Oscar Niemeyer
Construindo identidades

O aniversário de Oscar Niemeyer é em 15 de dezembro. É mais do que uma referência do passado. É um nome inevitável para o presente, para a mais espetacular arquitetura feita hoje no mundo. Em Berlim, Bilbao, Istambul ou Dubai, onde aconteceram alguns dos maiores e mais brilhantes momentos da arquitetura contemporânea dos últimos dez anos, há um toque,uma presença ou uma evidente influência do maior arquiteto brasileiro.

Apontado pela empresa de consultoria Synectics como um dos dez gênios vivos do planeta (na companhia, entre outros, de Tim Berners-Lee, o inventor da internet).

Sua trajetória de escultor de monumentos tem início nos ano 40, quando Juscelino Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte, encomendou ao jovem arquiteto um conjunto de construções para o novo bairro da Pampulha. Nascia a primeira grande obra de Oscar Niemeyer e um marco arquitetônico para a cidade. A capital mineira passou a ter como principal cartão-postal justamente o conjunto da Pampulha.


Pampulha
Clique na imagem para amplia-la

Ao longo de sua vida, Niemeyer sempre teve como ideal uma arquitetura que fosse também arte, que não se limitasse a ser funcional, como pregava a ortodoxia de uma época dominada pelas idéias do francosuíço Le Corbusier (1887-1965). Uma arquitetura que fosse também marco urbano, que redefinisse o imaginário de uma cidade. Ou - idéia levada ao extremo - de um país que ganhou uma capital inteiramente forjada na prancheta. Todas as obras de Niemeyer são assim. Marcam indelevelmente as cidades onde são plantadas, tornando-se parte definitiva da identidade do lugar - como o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, o Sambódromo do Rio de Janeiro, o complexo do Parque do Ibirapuera, em São Paulo, ou o Centro Cultural Internacional Niemeyer de Avilés, na Espanha, a ser concluído em dezembro.


Sambodromo
Clique na imagem para amplia-la

 


Museu de Arte Contemporânea-Nitéroi/RJ

Clique na imagem para amplia-la

 


Ibirapuera
Clique na imagem para amplia-la

 


Centro Cultural Internacional Niemeyer de Avilés
Clique na imagem para amplia-la

 

O tempo passou e, de certa forma, o ideal de Niemeyer se tornou o de toda uma geração de arquitetos que hoje dominam a cena internacional. Vive-se agora a era da chamada "arquitetura do espetáculo". Frank Gehry é convidado para fazer o Guggenheim de Bilbao, cidade espanhola que se sentia órfã de um museu em um país que tem o Prado e o Reina Sofia.


Guggenheim Bilbao
Clique na imagem para amplia-la

O espanhol Santiago Calatrava é chamado para dar a cara da nova Lisboa com sua estação de trem, plantada como um alien numa cidade que não sofre grandes interferências arquitetônicas desde o tempo do Marquês de Pombal, no século 18.


Oriente Station, Lisbon by Santiago Calatrava
Clique na imagem para amplia-la

O holandês Rem Koolhaas cria para a cidade do México a Torre Bicentenário, com 300 metros, enquanto a dupla suíça Jacques Herzog e Pierre de Meuron apresenta o Estádio Nacional de Pequim.


Torre do Bicentenário - México
Clique na imagem para amplia-la

O que todas as obras têm em comum é não ser penas obras, mas ações arquitetônicas que se tornam monumentos, projetando uma nova identidade para as cidades onde foram construídas. Em Gehry, Calatrava, Koolhaas, Herzog e De Meuron e outros vibrantes nomes da arquitetura mundial há essa escultura de monumentos que foi tão de Niemeyer quanto é neste momento, na produção contemporânea, universal.

Em 2003, o convite para fazer o pavilhão temporário da Serpentine Gallery, no Hyde Park, em Londres, foi um reconhecimento significativo da atualidade da obra de Niemeyer. Todo ano, a prestigiada galeria inglesa convida um arquiteto superstar para assinar esse espaço de exposições efêmero como o verão londrino. O projeto foi saudado pela imprensa internacional e abriu portas para uma série de novas encomendas. E provocou ainda, na Inglaterra, um debate sobre o que restou da arquitetura moderna, quando parte da imprensa britânica viu no pavilhão um certo cansaço do estilo moderno, essa escola surgida nas duas primeiras décadas do século 20. Mas a presença de Niemeyer na Inglaterra foi um indiscutível sucesso.


