Queremos Miles

“Um ano depois que eu nasci, um furacão passou por St. Louis. Talvez ele tenha deixado um pouco de sua criatividade indomável em mim, um pouco da força de seu vento”, escreveu Miles Dewey Davis III em sua autobiografia de 1989. O raciocínio supersticioso é o modo mais simples de descrever a força criativa de um trompetista que, durante 40 anos, passou diversas vezes como um Katrina pelo status quo do jazz, redefinindo conceitos de ritmo, harmonia, sonoridade e interação na música, além de deixar em seu rastro uma aura indecifrável, tão misteriosa quanto elegante.

A vida e obra do jazzista é tema de uma exposição que começa no Rio de Janeiro e termina em São Paulo. A mostra "Queremos Miles - Miles Davis, Lenda do Jazz", instalada no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) da capital fluminense, abriu no dia 02 de agosto e poderá ser vista até o dia 28 de setembro, de terça a domingo, das 9h às 21h.

Concebida pela Cité de La Musique de Paris, organizada com o apoio da família e dos gestores da obra do artista, a exposição traça o percurso do músico, desde a cidade de sua infância, East St. Louis (Illinois), até os últimos anos de sua vida. Dividida em oito sequências temáticas, a exposição traz documentos e objetos, alguns deles inéditos.

Entre as fotos expostas estão retratos em estúdio de Miles com Herbie Hancock, Charlie Parker, John Coltrane e Wayne Shorter, entre outros; instrumentos (os trompetes de diversas cores, usados em gravações e concertos históricos) e de outros músicos que conviveram com ele, como a percussão de Airto Moreira e o sax de John Coltrane, além de partituras e capas de disco. No ambiente da mostra, o visitante poderá ouvir a música de Miles Davis em suas diversas fases.

No dia 28 de setembro, data do falecimento de Miles, será realizada uma mesa redonda mediada pelo jornalista Antonio Carlos Miguel com especialistas.

Depois do Rio de Janeiro, a exposição será instalada em São Paulo, no Sesc Pinheiros, de 19 outubro a 25 de janeiro de 2012, também com entrada franca.

 

Sem Vibrato

A mãe de Davis, Cleota Mae (Henry) Davis, queria que seu filho aprendesse a tocar piano - ela era uma hábil pianista de Blues, mas manteve isso escondido de seu filho. Os estudos musicais de Miles começaram aos treze anos, quando seu pai lhe deu um trompete novo e providenciou algumas aulas com um trompetista local, Elwood Buchanan. Miles revelou que a escolha de seu pai por um trompete, foi feita propositalmente para irritar sua mulher, que não gostava do som do instrumento. Contrário à moda naquela época, Buchanan ressaltou a importância de tocar o instrumento sem vibrato, e assim Davis levaria seu timbre limpo por toda sua carreira.

Buchanan dava palmadas com uma régua na mão de Miles toda vez que ele usava heavy vibrato. Convidado por Buchanan para ver seu aluno tocar, o trompetista Clark Terry (que viria a ser uma das influências de Davis) se lembraria, anos mais tarde, de seus heterodoxos métodos de aprendizado: “Buch tinha uma régua enorme… e toda vez que Miles tremia uma nota, ele o acertava com ela nas juntas dos dedos e dizia: ‘Pare de tremer essa nota. Você já vai tremer bastante quando ficar velho.’” Davis certa vez comentou a importância dessa sua assinatura musical, dizendo: “Eu prefiro um som agradável sem atitude, como uma voz agradável sem muito tremolo e sem muitas linhas de baixo. No meio tempo. Se eu não consigo esse som, eu não consigo tocar nada”

 


Miles nas gravações do disco "Kind of Blue", em 1959
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Nas gravações do disco "Kind of Blue", em 1959
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Na imagem, Miles Davis está em sua casa, na rua 77 de New York, em 1969
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Pintura de Mati Klarwein usada na contracapa de "Live / Evil"
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Tela de Mati Klarwein usada na capa do disco "Live / Evil", lançado por Davis em 1971
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Na imagem, encarte do disco "On the Corner", de 1972
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Pintura de Miles Davis
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Tela "Bird of Paradise" (pássaro do paraíso), que Jean-Michel Basquiat pintou em homenagem a Miles
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Retrato do instrumentista americano que revolucionou o jazz
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Foto da exposição "Queremos Miles"
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Miles na Rolling Stone

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Miles Davis
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Miles Davis
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Miles Davis se apresenta no North Sea Jazz Festival, em Curaçao, em 1991
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Albuns

Kind of Blue - Miles Davis

Obra-prima do jazz, o disco Kind of Blue, do trompetista norte-americano Miles Davis, terá seus 50 anos de lançamento celebrados em 17 de agosto, mas desde já não faltam homenagens. A edição especial do disco, recheada de material extra (dois cds, um dvd, uma versão em vinil e livreto), chegou às lojas brasileiras – custa quase R$ 500,00.

Considerado um dos melhores álbuns de jazz de todos os tempos, Kind of Blue reúne John Coltrane, Bill Evans, Cannonball Adderley, Jimmy Cobb e outras feras em torno do mestre Miles Davis.

