Jazz Contemporâneo: Europa versus EUA

Escrito por Vagner Pitta

Na onda de críticos como o europeu Stuart Nicholson, um ou outro crítico musical brasileiro tem dito que o jazz europeu tem sido a grande esperança do ritmo que nasceu na América, reduto onde, supostamente, esse gênero que conhecemos como Jazz teria perdido sua essência evolutiva, já estaria sem fôlego para evoluir ou para impor um novo vanguardismo, e não seria capaz de impor um novo momento de grandes transformações como ocorreu nos anos 40 como o bebop de Charlie Parker ou nos anos 60 com o free jazz de Ornette Coleman.

Wynton Marsalis: uma combinação de músico virtuose, estudioso e entusiasta da tradição e compositor ousado, ele é o grande culpado pelo "regresso" do jazz. Isso acaba ofuscando sua contribuição em desenvolver a escrita jazzística além de onde Duke e Mingus pararam

A culpa, claro, seria toda de Wynton Marsalis, considerado o grande responsável pelo Renascimento do Jazz nos anos 80 e pela nova formalização pedagógica ou pela nova institucionalização, bem como pela nova revalorização que o gênero – agora mais eclético, ainda que se atualizando e se modernizando de forma tênue, sem perder sua autenticidade – vem agaranhando na mídia e no mercado fonográfico nessas últimas três décadas.

Wynton Marsalis - What a Fool I've Been

De fato, nos anos 80 e 90 Wynton Marsalis, indignado tanto com o free jazz exarcebado quanto com o pop instrumental de Miles Davis, chamou a atenção dos músicos de sua geração para a responsabilidade de ter que partir de um novo marco zero, ter de impor uma retomada do jazz não só em termos de autenticidade estilística, mas em termos culturais – e, para tanto, ele teve que resgatar os valores culturais impostos pela tradição, construindo uma carreira-modelo onde, de forma atemporal, ele conseguisse mostrar que, agora, criar algo novo já não era mais importante que resgatar o velho.

Charles Minguse Duke Ellington: revolucionários que sem criar rótulos ou estilos, eles desenvolveram obras que ampliaram as possibilidades da escrita jazzística.

Mas, na verdade, o debate que esses críticos tentam impor aos apreciadores acerca da situação do jazz é um tanto quanto saudosista, sensacionalista e limitado, pois de um lado polariza-se em torno de uma “meia dúzia” de nomes – que não por acaso são os mais populares na mídia – e do outro lado esquece que o jazz não evolui só estilisticamente, mas evolui culturamente: isto é, se observarmos bem a história, veremos que os mestres sempre tiveram o desafio de manter o jazz como música popular ao mesmo tempo em que tentaram mantê-lo, também, como uma corrente artística em constante evolução.

Charlie Mingus - Convertation

Aliás, o jazz, assim como a música erudita, é um exemplo de como a música não evolui apenas quando um novo estilo é criado, mas evolui, também, quando um estilo já convencional é repetido de forma diferente e elaborada: Duke Ellington, Charles Mingus e Wynton Marsalis, por exemplo, não criaram nenhum rótulo ou estilo novo, mas enquanto compositores eles formam uma espécie de “santa trindade” que, usando tanto os elementos modernos quanto os convencionais e tradicionais, levou a escrita jazzística ao mesmo patamar de rigidez e elaboração que a escrita sinfônica erudita – daí o desafio, que é o equilíbrio que esses compositores tiveram em se manterem, numa certa medida, como músicos populares ao mesmo tempo em que se arriscam em composições cerebrais e projetos ambiciosos.

Enrico Pieranunzi - Canto Nascoto

Tim Berne (esquerda) e Steve Coleman (direita)

Portanto, não se deve defender apenas a grande contribuição do ambicioso Wynton Marsalis ao jazz, mas desmitificar a idéia estapafúrdia de que “uma suposta hegemonia wyntoniana tem anulado a criatividade e a inovação do jazz americano”. Stuart Nicholson, quando escreveu isso em seu livro – onde ele diz que o jazz americano parece ter morrido ou mudado de endereço para a Europa – não só escondeu a grande criatividade de Wynton Marsalis como o maior dos compositores das últimas décadas, como também usou a desculpa da revalorização da tradição americana, imposta pelos Young Lions dos anos 80 e 90, para tentar enaltecer o novo fôlego que a Europa mostra em termos de jazz e esconder o fato de que os EUA a muito tempo já evidencia sua nova leva de músicos progressistas, uma considerável legião compositores inteligentes, os quais, nos últimos 30 anos, vem impondo novos estilos de se fazer jazz: entre eles o veterano Henry Threadgill, bem como músicos que surgiram em paralelo com a geração Young Lions a partir dos anos 80 tais como John Zorn, Dave Douglas, Steve Coleman, Tim Berne e Don Byron, citando apenas alguns.

