O pintor tentou vender a tela ao prefeito de Laval e, em uma carta datada de 10 de julho, comenta o próprio quadro: "Uma caminhante negra, tocadora de bandolim, com uma ânfora ao lado (contendo água de beber), exausta da caminhada, dorme profundamente. Um leão aparece, aproxima-se e a cheira, mas não a devora. O luar é muito poético. A cena acontece em pleno deserto. A cigana usa roupas orientais".

O prefeito não demonstrou interesse e a tela permaneceu esquecida por muito tempo, sendo apenas reencontrada, em 1923, na oficina de um encanador de Paris. Curiosamente, o poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) comprou uma reprodução num sebo francês e o guardou em sua casa de Valparaíso, no Chile, hoje aberto à exposição pública.


A Cigana Adormecida (1898) - Clique aqui ou na imagem para vê-la ampliada

Não foi, porém, Neruda, o único a valorizar o quadro, cujo original se encontra no Museu de Arte Moderna de Nova York, sendo considerado, pela crítica especializada, devido a sua atmosfera onírica, uma tela precursora do surrealismo. Para o poeta francês Jean Cocteau, por exemplo, trata-se de "poesia pintada".

Pouco tempo depois, em 1903, morre também a sua 2ª mulher, um ano após Rousseau se tornar professor na Association Philotechnique onde ensina a técnica da pintura em porcelana e de miniaturas.

Em 1905 participa do Salon d’Automne (salão de Outono) com pinturas inspiradas na selva, entre as quais O Leão Faminto (1905). Alcança certo reconhecimento e passa a promover as próprias reuniões literárias, elaborando convites ilustrados com cores vibrantes em que descrevia as atividades a serem realizadas. Entre elas, invariavelmente, incluía a valsa Clémence, de sua autoria, que tocava, ao violino, diante do retrato da falecida esposa.


O Leão Faminto (1905) - Clique aqui ou na imagem para vê-la ampliada

Um episódio mal explicado ocorreu em 1907. Rousseau foi preso por fraude e desfalque, embora, ao que tudo indica, ele tenha sido sim vítima da própria ingenuidade, sem ter qualquer intenção criminosa. Tudo começou quando um conhecido lhe pediu para abrir uma conta com nome falso e ele, que confiava em todo mundo, obedeceu sem questionar.

Um quantia em dinheiro foi então desviado para essa conta. Descoberto o crime, houve um julgamento, em que quadros de Rousseau foram mostrados como provas de sua mentalidade "ingênua" e raciocínio infantil. Após a fala de seu advogado de defesa, o artista exclamou, em voz alta, "Bem, já que você terminou, agora podemos ir?". A cena comoveu a todos e o julgamento foi simplesmente suspenso. É sentenciado a 2 anos de prisão com pena convertida a uma multa de 200 francos por estelionato.


A Encantadora de Serpentes (1907) - Clique aqui ou na imagem para vê-la ampliada

Um ano antes desse fato, o poeta Guillaume Apollinaire, provavelmente por intermédio de Jarry, conheceu Rousseau e assumiu o papel de principal divulgador do artista, quando o criador de Ubu Rei morreu. Rousseau valorizava tanto essa amizade que registrava todos os encontros com ele num caderno e pintou Apollinaire com sua companheira, a artista Marie Laurecin, com trajes de musa grega.

A modernidade, pouco a pouco, também invade seus quadros. Há o balão, mencionado no célebre auto-retrato e telas como Os jogadores de rugby (1908), que trata o tema de maneira pouco convencional, pois os atletas ficam praticamente em segundo plano perante a natureza exuberante que os cerca. Esse quadro, aliás, denuncia uma técnica que o pintor apreciava: a de realizar esboços ao ar livre e recria-los em estúdio.


