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Primavera
de comer
Em cozinhas mais antigas, na Europa e na Ásia,
seu uso é tão comum quanto o das ervas
Enquanto na Europa e na Ásia as flores desempenham
um papel importante na culinária e o seu uso é
tão comum quanto o das ervas, por aqui o consumo é
acanhado e elas ainda são vistas com resistência,
como adereço - uma '''firula'' no prato, que colore,
perfuma e até encanta, mas é deixada de lado.
Delicadas, aromáticas e com sabor peculiar, as flores
podem surpreender em diferentes preparos, da frugal omelete
a doces refinados.
No
Brasil, geralmente estão em pratos com sotaque árabe,
francês ou oriental, em geléias, pétalas
cristalizadas, caldas doces, sorbets e molhos. Ou simplesmente
in natura, frescas. A do manjericão, por exemplo, pode
ser usada na água de cozimento da massa, ou até
substituir a folha, por ser tão aromática quanto
ela, porém mais charmosa. ''Algumas são mais
picantes, outras mais adocicadas. De um modo geral, as flores
têm sabor semelhante a uma folha verde e podem ser temperadas
da mesma form'', diz o chef Eric Thomas, do Tantra, que usa
capuchinha, amor-perfeito e minirrosas em saladas, molhos
e gelatinas. ''Elas combinam mais com carne branca, especialmente
peixes, e frutos do mar, como salmão e camarão".
O chef
japonês Shin Koike, dos restaurantes Aizomê e
A1, prepara uma receita, no mínimo, interessante: camarões
doces temperados com flor de sakura (cerejeira) servidos com
tempura de flor de abobrinha recheada com ouriço. As
flores japonesas, raras por aqui, são trazidas em uma
conserva de sal, que é suavizada com um banho de água
antes do preparo. Já o Capim Santo, da chef Morena
Leite, serve uma seleção de sorbets à
base de rosa, jasmim, amor-perfeito com camomila, e hibisco.
Foto
: Marcelo Barabani/AE - Camarão doce com flores
de Sakura e abobrinha com ouriço-do-mar, do chef
Shin Koike |
''Perecíveis,
as flores duram apenas 24 horas após a colheita. Embaladas
em plástico e conservadas sob refrigeração,
podem manter-se por até três dias'', explica
a herborista Sabrina Jeha, do viveiro Sabor de Fazenda, que
vende mudas de ervas e flores.
Um
jardim equilibrado e comestível
Luiz
Horta
Tive o
privilégio, dois anos atrás, de comandar a cozinha
do Mugaritz, no País Basco. Já vou esclarecer.
Estava fazendo uma longa entrevista com o chef, Andoni Luis
Aduriz. Só que naquela noite ele viajaria. Fui convidado
então a assistir de dentro toda a operação
de uma cozinha estrelada, e reconhecida como uma das mais
criativas do mundo. A brigada procurou um dólmã
disponível. O único que encontraram tinha bordado
o nome Andoni Luis.
Vestido
de chef, acompanhei então a feitura de cada prato,
estagiando um pouco em cada praça. O impressionante
era ver aquelas mais de 40 pessoas trabalhando em silêncio,
disciplina e harmonia. Nada a ver com as histórias
que encantam os leitores de Anthony Bourdain e companhia:
cozinhas caóticas, improvisação, perversões.
A cozinha do Mugaritz não tem o charme dos programas
de TV sobre chefs nervosinhos. É séria, austera,
mas o ambiente é leve.
Como Andoni
não estava, cada prato tinha um encarregado principal,
que detinha o mapa de sua elaboração. Não
exagero usando essa palavra, porque o que nos interessa aqui,
a salada de brotos, pétalas e flores, tinha realmente
páginas e páginas de papel com as espécies
empregadas, com sua descrição ao lado e a ordem
e posição em que deviam aparecer. E a cozinheira
que se ocupava dele, justo naquela noite, passava a tarefa
a sua sucessora, pois mudava de posição. Então
presenciei a aula. As duas, com uma pinça na mão,
montavam o complexo esquema, como relojoeiras botânicas,
para que o resultado aparecesse na mesa como um jardim equilibrado
e comestível, tão bem feito que parecia ter
sido encontrado assim mesmo, pronto, na natureza. Eis aí
a grande arte: fazer sumir a mão humana por detrás
do prato, levar ao comensal uma experiência de comer
a natureza como se estivesse no meio do campo, sem que ele
imagine todo o trabalho minucioso de sua elaboração.
Cada componente tem um lugar estético na composição.
Mas não é somente isso: seus sabores e texturas
também. Não é um arranjo floral, é
um delicado balanço entre amargo e doce, gosto verdoso
e gosto de flores, aroma de mato e de campo, um minijardim
inglês.
Andoni,
além de pesquisar constantemente novas espécies
comestíveis, mantém uma estufa em seu restaurante
(que é situado no meio de um bosque, afastado de San
Sebastián). Todos os dias é possível
vê-lo provando cada folha, testando o que está
bom, como um pintor preparando sua paleta para trabalhar.