Serpentine Gallery - London 2003
Clique na imagem para amplia-la

 

A emoção provocada pela arquitetura de Niemeyer vai, no entanto, muito além das obras monumentais. O tempo não impede que suas obras continuem a emocionar - é o caso da Casa das Canoas, no Rio de Janeiro.

É compreensível que palácios e catedrais impressionem os olhos da infância. Mas como explicar a emoção provocada pela casinha singela, embrenhada na mata? Estamos diante de uma pequena jóia de linhas muito simples, que acolhem espaços agradáveis, fartamente iluminados por aberturas de vidro, sem comprometer a desejável privacidade doméstica. Observa-se então, o desenho insinuante da cobertura, que pousa na paisa gem densa , acolhe as pedras do caminho e se afirma como gesto humano, sem intenção de mimetismo ou de impor-se a esse ambiente encantador. Há um diálogo perfeito.


Casa das Canoas - Rio de Janeiro
Clique na imagem para amplia-la

Aos poucos, percebe-se que essa casa, projetada há mais de meio século por Oscar Niemeyer para abrigar sua família, em São Conrado, no Rio de Janeiro, jamais irá envelhecer porque é uma obra de arte. Feita de imaginação, surpresa e poesia, nada nela é óbvio ou excessivo. Tem a proporção correta, essa medida tão pouco apreensível nos números exatos dos manuais, mas definitiva na harmonia de uma obra.


Casa das Canoas - Rio de Janeiro
Clique na imagem para amplia-la

 

Quem já visitou a Catedral de Brasília há de entender. Da esplanada ensolarada, a rampa escura sugere um mergulho nas trevas. Só depois de percorrer esse caminho é possível alcançar a nave inteiramente iluminada, onde bailam os anjos gigantescos do escultor mineiro Alfredo Ceschiatti. Nada aqui sugere a austeridade das catedrais góticas. Delas, somente a menção ao domo, elemento que Oscar reconhece e transforma na própria estrutura da catedral. Dessa atitude quase antropofágica diante das influências barrocas, clássicas ou mesmo modernas, resulta uma produção reduzida praticamente a um material, uma cor e a poucos elementos formais: o pilar, a viga e a abóbada.


Casa das Canoas - Rio de Janeiro
Clique na imagem para amplia-la

Sua vocação para o gesto monumental é inegável tanto quanto a permanente busca pela beleza, pois acredita que a História somente reconhecerá as obras que incitam a fantasia ou o mistério de sua criação, como as pirâmides do Egito ou Brasília. "Ninguém pode ficar preocupado somente com a função de um prédio", pondera esse arquiteto que carrega o dom para a proporção perfeita. Assim como ninguém fica indiferente diante dos prédios desenhados por ele para o Plano Piloto de Brasília, criado por Lúcio Costa, em 1960. O resultado é um vocabulário tão original quanto contemporâneo. E sua busca pela originalidade e pelo novo continuam.

Sua generosidade extrapola as linhas suaves da arquitetura. É uma conduta de vida desde a juventude. Há fatos memoráveis que Oscar gosta de contar, e eu de escutar, como o episódio em que cedeu o escritório da rua Conde Laje, no Rio de Janeiro, ao "cavaleiro da esperança" Luís Carlos Prestes, em 1945. O escritório virou então sede do Partido Comunista Brasileiro, ao qual Oscar se filiou - ele recebeu em 1963 o prêmio Lenin da Paz, entregue pela então União Soviética. Mas os clientes, alguns banqueiros, ficavam assustados quando ligavam para o estúdio e eram atendidos por ninguém menos do que... Prestes! Há quase uma década Oscar abandonou o "partidão", mas mantém firme suas convicções ideológicas.