Os jogadores (1910) - Clique aqui ou na imagem para vê-la ampliada

Esses esboços eram muitas vezes feitos em visitas ao Jardim Botânico. "Sempre que entro nas estufas e vejo essas estranhas plantas de outras terras, sinto que estou vivendo um sonho", declarou. Nessa vitória constante da imaginação sobre a razão, detalhes de plantas que conhecia muito bem eram aumentadas para criar suas fantásticas florestas, que ele ingenuamente dizia virem do "México de sua juventude", enquanto, como sabemos, brotavam sim de sua fértil imaginação.

Rousseau também disse que seu único mestre era a natureza e se auto-denominava um pintor realista, embora pintasse, como vimos, um mundo repleto de fantasias, em que parodiava, sem desejar, as convenções acadêmicas. Para chegar a esse resultado, valia-se do pantógrafo, no caso dos animais, e da observação acurada dos bosques parisienses. Essa mistura levava-o a um resultado único na História da Arte.

Apollinaire conta que Rousseau "costumava perambular por Paris recolhendo folhas para copiá-las", apresentou o artista aos pintores Pablo Picasso e a Robert Delaunay; e escreveu diversos poemas, a maioria irônicos, ao "maior artista criador de imagens". Certa vez, bêbado, recitou os seguintes versos sobre as fictícias viagens de Rousseau ao México: "Você se lembra, Rousseau, da paisagem asteca, das mangueiras e dos pés de abacaxi, dos macacos entornando o suco de melancia e do imperador loiro que foi liquidado ali? As pinturas que você fez, você as viu no México, onde o sol vermelho adornava as bananeiras."

Em 1908, Picasso organizou uma célebre festa, em seus estúdio em Montmartre, para Rousseau, com inúmeras gozações e brincadeiras. Tudo começou com a compra que ele fez de Retrato de uma mulher, pintado em 1895, numa loja parisiense de quinquilharias. A imagem, que talvez fosse a de Joséphine, a segunda esposa de Rousseau, foi adquirida por míseros 5 francos e o proprietário pensou que o artista espanhol apenas o tinha feito para reaproveitar a tela.


Retrato de uma mulher (1895) - Clique aqui ou na imagem para vê-la ampliada

Nessa celebração, Picasso pendurou o quadro na parede de seu estúdio e convidou a vanguarda artística do início do século que se reuniu, sob lanternas chinesas, bandeirolas, guirlandas e faixas em que proclamava a fama de Rousseau. A gozação prosseguiu durante toda a noite, regada por mais de 50 garrafas de vinho, brincadeiras e canções.

Apollinaire recitou um poema em que exaltava o "glorioso pintor de nossa querida República", enquanto Rousseau, acreditando que seu momento na História da Arte havia chegado, permanecia sentado em um trono improvisado de caixas empilhadas, enquanto uma lanterna pingava cera derretida em sua cabeça.

Quase ao final do encontro, Rousseau se aproximou do artista espanhol e disse, emocionado: "Meu querido Picasso, somos os dois grande pintores de nosso tempo. Você, no estilo egípcio, e eu, no estilo moderno". Talvez inspirado nessa cena, Picasso tenha dito: "Há uma força gigante escondida em sua simplicidade".

O fato é que Rousseau gostava de se ver rodeado por esses artistas mais jovens e cheios de idéias que, embora gozadores, viam sua obra como uma fonte de ruptura com as tradições acadêmicas da arte francesa. Além disso, esses encontros eram fonte de renda para o artista.

Outra prova de grandeza de caráter e espírito naïf foi dada por Rousseau ao fim da vida. O pouco dinheiro que conseguiu economizar durante os últimos anos foi gasto em doações a pobres e presentes ao seu último amor Léonie, uma viúva de 57 anos por quem se apaixonara. Os amigos até mandaram cartas à senhora, falando das qualidades do artista como amigo e do seu talento artístico, mas ela, mesmo nomeada herdeira universal por Rousseau, não cedeu.

A última tela de Rousseau foi um painel de 2,03 m x 3 m intitulado O sonho, de 1910. Mostra uma mulher despida num sofá, em meio a uma selva, cercada por animais. Criticado pelo falta de realismo, o artista respondeu: "A mulher adormecida no sofá está sonhando que foi transportada para a floresta e consegue ouvir a música do encantador. É assim que explico a composição".