 

 

Agharta (1979) - Miles Davis

Agharta, composto explosivo fabricado no Japão, traz o genial trompetista norte-americano em um momento solene de fúria jazzística. É o ápice, a consumação estética da chamada "fase elétrica" de Miles Davis. Está entre os três álbuns mais psicodélicos de todos os tempos, e entre os 10 maiores álbuns de jazz da história.

A década de 60 presenciava um Miles Davis caminhando perigosamente em direção à obsolescência artística. As circunvoluções do bebop e do cool jazz haviam ficado para trás, e Miles rejeitara enfaticamente a revolução free capitaneada por Ornette Coleman e Albert Ayler, não tanto por conservadorismo estético, pecado de que não se pode acusar-lhe, mas quiçá por vaidade; afinal de contas, não fora ele a lançá-la, o que para seu ego ciclópico já era razão mais do que suficiente para recusar-lhe qualquer mérito, não obstante, hoje sabemos que o irrequieto trompetista, insatisfeito com os contornos que sua carreira vinha assumindo, estava urdindo em silêncio sua própria revolução: a fusão supersônica entre jazz, acid rock, música contemporânea e funk.

Dessa sua fase elétrica de álbuns fantásticos – uma época iluminada, um estágio avançado, onde Miles Davis mostrava a sua genialidade promovendo seguidas obras-primas como In A Silent Way (1969), Bitches Brew (1969), A Tribute to Jack Johnson (1970), On the Corner (1972), Big Fun (1974) e Get Up With It (1974) -, poucas vezes foram vistas explosões sônicas tão viscerais e psicodélicas como essa.

Gravado no Osaka Festival Hall, na tarde de 1° de fevereiro de 1975, Agharta é o primeiro de dois álbuns gerados no mesmo dia – o outro é o concerto noturno registrado no disco Pangaea. Ambos fazem parte da trilogia iniciada com o disco Dark Magus (que mostra show realizado em 1974, em Nova Iorque). Três LPs duplos clássicos, repletos de experimentações e improvisos, trazendo nos créditos quase a mesma formação. Mas o apogeu é mesmo este Agharta.

Plugando um trompete envenenado a um pedal wah-wah, o Mago do Jazz assombra, constrói texturas atmosféricas repletas de efeitos e ecos, irradiando ondas elétricas. Uma música agressivamente funky, com plena liberdade para improvisos coletivos a partir de alguns temas pre-estabelecidos. Seguindo essas pegadas, uma feroz tropa de choque pronta para implodir o jazz: Sonny Fortune (sax / flauta), Michael Henderson (baixo), Al Foster (bateria), Mtume (conga / percussão), Pete Cosey (guitarra / sintetizador / percussão) e Reggie Lucas (guitarra).

Disco duplo, cinco temas longos, sonoridade adrenalítica e caótica desprovida de qualquer tipo de harmonia. Começa com a pegada extrema, mais de 30 minutos de “Prelude” (partes I e II), em uma demonstração insana de free-jazz, com destaque para os solos selvagens de Davis, Fortune e Cosey. A performance de Cosey, por sinal, é um capítulo à parte: auxiliado por um conjunto de aparelhos de distorções eletrônicas, encarna Jimi Hendrix, solando de forma animalesca.

O álbum segue, ameaçando breve trégua em “Maiysha” – providencial para os excelentes trabalhos de flauta de Fortune e percussão de Mtume. Prossegue suando frio pelos andamentos nervosos de “Interlude”, onde “So What” (faixa do lendário álbum Kind of Blue, de 1959) serve de parâmetro para um novo arregaço de improvisos espetaculares. E acaba em completa falta de ar, lá no fim do túnel, com “Theme from Jack Johnson”, num compasso mais frenético e nervoso que o apresentado em outras versões. No mínimo, perturbador! É o final apoteótico de uma maratona desenfreada pelos improvisos do jazz, com o septeto injetando solos desesperados e enfurecidos, experimentações sonoras ensurdecedoras, rock, funk, groove, plutônio, urânio, outra bomba atômica em solo nipônico!

Era desta forma – com um novo bombardeio de jazz supersônico – que o rebelde trompetista sorriu para seus detratores. Acusado de ser um traidor do estilo – um músico que denegriu o jazz ao fundi-lo ao acid rock, blues, funk e aos experimentalismos da música contemporânea -, Davis mostrava cada vez mais não se importar com opiniões conservadoras. Seus discos vendiam bem e seus shows estavam sempre lotados, essa parecia ser a lógica a ser encarada.

Após este registro, o trompetista ficaria cinco anos sem lançar discos ou fazer shows, se recuperando dos problemas de saúde relacionados ao seu intenso consumo de drogas e álcool. Só retornaria em 1981 com o lançamento do álbum The Man With The Horn, iniciando mais um ciclo da sua trajetória genial como músico.

 

Videos

 

 

 

 

 

Discografia Miles Davis

 

Fontes: http://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/3909-miles-davis#foto-74246; http://mtv.uol.com.br/memo/exposicao-sobre-a-trajetoria-de-miles-davis-chega-ao-brasil-em-agosto;

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