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Im
Takt der Zeit
Reger
a Filarmônica de Berlim, a melhor do mundo, é
uma espécie de papado da música erudita. Nova
caixa com CDs da orquestra conta, a seu modo, a história
da regência no século 20.

Hans von Bülow
(1830-1894) era um beethoveniano apaixonado, capaz de bisar
a Nona Sinfonia na íntegra, ou de colocar luvas negras
antes de reger a Marcha Fúnebre, da Sinfonia Heróica,
para reforçar a carga dramática. Já Arthur
Nikisch (1855-1922), um baixinho de vasta cabeleira e anel
de diamante no mindinho da mão esquerda, podia passar
12 horas ensaiando uma peça, mas jamais elevava a voz
para os músicos. Wilhelm Furtwängler (1886-1954)
falava pouco nos ensaios e não gostava de bater o tempo,
movendo-se no pódio de maneira idiossincrática,
enquanto Herbert von Karajan (1908-1989) regia de olhos fechados
para evidenciar sua memória musical prodigiosa, e não
hesitava em dizer aos músicos de sua orquestra que
gostaria de jogar gasolina e atear fogo neles.
Além do
fato de serem quatro dos nomes mais influentes na história
da regência, esses maestros têm em comum o fato
de terem comandado a melhor orquestra do planeta, a Filarmônica
de Berlim. Em 2007, ela resolveu comemorar seu 125o aniversário
com um projeto fonográfico ambicioso: a caixa de 12
CDs Im Takt der Zeit ("No compasso do tempo"),
com registros que vão de 1913 e 2002. O cargo de maestro
da orquestra alemã está para a música
erudita assim como o papado para a religião católica.
Isso significa que mapear a evolução da Filarmônica
de Berlim equivale, de certo modo, a contar a história
da regência orquestral no século 20.

Marin
Marais (1656- 1728), compositeur français de la période
baroque.
A
antologia ganha caráter ainda mais significativo se
levarmos em conta o fato de que o maestro com batuta é
um fenômeno relativamente recente, não anterior
ao início do século 19. Claro que, antes disso,
sempre havia alguém para coordenar a execução,
fazendo, pelo menos, a marcação do tempo. Lembre-se
de Gérard Depardieu, fortemente maquiado, no papel
do compositor Marin Marais (1656-1728) no filme Todas as Manhãs
do Mundo (1991), de Alain Corneau: o costume, na França
do século 17, era bater no chão com um bastão.
Tudo ia bem, até que o florentino de nascimento Jean
Baptiste-Lully (1632-1687), compositor da corte de Luís
14, parceiro musical de Molière e criador do grande
gênero operístico francês conhecido como
tragédie lyrique, acertou o próprio pé
com o bastão durante uma performance; dada a precariedade
da medicina da época, formou-se uma gangrena e ele
veio a falecer em virtude do ferimento. Ao que tudo indica,
foi o compositor, violinista e regente germânico Ludwig
Spohr (1784-1859), em Londres, em 1820, o primeiro a utilizar
uma batuta para conduzir a orquestra.
Mas
o primeiro grande musicista especializado na função
de reger foi Hans von Bülow, um pianista consumado que
foi casado com a filha de Liszt, Cosima (que o abandonaria
para se ligar a Richard Wagner). Excêntrico e carismático,
Bülow parecia ser o nome certo para galvanizar o grupo
de 54 músicos rebeldes que, em 1882, haviam pulado
fora da orquestra de Benjamin Bilse (a Bilsesche Kapelle,
fundada por ele 20 anos antes) na capital germânica,
cansados de atrasos no pagamento e viagens de trem com bilhetes
de quarta classe.

HANS
VON BULOW
Bülow
já havia feito da Orquestra de Meiningen um grupo de
referência européia de qualidade e, nos cinco
anos de sua gestão à frente da Filarmônica
de Berlim (1887-1892), lançou as bases da excelência
pelo qual a orquestra logo se tornaria reverenciada em todo
o planeta. Infelizmente, não restaram documentos fonográfi
cos do brilho analítico pelo qual a regência
de Bülow era louvada - mas está documentado em
disco o efeito de espontaneidade, próximo da improvisação,
que foi a marca registrada de Arthur Nikisch, alcunhado, em
seu tempo, de "Mago do Som". Subjetivo e sentimental,
Nikisch aparece, na caixa de CDs, dirigindo Liszt e Berlioz.
Ele uma vez escreveu que "em um grupo orquestral de primeira
classe, cada membro merece ser chamado de artista" -
uma visão mais do que adequada para um conjunto que
havia nascido como uma "república orquestral",
e cuja sonoridade única, até hoje, vem do fato
de cada um de seus integrantes ter também nível
artístico, técnica e mentalidade de solista.