O Sonho (1910) - Clique aqui ou na imagem para vê-la ampliada

Ao expor o quadro, acrescentou: "Yadwigha, adormecida e serena, sonha um sonho tão lindo; ouve um encantador de serpentes tocar a sua flauta. No brilho das águas e das plantas brilha a luz prateada do luar e as selvagens serpentes ouvem a graciosa e fascinante melodia". Conta-se que essa Yadwigha seria uma polonesa pela qual Rousseau teria se apaixonado pouco antes de morrer.

Frustrado com a falta de reconhecimento de seu trabalho pelos acadêmicos e sofrendo com uma ferida na perna que gangrenou por falta de tratamento, Rousseau morre com 66 anos em 2 de setembro de 1910, sendo enterrado numa vala comum do cemitério de Bagneaux, em Paris. Somente um mês depois, os obituários dos jornais noticiaram a morte, realizando comparações de sua obra com a de Uccello, um dos mestres da Renascença.

Caminho paralelo

É difícil precisar o início do seu interesse pela pintura, mas sabe-se, no entanto, que deixa o trabalho na alfândega para se dedicar por exclusivo à arte em 1890. Anterior a esta data Rousseau luta pelo seu destaque como artista, sendo constantemente alvo de críticas aguçadas que o caracterizam de infantil e muito aquém das qualidades representativas que seriam de se esperar de um artista após a era Monet. No entanto, Rousseau não abdica do seu sonho e tenta aproveitar todas as oportunidades que lhe permitam dar a conhecer a sua arte.

Rousseau afirmou só ter pegado num pincel pela primeira vez quando já tinha 40 anos, ou seja, em 1884, mas este fato é de difícil comprovação, não só pelo seu género pictórico ser fácil de imitar, mas também por muitas vezes, o próprio efetuar alterações em obras já terminadas e de alterar a data de execução.

As primeiras telas denunciavam a ausência de treinamento acadêmico, principalmente pelo imperfeito uso da técnica da perspectiva. Outra dificuldade técnica do artista era pintar pés, o que exige grande conhecimento das dimensões de espaço. Por isso, geralmente suas figuras humanas aparecem com os pés afundados na grama até os tornozelos.

Retratar feições humanas era mais um desafio. Pode-se observar isso pela espessura das feições nas telas , que indicia constantes revisões. Buscou solucionar esse problema com uma técnica particular. Media olhos, narizes e bocas de seus modelos com o cabo do pincel e transferia as medidas para as telas. Para chegar ao tom de pele desejado, colocava o tubo a ser usado ou o pincel cheio de tinta ao lado do rosto do modelo. Essa busca exagerada do realismo gerou, como resultado, telas de uma irrealidade fascinante.

Quanto aos animais, admirava aqueles pintados por Delacroix e Gerôme. Inspirava-se, porém, no livro Animais selvagens, publicado pelas galerias Lafayette, com 200 fotos tiradas no Jardim Zoológico de Paris. Essas imagens o transportavam a selvas fictícias, repletas de macacos e leões.

Algumas vezes, Rousseau usava o pantógrafo, um ampliador mecânico, para traçar o contorno do animal sobre a tela. Depois, o preenchia de tinta e se orgulhava das cores que obtinha. Como confirma o depoimento de um visitante de seu ateliê, que ouviu o artista exclamar, satisfeito, que havia atingido sua 22ª tonalidade de verde.

Rousseau não se abalou por não conseguir expor no Salão dos Artistas Oficiais. Continuou mostrando seus trabalhos no Salão dos Independentes, ao lado de Georges Seurat, Odilon Redon e Paul Signac, artistas já com certa fama. A ironia da crítica e do público, porém prosseguia e alguns independentes chegaram mesmo a pensar em excluir Rousseau das exposições. Isso apenas não aconteceu devido à defesa de Tolouse-Lautrec.

