Os
musicais "Hair" e "Hedwig and The Angry Inch",
que estão agora nos palcos cariocas, são conhecidos
dos brasileiros por suas versões para cinema. Conheça
as diferenças entre as peças e os filmes
e assista trechos dos dois longa-metragens.
Surgidos como musicais de sucesso, Hair,
de 1967, e Hedwig and the Angry Inch, de 1998, não demoraram a ganhar
as telas. No cinema, no entanto, ganharam feições
um pouco diferentes de suas versões no palco - mudanças
estéticas, de adaptação ao novo suporte,
e até alterações na história.
Os atores, Paulo Vilhena e Pierre Baitelli,
interpretam a protagonista Hedwig na peça "Hedwig
e o Centímento Enfurecido"
Hedwig é mais fiel, o que se deve completamente ao
fato de o próprio criador da peça, John Cameron
Mitchell, ter dirigido o longa-metragem, lançado em
2001. O musical, que se passa no próprio show de rock
da protagonista Hedwig, com banda e microfone em punho, foi
enriquecido por cenas fora do palco, tanto mostrando a banda
quanto outras da memória de Hedwig.
O trecho abaixo, retirado do filme Hedwig
and The Angry Inch, mostra algumas dessas diferenças. Hedwig recupera
momentos de sua infância na música The Origin
of Love, que lhe foi contada por sua mãe quando ela
era um menininho. Na peça, algumas imagens eram projetadas
em um telão ao fundo; no filme, uma animação
de Emily Hubley explica o mito da criação dos
homens e do amor. Na montagem brasileira, o recurso da projeção
foi mantido: artistas nova-iorquinos contribuíram
com seus trabalhos e quem fez a animação de
A Origem do Amor foi o assistente de Hubley, Adam Kaufman.
Uma grande diferença entre peça
e filme foi a personificação de Tommy Gnosis.
No musical, o ator que interpreta Hedwig faz imitações
de Tommy, o adolescente por quem Hedwig se apaixonou e que
roubou as músicas dela. Assim, no final da peça,
o ator está com a maquiagem de Hedwig, a cruz prateada
de Tommy na testa e um figurino que não mais o identifica
com um deles especificamente. Na montagem brasileira, os
dois atores que interpretam Hedwig deixam de ser a mesma
personagem em determinado momento: enquanto Paulo Vilhena
mantém a máscara de Hedwig, Pierre Baitelli
muda de figurino e maquiagem e vira Tommy.
A versão cinematográfica combina um pouco
de ambos. Tommy é vivido por Michael Pitt, que pode
ser visto no trecho abaixo espionando Hedwig em um de seus
primeiros shows. A música que ela canta é Little
Wicked Town, canção que na peça e no
filme possui duas versões: esta primeira, interpretada
por Hedwig, e uma segunda, de letra modificada, cantada por
Tommy, como se pode ver no segundo trecho abaixo. Na peça
dirigida por Evandro Mesquita, a primeira versão de
Mundo Tão Cruel é interpretada por Paulo Vilhena
e a segunda, por Pierre Baitelli.
Na última música, A Noite no
Rádio, as Hedwigs do filme e da peça voltam
a se encontrar, ambas com figurino, maquiagem e personalidade
misturados com a de Tommy, como se pode ver no trecho abaixo
- que também traz referência ao primeiro local
em que o musical foi apresentado: no hotel River View, de
Nova York, em que foram abrigados os sobreviventes do Titanic.
Hair
Os maníacos pelo musical Hair consideraram o filme
uma traição de Milos Forman, o diretor do longa-metragem
de 1979. A pecha é pesada, mas compreensível.
Na versão do diretor checo, a história sofreu
mudanças consideráveis, que atenuaram o clima
hippie e contestador da peça.
Os
atores, Igor Rickli e Hugo Bonemer, em destaque na
peça "Hair"
No musical, Claude Bukowski é um hippie integrante
da tribo, e não um caipira que vaga por Nova York
antes de seu alistamento militar. Sheila também faz
parte do grupo - ao contrário do filme, em que ela é uma
menina rica que se aventura com os novos amigos. Estes, por
sinal, não se resumem a cinco ou seis: cerca de 30
atores tomam conta do palco cantando e dançando. A
temperatura inteira da peça é esta que pode
ser sentida no começo de Hair, o filme, quando o clássico
Aquarius irrompe:
Na montagem brasileira, foram
seguidas indicações
do musical de Gerome Ragni e James Rado, os americanos que
escreveram a peça no final dos anos 60. Assim como
Claude não é um caipira, Berger, seu antagonista, é muito
mais líder do que no filme. É ele quem organiza
o ritual para queima da carta de convocação
para a Guerra do Vietnã e também Berger é a
primeira voz na música Hair - que, no filme, é interpretada
por Woof, na prisão. Charles Moeller, diretor da peça
brasileira, chama atenção inclusive para essa
caretice do filme, que optou por colocar na boca do personagem
sexualmente ambíguo a defesa dos cabelões,
descaracterizando a ideologia que estava ali em cena.
O final talvez seja o mais controverso.
Na peça, Claude segue o rumo esperado para seu personagem:
depois de sua dúvida entre ficar com os amigos hippies
ou se alistar na Guerra do Vietnã, ele decide lutar
e morre. A montagem brasileira se encerra com uma imagem
bonita de Claude com a bandeira norte-americana, seguida
pela tribo que volta ao teatro e convida a platéia
para subir no palco e cantar Let the Sun Shine In. No filme,
a multidão embalada pela música também
aparece, mas quem morre é Berger, o líder hippie
que, por uma casualidade, troca de lugar com o amigo e acaba
indo para a guerra sem querer.