Robert Glasper - All Matter

Robert Glasper: um jazz americano com roupagens da musica atual e urbana, ou seja, hip hop, gospel e neo-soul

Ora, tudo bem, não sejamos hipócritas! a Europa, depois de ter influenciado os próprios EUA com seu free jazz extremo lá nos anos 60 , agora tem se fortalecido em redutos, em etiquetas e em músicos que estão se tornando legendários para o jazz contemporâneo; ou seja, se formos estudar o jazz italiano, por exemplo, veremos que é um reduto que vem se fortalecendo de jazzistas com nomes tão fortes quanto os nomes dos EUA tais como o veterano trompetista Enrico Rava, os pianistas Enrico Pieranunzzi e Stephano Bollani, o trombonista Gianlucca Petrella e o trompetista Paolo Fresu; já em termos de selos, conhecemos bem o protagonismo do selo alemão ECM, a nova atuação do também alemão ACT – ex-responsável pelo impulso do Esbjorn Svensson Trio ao sucesso e agora responsável pelo Vijay Iyer Trio, dentre muitos outros músicos e bandas européias – , bem como o crescimento de selos como a gravadora a italiana CAM Jazz, a também alemã Enja e a portuguesa Clean Feed, citando apenas alguns exemplos.

Enrico Rava - Certi Angoli Segret

Enrico Rava e Paolo Fresu n: músicos europeus legendários do jazz contemporâneo.

Contudo, não existe comparação que equipare o ainda disperso, eclético e fragmentado cenário europeu – digo não em qualidade, mas em quantidade, formalidade, influência e movimentos – com o sempre robusto cenário americano. Ou seja, se por um lado houve, nos EUA, o forte movimento neo-tradicionalista, no qual os músicos americanos expressaram um mainstream com uma formalidade que deixava evidente a atualização dos estilos do passado – já que o que importava era manter o respeito à tradição deixada pelos grandes mestres e à cultura americana – por outro lado, e em certos momentos, outros movimentos também formalizaram estilos distintos de se fazer jazz que, por sinal, se mantiveram como influência e base para as novas gerações.

Paolo Fresu - Passalento

Exemplos: em contrapartida ao neo-bop e ao resgate do jazz tradicional imposto pelo influente Wynton Marsalis, Steve Coleman e sua equipe de músicos formalizaram um conceito chamado M-Base, que influenciou e influencia muitos dos principais músicos do jazz contemporâneo; ao mesmo tempo, no final dos anos 80 e início dos anos 90, Branford Marsalis, Roy Hargrove, Greg Osby e uma leva de músicos e rappers entraram na onda do jazz-rap (movimento que também foi entendido como um resgate do acid jazz), o qual ainda influencia muitos músicos contemporâneos; enquanto isso, o ultra-vanguardista John Zorn liderava uma galera, na downtown nova-iorquina, que levava adiante sua intenção de misturar o mais tórrido free jazz com as mais variadas formas de músicas: klezmer, country, punk, hardcore, death metal, noise e música erudita só fora alguns elementos usados por Zorn e seus seguidores (o movimento, s vezes rotulado de jazz-punk, foi tão iconoclasta que algumas das produções de Zorn e sua turma nem podem ser categorizadas como jazz, propriamente dito); já no final dos anos 90 e início da década de 2000, presenciamos o fim da era dos Young Lions e a evidência de uma nova corrente de músicos ecléticos chamada “modern creative” e formada por músicos e compositores como os já veteranos Bill Frisell e Tim Berne, o já quase veterano Dave Douglas, os jovens Jason Moran, Vijay Iyer, Matthew Shipp, Craig Taborn, Ken Vandermark, dentre tantos outros que começaram a compor e a tocar influenciados tanto pelo free jazz quanto pelo post-bop (muito se falou, inclusive, de um possível resgate do free jazz, agora mais composto e elaborado);e por fim, surgiu mais uma nova corrente de músicos tais como Brad Mehldau, Stefon Harris, Joshua Redman, Christian McBride, Kurt Rosenwinkel, Alex Sipiagin, Robert Glasper, Aaron Parks, os quais vem modernizando o neo-bop e post-bop, imprimindo um novo mainstream repleto de frescor e elementos de outros gêneros musicais contemporâneos tais como o pop, o indie-rock, o hip hop e o neo-soul.