Ambigüidade

A reação à sua pintura é, no início, majoritariamente negativa. No entanto algumas vozes começam-se a pronunciar positivamente, chegando mesmo a comparar Rousseau com os pintores do Proto-Renascimento na Itália onde as noções de perspectiva espacial ainda estão no seu estado embrionário, mas que não deixam por isso de ter uma certa originalidade criativa.

Esta simplicidade e aparente ingenuidade opõem-se, no entanto, à imagem de ambição que lhe é atribuída pelo público. Este seu caráter de personalidade ambígua espelha-se também na sua arte que, embora ingénua e infantil, retrata também por vezes uma certa malícia. Pode-se talvez pensar que Rousseau tenha encerrado em si um complexo de inferioridade devido às suas origens humildes e por nao ter tido acesso às mesmas oportunidades de um pintor acadêmico. Assim como ele se fecha em si próprio com o seu sofrimento interior, as suas pinturas são introvertidas e enigmáticas. Por outro lado, acredita firmemente nas suas capacidades e expressa tanto o seu orgulho como o seu desejo de se tornar o maior e o mais rico pintor francês, aproveitando todas as oportunidades que lhe surgem, mesmo quando é apelidado de palhaço.

Inicialmente Rousseau é um pintor dos tempos livres, um autodidata apaixonado pela natureza e que a retrata como uma realidade simples, que lhe oferece o escape à vida quotidiana do burguês humilde. Dedica-se à paisagem, uma paisagem calma, bucólica, estranhamente ordenada e artificial, onde todos os elementos têm igual importância, onde não existe hierarquia formal.

"Nada me põe tão feliz como contemplar a natureza e pintá-la. Imagine que, quando vou para o campo e vejo o Sol por todo o lado, e verde e flores, digo para mim: tudo isto é realmente meu." - Henri Rousseau

Com o tempo esta natureza torna-se cada vez mais complexa, uma forma de escape onde a fantasia e o fantástico ganham lugar num pano de fundo exótico. Para estas obras sobre a selva o pintor serve-se muitas vezes de inspiração em estufas e álbuns sobre fauna. Com a sua primeira obra sobre o tema, “Surpreendido!”, que vai ao encontro do gosto pelo exótico oriental sentido na Belle époque, Rousseau começa a ganhar destaque ao mesmo tempo que as suas obras adquirem uma nova qualidade, uma densidade labiríntica de elementos e tonalidades, um novo nível de comunhão entre fantasia e realidade, ameaça e agressividade, mistério e erotismo.

Na sua tipologia temática encontram-se também naturezas-mortas, quase como compêndios de botânica; o denominado retrato-paisagem, uma tipologia alegórica onde o contexto envolvente da figura remete simbolicamente para ela; retratos, muito mal aceites pelo público pela representação desproporcionada e grotesca do corpo humano; e temas sociais como “A Guerra”, que revelam não só a sua motivação oferecida à arte popular como também o seu claro nacionalismo baseado em ideais sócio-revolucionários.

A matéria

Por entre as diversas propostas formais do pós-impressionismo, a sua pintura surge despida de todo o requinte que caracteriza a pintura francesa do impressionismo. No caso de Rousseau a ilusão óptica não faz parte dos objetivos a alcançar, todos os avanços neste campo são simplesmente desrespeitados. A razão da obra é o objeto nela representado. Sobre a superfície plana da tela são colocados elementos desligados do seu contexto espacial, que flutuam, que são nada mais que reproduções exatas e detalhadas captadas pelo seu olhar livre de uma formação acadêmica artística, ou seja, liberto da pressão cultural. Rousseau capta a sua realidade empiricamente, deixando-se guiar pelo seu sentimento e pela sua noção própria de equilíbrio de composição. Sabe-se, no entanto, que tomou contato com a técnica da perspectiva ao ter copiado obras onde se dava uso à técnica, sendo possível que a sua arte fora destes cânones não tenha sido mais que uma decisão consciente da captação intuitiva da realidade, relegando para último plano o seu próprio racionalismo.