O detalhismo e o rigor são tamanhos que ele acabou
publicando, com um grupo de pesquisadores, seu Dicionário
Botânico para Cozinheiros, além do belo Clorofilia,
seu livro autoral sobre a paixão pela natureza.

La salle
du Mugaritz Photo Mab S.L. © José Luis Lopez de
Zubiria
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Receitas
No começo,
é melhor fazer receitas relativamente simples: infusão
para sorbets e sorvetes num creme inglês ou um xarope;
em infusão de óleo para vinagretes; geléias
e compotas (framboesa com rosa ou hibisco, cítricos
com gerânio); e, é claro, algumas pétalas
(de capuchinho, borragem, flor de funcho, flor de alho) numa
salada verde. É preciso sempre se assegurar da procedência
das plantas e flores, que para uso em culinária, têm
de ser orgânicas. Não se pode comprar numa floricultura.
E deve-se sempre consultar um profissional, pois muitas plantas
e flores são tóxicas. É comum que uma
parte de uma planta seja comestível e outra parte seja
tóxica. Exemplo: tomate é comestível,
folha de tomate é tóxica.
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Lagostim
com flores
4
porções 20 minutos
Ingredientes
8 lagostins; 4 colheres (sopa) de óleo de semente de
uva; 1 punhado de capuchinha; flor de sal e pimenta moída;
2 colheres (sopa) de azeite de oliva
Salada:
folhas de rúcula, brotos de espinafre e beldroega;
pétalas de flores (capuchinha, borragem, aciano e orégano);
suco de limão
Condimento
de noz: 2 colheres (sopa) de noz; 1/2 dente de alho
Preparo
Óleo
de capuchinha: Pique as flores, deixe macerar por dois dias
no óleo em lugar fresco e filtre. Tempere a salada
com azeite, flor do sal, pimenta, gotas do suco de limão
e pétalas de flores. Condimento de noz: Toste as nozes
e misture com o alho. Reserve. Cozinhe os lagostins na frigideira
por 1 minuto de cada lado e sirva com a salada, o óleo
perfumado e o condimento de nozes.
Calorias:
478 kcal (porção)
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RECEITA
DE SHIN KOIKE
Tempurá de flor de abobrinha com ouriço-do-mar
4
porções 30 minutos fácil
Ingredientes
16 flores
de abobrinha
320g de ouriço-do-mar
Sal a gosto
Óleo para fritar
Para a massa de tempurá
150g de farinha de trigo
1 ovo
1 litro de água
Preparo
Para fazer
a massa, bata o ovo e misture com a água. Acrescente
a farinha aos poucos, mexendo sempre. Recheie a flor de abobrinha
com o ouriço, passe na massa de tempurá e frite
em óleo quente (180° C). Tempere com sal a gosto
e, se quiser, gotas de limão.
Calorias:
473 kcal (porção)
OBS.:
O chef serve a receita em taça, com camarão
doce japonês temperado com flor de sakura (cerejeira).
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RECEITA
DE ERIC THOMAS
Salada do campo
1 porção
25 minutos médio
Ingredientes
Para a salada: 4 folhas de rúcula; 4 folhas de alface;
4 folhas de agrião; 6 folhas de manjericão;
1 pacote de gelatina incolor; 50ml de champanhe; flores frescas
para colocar na gelatina e decorar (como minirrosa e amor-perfeito)
Para o
molho: 200ml de azeite de oliva; 1/4 de copo de vinagre de
champanhe; 50ml de champanhe; sal e pimenta a gosto; 1 colher
de chá de açúcar
Preparo:
Salada: Rasgue as folhas em uma travessa sem picar muito e
reserve.
Gelatina:
Dissolva a gelatina incolor com água quente e, em seguida,
acrescente champanhe gelado (no lugar da água). Em
uma forma de gelo plástico, acrescente em cada forminha
uma flor e cubra com a gelatina. Leve para gelar. Use as gelatinas
e flores frescas para enfeitar a salada.
Molho:
Misture todos os ingredientes começando com o azeite
de oliva. Finalize com sal e pimenta a gosto e uma colher
de açúcar. Tempere a salada ou sirva à
parte.
Calorias:
1.868 kcal (porção)
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TANTRA
Thai shrimp
1 porção
50 minutos médio
Ingredientes:
6 camarões grandes limpos; 400ml leite de coco light;
4 dentes de alho; 4 pimentas vermelhas sem semente; 1 colher
(sopa) mal cheia de açúcar mascavo; 3 colheres
(sopa) de shoyu; 1 colher (sobremesa) rasa de dashi; 1 colher
(sobremesa) mal cheia de raiz de coentro; 1 colher de gengibre
sem casca
Para os
rolinhos: Aspargo; cenoura; nori (alga japonesa); 1 copo de
suco de laranja; 1 colher de mel; 1 colher de gengibre; flores
comestíveis (capuchinha, amor-perfeito e rosas)
Preparo:
Camarões: Tempere os camarões com sal, pimenta
e suco de limão. Refogue no azeite por alguns instantes
e em seguida adicione os outros ingredientes para formar o
molho (primeiro o alho fatiado para dourar ligeiramente e,
em seguida, leite de coco, pimenta, gengibre, açúcar
mascavo, shoyu, dashi e coentro), que quase cobrirará
os camarões. Deixe que ferva e reduza um pouco. Retire
os camarões e sirva esse molho sobre eles.