Bojan Z - Ashes To Ashes

E foi mais ou menos assim que o enorme panteão de músicos americanos, em seus conflitos estéticos – ou seja, com esses fortes movimentos acontecendo consecutivamente ou até mesmo justapondo-se uns aos outros, em paralelo –, formou o que denomina-se como jazz contemporâneo – eclético tal como conhecemos hoje, mas com movimentos estéticos que se fortalecem como bases sólidas e explicam porque do jazz americano continua em alta no mercado e na mídia que se propõe a divulgá-lo.

já em relação à Europa, fica a dúvida: afora o desenvolvimento de redutos e o já tradicional movimento da livre improvisação – que traz consigo autênticos elementos da arte musical moderna desenvolvida em solo europeu no século XX –, qual o movimento concreto e efetivo e qual a contribuição formal que o jazz europeu tem proporcionado ao jazz contemporâneo como um todo nessas últimas décadas? Ao meu ver, a evidência de músicos criativos e bandas européias que também são protagonistas no jazz contemporâneo como os franceses Erik Trufazz, Hadouk Trio e Richard Galliano, os italianos Enrico Rava, Stephano Bollani e Paolo Fresu, os suecos Bobo Stenson e Esbjorn Svensson (morto em 2008), o sérvio Bojan Z, os alemães Jazz Pistols e Thomas Rotter, dentre outros, não ofusca em nada a criatividade e a riqueza de estilos e movimentos que o grande cenário dos EUA dispõe – aliás, pelo contrário, muitos desses músicos são um tanto influenciados pelo jazz americano e até necessitam de sidemans e produtores americanos para gravar seus discos.

Erik Truffaz Quartet - Siegfried

Então, a Europa – até mesmo pela sua geografia e pela sua diversidade cultural – pode até ser ecleticamente mais rica de ritmos e influências musicais, mas em termos de jazz, propriamente dito, é um cenário ainda em formação que está precisando mostrar a que veio: sim, quero dizer que o jazz europeu precisa desenvolver e formalizar estilos – os quais, em conjunto, caracterize o “desenho” do “jazz europeu” –, e precisa concretizar novas formas de se fazer jazz, desenvolver movimentos e fortalecer seus redutos, precisa mostrar novos músicos e compositores que seja tão legendários quanto os maiores jazzistas americanos. A ecleticidade exarcebada, a falta de movimentos convincentes e a dispersão de idéias e estilos que se constata nas produções jazzísticas européias mostra-nos apenas um cenário extremamente rico sem direcionamento estético.

Esbjörn Svensson Trio - Tuesday Wonderland

Fonte: Vagner Pitta ( músico, blogueiro e pesquisador musical (jazz researcher), criador e editor do blog e podcast Farofa Moderna, sobre jazz, música improvisada e música instrumental brasileira ) Escreve sobre Jazz para o Portal MTV.

Home
Links


Matérias: Matérias Antigas | Quando o Jazz é sagrado | Strokes lança primeira música em seis anos | Videos Criativos 2011 | BMW Jazz Festival | Fitas cassete resistem | Lotus - Santana | Virada Cultural 2011 | Gismontipascoal | Tom na Visão de Nelson | Nas Paredes da Pedra Encantada | A Trilogia Sagrada | Reinauguração do Teatro Municipal de São Paulo | Pitchfork Music Festival 2011 | O Adeus à Diva | Philip Glass: uma assinatura própria | Rock in Rio 2011 | SWU | Lista Eldorado 2011 | Kisses on The Bottom | Oscar 2012 | Festival da Cores | Novo Documentário dos Stones | The | The Band: O Ùltimo Concerto de Rock | The Singer - Liza Minnelli | Psicodalia por ordem cronológica

Destaques: A volta do Queen | Babyshambles | Cantoras Brasileiras | Cena Eletronica | Clocks | Corinne Bailey | Dig Out Your Soul | Escola do Pop Rock | Horace Silver | Im Takt der Zeit | Keane | Jamie Cullum | John Legend | Julliete & The Licks | Kantata Takwa | Led Zeppelin | Madeleine Peyroux | Michael Jackson - Thriller 25 | Little Boots | Miriam Makeba | Mostra de Arte / Casais | Musicians and Machines | Nara e Fernanda | Nonsense | Oscar Peterson | Paul McCartney | Piaf - Um hino ao amor | Prokofiev | Regentes | Rotciv | Stay | Studio 54 | Yo-Yo Ma | The Heist Series | The Verve - Forth | Vanessa da Mata | Demis Roussos & Aphrodite's Child | Tommy avec The Who | Villa Lobos, Brisa Vesperal