Rousseau faz assim uma representação frontal dos seus temas tentando ao máximo reproduzir o pormenor, fazendo quase que uma enumeração das características visíveis de determinado objeto, expondo-as claramente. Esta minuciosidade é reforçada pelo contorno preciso das figuras: todas elas são delimitadas e têm o seu espaço próprio conduzindo a que esta narração de características impregne a pintura de uma forte estaticidade e inércia. No fundo, este realismo extremado transforma os objetos em símbolos, que se vão afastando cada vez mais em direção ao abstracionismo, a uma realidade poética, vista através dos seus próprios olhos e da sua sensibilidade, suportando a sua convicção de que cada artista deve ser livre para obedecer à sua força criadora individual.

Do mesmo modo intuitivo, Rousseau utiliza a técnica que mais se adapta a determinado objeto, sendo que numa mesma obra as pinceladas podem variar de pontos, a superfícies de cor ou a linhas. Em especial tem importância a relação entra as cores e como elas se contrastam ao longo da tela, de elemento para elemento. Em grande parte do seu repertório pictórico é evidente o gosto pelas combinações entre preto, vermelho, branco e verde.


Joyeux farçeurs (1906)
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Obras, por temas

Exotismo, selva
Surpeendido! (Surpris!), 1891, Óleo sobre tela, 130 x 162 cm, Londres, The Trustees of the National Gallery.
Cigana a Dormir (La Bohémienne endormie), 1897, Óleo sobre tela, 129,5 x 200,7 cm, Nova Iorque, The Museum of Modern Art.
O Leão Faminto (Le lion ayant faim se jette sur l’antilope), 1905, Óleo sobre tela, 201,5 x 301,5 cm, Colecção particular.
Eva (Eve), c. 1905-07, Óleo sobre tela, 61 x 64 cm, Hamburgo, Kunsthalle.
A Encantadora de Serpentes (La charmeuse de serpents), 1907, Óleo sobre tela, 169 x 189,5 cm, Paris, Musée d'Orsay.
A Refeição do Leão (Le repas du lion), 1907, Moscovo, Museu Puschkin., 113,7 x 160 cm, Nova Iorque, Metropolitan Museum of Art.
Cavalo Atacado por um Jaguar (Cheval attaqué par un jaguar), 1910, Óleo sobre tela, 89 x 116 cm, Moscovo, Museu Puschkin.
Negro Atacado por um Jaguar (Nègre attaqué par un jaguar), 1910, Óleo sobre tela, 116 x 162,5 cm, Basileia, Kunstmuseum Basel.
O Sonho (La rêve), 1910, Óleo sobre tela, 204,5 x 298,5 cm, Nova Iorque, The Museum of Modern Art.

Retrato-paisagem
Passeio na Floresta (La promenade dans la forêt), c. 1886, Óleo sobre tela, 70 x 60,5 cm, Zurique, Kunsthaus Zürich.
Uma Noite de Carnaval (Un soir de Carnaval), 1886, Óleo sobre tela, 106,9 x 89,3 cm, Filadélfia, Philadelphia Museum of Art.
Encontro na Floresta (Rendez-vous dans la forêt), 1889, Óleo sobre tela, 92 x 73 cm, Washington, National Gallery of Art.
Eu Próprio, Retrato-Paisagem (Moi-Même, Portrait-Paisage), 1890, Óleo sobre tela , 143 x 110 cm, Praga, Naródni Galerie.
Retrato de Pierre Loti (Portrait de Pierre Loti), 1891, Óleo sobre tela, 62 x 50 cm, Zurique, Kunsthaus Zürich.
Retrato de Mulher (Portrait de femme), 1895, Óleo sobre tela, 160 x 105 cm, Paris, Musée du Louvre.
Retrato de Mulher (Portrait de femme), 1895-97, Óleo sobre tela, 198 x 115 cm, Paris, Musée d’Orsay.
Quarteto Feliz (Heureux quatuor), 1902, Óleo sobre tela, 94 x 57 cm, Nova Iorque, Colecção Mrs. John Hay Whitney.
Um Casamento Campestre (Une noce à la campagne), 1904-05, Óleo sobre tela, 163 x 114 cm, Paris, Musée de l’Orangerie.
Criança com Boneca (Portrait d’enfant), c. 1905, Óleo sobre tela, 67 x 52 cm, Paris, Musée de l’Orangerie.
Os Jogadores de Râguebi (Les joueurs de football, 1908, Óleo sobre tela, 100,5 x 80,3 cm, Nova Iorque, The Solomon R. Guggenheim Museum.
A Musa Inspira o Poeta (La muse inspirant le poète), 1909, Óleo sobre tela, 146 x 97 cm, Basileia, Kunstmuseum Basel.