Rolinhos:
Corte a cenoura e o aspargo em pequenos palitos. Puxe-os na
manteiga e faça quatro buquês com nori ou prenda
o rolinho com um filete de folha de bananeira. Prepare um
molho com o suco de laranja, o mel, o gengibre e as flores
comestíveis. Em um prato grande, coloque os camarões
e os rolinhos com o molho à parte. Se quiser, sirva
com arroz e/ou salada verde.
Calorias:
2.268 kcal (porção)
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SABOR
DE FAZENDA
Charuto de capuchinha com patê de ricota
15 porções
20 minutos
Ingredientes
Folhas
e flores decapuchinha
400g de ricota
1 colher (sopa) de salsinha picada
1 colher (sopa) de hortelã picada
1 cenoura ralada
1 colher (sopa) de iogurte natural
Azeite e sal a gosto
Preparo
Lave bem
as flores e folhas e reserve. Misture bem os outros ingredientes.
Coloque 1 colher de sopa do patê no meio da folha da
capuchinha ajeite e enrole. Amarre com uma folha de cebolinha
francesa ou prenda com um palito. Recheie as flores com o
mesmo patê e sirva.
Calorias:
100,8 kcal (porção)

Viveiro
de Mudas - Sabor da Fazenda
CURIOSIDADES
Não
são apenas as pétalas da capuchinha que fazem
sucesso à mesa. Da flor aproveitam-se também
as sementes e os pequenos frutos (botões). "As
sementes ficam ótimas em conserva, como aperitivo.
Os botões são conhecidos como falsa alcaparra
e substituem bem o ingrediente", diz a herborista Sabrina
Jeha.
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Alcachofra Prima dos girassóis, a alcachofra é
uma das flores mais populares na mesa brasileira, assim
como o brócolis, a couve-flor e a alcaparra. Rica
em propriedades terapêuticas, rende bons recheios
e acompanhamento de massas. Também pode ser cozida
inteira. Seu fundo ganha versões gratinadas ou
em conservas. Aproveite, pois esta é a melhor época
para comer o ingrediente. |
Gosto
de terroir
Prato
ao mesmo tempo simples e complexo, o célebre gargouillou
de jeunes legumes, de Michel Bras é uma obra-prima
de alta cozinha conectada ao terroir, unindo legumes variados
(cada qual em seu ponto de cozimento), folhas, ervas e flores
da região dos Pirineus Centrais franceses. Para quem
quiser acompanhar o chef discorrendo sobre uma de suas criações
mais influentes, o video está em: www.directoalpaladar.com/tag/michel+bras.
Flores
de vanguarda
Em Miel,
Flores y Pistachos o super-chef Ferran Adrià propõe
uma espuma ornada com até 14 flores diferentes. Elas
devem ser degustadas uma a uma para que se possa sentir os
sabores e perfumes de cada espécie;
El
Bulli - Cocinero:Ferran Adrià. Veja a receita - clique
no link:
Miel,
Flores y Pistachos
Da
abobrinha
Como todas
as flores, a de abobrinha também é perecível,
por isso a dificuldade em encontrá-la com freqüência
no mercado. De cor amarelo-alaranjado ela pode ser refogada
com manteiga e usada para enriquecer sopas, omeletes e saladas.
Ou ainda ser empanada e frita como um tempura; recheada com
queijos fortes ou outros ingredientes, como o ouriço
do mar. Sirva como acompanhamento ou antepasto.
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Agave
americana: planta das Américas Central e do Sul.
Sua florescência demora entre 10 e 20 anos. Cultivada
no México desde 1561, suas flores são ingeridas
com tortilhas. Sua seiva é fermentada e obtém-se
o pulque, bebida da qual, destilada, origina-se a tequila
ou o mescal.
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Onde
comprar
CASA SANTA
LUZIA
Al. Lorena, 1471, Jd. Paulista, 3897-5000
ERVAS
FINAS
Campo Limpo Paulista, 4039-1054 (www.ervasfinasnet.com.br)
FAZENDA
SANTO ONOFRE
Morungaba, 4534-9700 e 9936-9663
SABOR
DE FAZENDA -
clique aqui para conhecer o site
Av. Nadir Dias de Figueiredo, 395, V. Maria, 6955-9400
Onde ComerAIZÔME
Al. Fernão Cardim, 39, Jd. Paulista, 3251-5157
CASA DA
FAZENDA
Av. Morumbi, 5.594, Morumbi, 3742-2810
D.O.M.
R. Barão de Capanema, 549, Jd. Paulista, 3088-0761
TANTRA
R. Chilon, 364, V. Olímpia, 3846-7112
VICOLO
NOSTRO
R. Jataituba, 29, Brooklin, tel. 5533-3096
ZAZÁ
BISTRÔ
R. Joana Angélica, 40, Ipanema, Rio de Janeiro, (21)2247-9101
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Fontes:
Lucinéia Nunes; Luiz Horta - O Estado de S.Paulo, Vilane
Carvalho - Minha Rua
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