Oscar se recusa à nostalgia e a falar de arquitetura - a não ser sobre o seu último projeto, que sempre será aquele do qual mais gosta, onde mais inovou ou provocou mais um recorde no uso do concreto armado, uma espécie de amálgama que está na base de sua arte. Os temas de conversas animadas são futebol (agora, só torce para a seleção brasileira), política (se mantém fiel a Fidel) e filosofia (gosta de citar o velho amigo, o filósofo francês Jean-Paul Sartre). Gosta de contar os novos planos. Quem sabe construir outra casa com pé-direito bem baixinho, só para contrariar a regra de Le Corbusier, que achava que a altura mínima de um teto deveria ser de 2,8 metros. Ou montar uma escola na contramão do ensino especializado, onde arquitetos formados possam conhecer sociologia, literatura, música. Exatamente como ele, um iluminista por excelência, que dedica uma noite por semana ao curso do físico nuclear Luiz Carlos de Oliveira, onde são tratados assuntos diversos, como estética, filosof a e cosmologia. Senta- se ao lado da mulher, Vera Lucia Cabrera, e de dez amigos nas cadeiras amarelas da sala de aula, improvisada no pequeno estúdio, instalado em um anônimo prédio art déco, na Avenida Atlântica no Rio de Janeiro.

O cotidiano de Oscar acontece nesse cenário, diante das curvas das montanhas de sua terra e das morenas que seguem a caminho do mar de Copacabana. Sobre o piso branco, fartamente iluminado, repousa a famosa chaise long, desenhada em parceria com a filha Anna Maria. De um lado, o sofá de couro preto acompanha as linhas arredondadas da fachada e convida a contemplar a paisagem. No canto oposto está a mesa retangular com seis Thonet, aquelas clássicas cadeiras de madeira vergada e palhinha, onde Oscar almoça diariamente, acompanhado pelos amigos sempre bem-vindos. A arte de cultivar amizades é outro talento desse carioca, que recebe com a mesma disposição e simpatia chefes de estado, artistas, arquitetos e estudantes.

Fonte: Livia Pedreira; Revista Bravo


Links

British Museum

Guggenheim NY

Hollywood

Metropolitan NY

Musée du Louvre

Vaticano

The National Gallery


Artes Plásticas: A Arte do Brasil Holândes | A Arte do Egito Antigo | Arte Pré-Colombiana | Arte Tibetana | Beatriz Milhazes | Capela Sistina | Francisco Goya | Henri Rosseau | Impression : Soleit Levant | Kandinsky | La persistencia de la memoria | Las Meninas | Luz e Espaço | O quadro mais famoso do mundo | O Retrato do Doutor Gachet | Os pastores de Arcadia | Pablo Picasso | Pintura Barroca | Pintura Metafísica | Vieira da Silva | Virgem dos Rochedos, A | Caravaggio, Pintor da luz e das trevas da alma

Cinema: 1944, O Ano Noir |  A Falta que Nos Move | Alain Resnais | Alice no País das Maravilhas | Antonioni | As maiores canções do cinema - 0s 25 melhores filmes de todos os tempos | Bergman | Billy Wilder | Blow Up | Cahiers du Cinema | Chinatown | Coincidências do Amor ( The Switch ) | Conversas com Scorsese | Ed Wood, Gênio? | Fellini | Garbo | Grandes atrizes francesas | Grande Musicais | Kiss Me Kate | Liz Taylor: Mito | Max Ophuls | Munich | Neo-Realismo Italiano | No Direction Home - Bob Dylan | O amor de Leon Cakoff | Os magos | Pier Paolo Pasolini | Rediscovering | Shane | Steven Spielberg | Sunset Boulevard | The Gang's All Here | Um estranho no ninho | A Verdade Interna Revelada? .

Literatura: Arthur Clarke | Clássicos da Literatura | Dom Quixote | Jose Saramago | Joseph Conrad | Grande Gatsby, O | Grandes Poetas por Will Durant | Literatura Inglesa | Mario, Íntimo e pessoal | Vermelho e o Negros, O | Viagem do Elefante, A | Yeats e Joyce resgatam a identidade da Irlanda | Sobre preciosidades evolutivas

Outras: A Flauta Mágica | Antunes Filho | A Cabra ou Quem é SylviaAs pecas de Oscar Wilde | Bejart | Catedral de Chartres | Contemporaneidade | Daquele Instante em Diante |  Debussy, Schoenberg e Stravinsky | Grandes Arquitetos |  Hair | I´m Not There | Lacroix na ArteMistérios e paradoxos de Chopin, para Freire |  Niemeyer, construindo identidades | Nona Sinfonia | Queremos Miles |  Teatro | The Doors Are Open | Ray Charles Live in France 1961 (2011) | Sonho de uma Noite de Verão | Living in The Material World: George Harrison | Edgard Scandurra Estraçalhante

Voltar para página inicial