Paisagem
A Ilha Saint-Louis vista do Porto Saint-Nicolas (Vue de l’Ile Saint-Louis du port Saint-Nicolas), 1888, Óleo sobre tela, 46 x 55 cm, Tóquio, Setagaya Art Museum.
A Estação Aduaneira (L’octroi), 1890, Óleo sobre tela, 37,5 x 32,5 cm, Londres, The Courtauld Institute.
A Fábrica de Cadeiras (La fabrique de chaises), c. 1897, Óleo sobre tela, 73 x 92 cm, Paris, Musée de l’Orangerie.
Nas Margens do Oise (Bords de l’Oise), 1908, Óleo sobre tela, 46,2 x 56 cm, Northampton, Smith College Museum of Art.
Vista da Ponte de Sèvres' (Vue du Pont de Sèvres, 1908, Óleo sobre tela, 81 x 100 cm, Moscovo, Museu Puschkin.
Vista de Malakoff' (Vue de Malakoff), 1908, Óleo sobre tela, 46 x 55 cm, Suíça, Colecção particular.
A Ilha de Saint-Louis Vista do Quai Henri IV' (Vue de l’Ile Saint-Louis prise du Quai Henri IV), 1909, Óleo sobre tela, 33 x 41 cm, Washington, The Phllips Colection.
Pastagem' (L’herbage), 1910, Óleo sobre tela, 46 x 55 cm, Tóquio, Bridgestone Museum of Art.

Sociedade
A Guerra (La guerre), 1894, Óleo sobre tela, 114 x 195 cm, Paris, Musée d’Orsay.
Os Representantes dos Poderes Estrangeiros saúdam a República como Símbolo da Paz (Les représentants des puissances étrangères venant saluer la République en signe de paix), Óleo sobre tela, 130 x 161 cm, Paris, Musée du Louvre.
A Liberdade Convida os Artistas a Participarem no 22º Salão dos Independentes (La Liberté invitant les artistes à participer à la 22e exposition des Indépendants), 1906, Óleo sobre tela, 175 x 118 cm, Tóquio, National Museum of Moden Art.

Natureza-morta
Ramo de Flores (Fleurs), 1895-1900, Óleo sobre tela, 61 x 50,2 cm, Londres, Tate Gallery.
Ramo de Flores com Hera (Bouquet de fleurs), 1909, Óleo sobre tela, 45,4 x 42,7 cm, Buffalo, Albright-Knox Art Gallery.

Fontes: Oscar D’Ambrosio; jornalista, crítico de arte e autor de Os pincéis de Deus: vida e obra do pintor naïf Waldomiro de Deus (Editora UNESP); HINDLEY, Geoffrey, O Grande Livro da Arte - Tesouros artísticos dos Mundo, Verbo, Lisboa/São Paulo, 1982
JANSON, H. W., História da Arte, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1992, ISBN 972-31-0498-9
STABENOW, Cornelia, Henri Rousseau, Taschen, Colónia, 2001, ISBN 3-8228-1370-2; Matheus Santiago

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