| Meninas,
eu chorei
Fã
brasileira enfrenta frio e fome em Londres, em 1967,
para conhecer quarteto e garante que o espanto de
ouvir Sgt. Peppers continua até hoje.
Lizzie
Bravo*

Lennon
posa ao lado da fã Lizzie Bravo
Foto: Arquivo Lizzie Bravo
Os
Beatles não fariam mais turnês. Depois
dessa notícia, no final de 1966, Denise e eu
tínhamos de tomar uma atitude, se é
que queríamos ver os Beatles em pessoa. Convencemos
nossos pais a nos mandar para Londres como presente
de 15 anos. Ela foi na frente, no começo de
janeiro. Cheguei a Londres em 14 de fevereiro de 1967.
Denise me esperava na estação de trem.
Jogamos minhas malas no hotel e voamos pros estúdios
da EMI em Abbey Road. Ela tinha visto os 4 Beatles
entrando para gravar. Éramos as únicas
fãs naquela noite. Passei a mão na poeira
do carro do John (ainda tenho a luva).
Tudo
parecia meio irreal. Sentamos na escada até
que uma voz disse “com licença”.
Eram John e Ringo. Ele me cumprimentou, Denise tirou
uma foto. Boa coisa, porque no estado de choque em
que me encontrava, não lembraria de nada. Chorei
um bocado depois que eles se foram, e Mal Evans (amigo
e roadie da banda) veio me consolar, dizendo que John
voltaria no dia seguinte. Pouco depois saíram
George e Paul. Um dia antes eu estava em casa, no
Leme.
No
dia seguinte tinha visto os Beatles em carne e osso.
Passei a maior parte da noite chorando de emoção
e alegria. Passei a freqüentar a frente dos estúdios.
Eles lançaram Penny Lane/Strawberry Fields
dias depois que cheguei e estavam gravando Sgt. Pepper.
Chegavam aos estúdios de tarde, às vezes
iam pra casa do Paul antes, principalmente John. A
casa do Paul, que ele tem até hoje, é
perto dos estúdios, e algumas vezes ele ia
e voltava pro trabalho a pé.
Saíam
nos mais variados horários: podia ser 22h30
ou 6 da manhã. O grupinho de fãs que
virava a noite era bem menor do que o que ficava por
lá pra chegada dos 4. Frio, chuva, neve, vento,
falta de comida e água, banheiro nem pensar.
Como sobrevivemos? Movidas a paixão. Ouvíamos
pedaços de músicas quando as portas
se abriam, mas não dava pra saber o que era.
Só depois de ouvir o disco. Relendo meus diários,
vejo que no dia 11 de março ouvi de novo When
I’m 64 no rádio. Em 28 de março,
John saiu dos estúdios às 4h40, com
uma jaqueta na mão. Perguntei pra que era aquela
roupa e ele me disse que era pra capa do disco novo,
virou o cabide pra me mostrar melhor. Perguntei se
já tinham acabado o disco e ele disse que não.
Em 30 de março escrevi “amanhã
é o último dia de gravação,
Paul vai para Nova York na segunda”. Dia 21
de abril ouvi A Day in the Life e Good Morning, Good
Morning no rádio.
Em
7 de maio fui ao Saville Theatre ver Jimi Hendrix.
Paul foi. Tocou Garota de Ipanema no intervalo e ele
olhou pra mim. Klaus Voorman, Brian Jones, Brian Epstein,
Peter Asher e Paul Jones também estavam lá.
Em 25 de maio, fui na loja de discos e o LP não
tinha chegado. Voltei pra casa frustrada. O cara da
loja me ligou às 13h40 e saí voando,
comprei o disco, voltei pra casa, ouvi muitas vezes,
chorei. Dia 4 de junho, minha amiga Paula (de férias
em Londres) e eu fomos para o Saville Theatre onde
estavam Paul, Jane, George, Pattie e Cynthia Lennon.
Vimos também Mick Jagger e Peter Asher. No
intervalo entramos para ver a melhor parte da noite,
o show do Jimi Hendrix. Ele tocou Sgt. Pepper. Foi
fantástico!
Dia
7 de junho, nos estúdios da EMI em Abbey Road,
Ringo autografou meu LP e perguntou por que eu não
estava usando o bigode (que veio dentro do LP, numa
página de cartolina) – pedi desculpas.
George autografou e disse “hello”. John
saiu perto das 3 horas. “Você pode autografar,
John?”, “Sim, eu posso”, respondeu
ele. Meu LP caiu de dentro da capa e ele se abaixou
pra pegar pra mim. Entreguei uma figa que minha mãe
tinha mandado pra ele. “Obrigada, mamãe!”
Dia 8 de junho, John chegou aos estúdios sem
bigode. Minha amiga tirou uma foto de nós dois,
estou segurando meu LP. Paul autografou e disse “see
you”. Ele estava com Brian Jones e Anita. O
espanto de ouvir Sgt. Pepper continua até hoje.
Estou ouvindo enquanto escrevo e poderia ter sido
gravado ontem.
*
Lizzie Bravo, carioca, quase 56 anos, cursou o ginasial
no Stella Maris, estudou piano e balé, morou
em Caracas por 8 anos, no Leme e em Copacabana, foi
secretária, vocalista, fotógrafa, dona
de editora, morou em Londres de 67 a 69, em Nova York
de 84 a 94. Hoje mora no Jardim Botânico e dedica
seu tempo a escrever um livro com textos de seus diários
e fotos inéditas dos Beatles (mais de 100)
que espera lançar a tempo de comemorar os 40
anos do dia em que gravou os vocais na música
Across the Universe, em Abbey Road, ao vivo com os
Beatles e George Martin (14/2/68)
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