Arthur
Nikisch
Não
surpreende, portanto, que depois da morte de Nikisch, Wilhelm
Furtwängler tenha sido escolhido por unanimidade entre
os músicos como seu sucessor. Se naquela época
o italiano Arturo Toscanini (1867-1957) fazia furor com juras
de fidelidade às intenções de compositor
e tempos acelerados que pareciam prefigurar os credos "autenticistas"
da escola de música antiga com instrumentos de época,
Furtwängler soava como seu antípoda, com leituras
visionárias que, em vez de tentar reconstituir o estilo
do tempo do compositor, pareciam querer atualizar as partituras
do passado - como é o caso da gravação
da Quinta Sinfonia, de Beethoven, realizada em plena Segunda
Guerra, em 1943, na Philharmonie (a sede da orquestra, que
seria destruída nos bombardeios à capital alemã).

Wilhelm
Furtwängler (1886 - 1954)
Ao
contrário de outras personalidades culturais alemãs,
Furtwängler não emigrou durante o nazismo, e foi
bem tratado pela alta cúpula do regime - controversa,
a relação entre ele e a ditadura foi tratada
pela peça Taking Sides ("tomando partido"),
de Ronald Harwood, transformada em filme em 2001 por István
Szabó. No final da guerra, ele se refugiou na Suíça,
sendo posteriormente julgado por um comitê de desnazificação.
Entre maio e agosto de 1945, a orquestra ficou sob a direção
do antinazista Leo Borchard (1899-1945), e com a morte deste
(em um incidente, pelos disparos de um soldado de ocupação)
passou para as mãos de um jovem romeno - à época,
de pouca fama: Sergiu Celibidache (1912-1996).
Nazismo
e Zen-Budismo
Zen-budismo,
notória aversão a estúdios de gravação
e tempos exasperadoramente lentos e dilatados são as
idiossincrasias que construíram a reputação
de Celibidache, especialmente no período em que esteve
à frente da Filarmônica de Munique (de 1979 até
a sua morte). O que se houve no disco da coleção
da Filarmônica de Berlim, contudo, é um Celibidache
bem diferente: frescor, vida e agilidade caracterizam suas
leituras de Debussy, Mendelssohn e Milhaud. Ele ficou sete
anos à frente da orquestra de Berlim, até o
triunfal retorno de um Furtwängler absolvido pelos tribunais
de guerra, em 1952, para dirigir o grupo até seu falecimento,
em 1954.

Herbert
von Karajan
O
patriarca foi sucedido pelo regente que ele mais odiava. Dizem
que foi Furtwängler quem mexeu os pauzinhos para que
fosse enviado para a frente de batalha (onde veio a falecer)
o crítico Edwin van der Nüll, porque este, em
1938, saudou a emergência de uma nova estrela germânica
da regência: "O Milagre Karajan". Membro do
partido nazista desde 1933, Karajan regeu em países
ocupados pelo Reich e em ocasiões festivas do regime.
Teve que ficar um ano na geladeira depois da Segunda Guerra,
mas foi também absolvido pelo comitê de desnazificação.
Ele permaneceu 35 anos à frente da Filarmônica
de Berlim, consolidando-se como um dos regentes mais ricos
e poderosos de seu tempo. Ostentava um estilo de vida luxuoso,
gravou abundantemente e realizou inúmeras turnês.
Nunca a orquestra havia tido tamanha visibilidade, transformando-se,
de uma vez por todas, em referência internacional de
qualidade, graças a uma sonoridade rica e luxuriante
e um culto obsessivo do detalhe e da perfeição.
A
coleção mostra Karajan em seu auge, regendo
a Nona Sinfonia, de Beethoven, em uma ocasião histórica
- a inauguração da nova sede da orquestra, em
1963, um projeto visionário de Hans Scharoun, com design
ousado (no formato de pentágonos entrelaçados)
e uma acústica deslumbrante (seu endereço, hoje,
sintomaticamente, é rua Herbert von Karajan, no 1).
Apesar de toda a fama e fortuna, a autocracia de Karajan cansou
os músicos berlinenses e isso se tornou evidente na
hora de escolher seu sucessor, após a morte do maestro,
em 1989. O posto não foi para nomes próximos
a ele, como James Levine ou Seiji Ozawa, e sim para o italiano
Claudio Abbado.

Claudio
Abbado
Abbado
representava o retorno aos princípios democráticos
que animaram a orquestra no passado, bem como a ampliação
de repertório, com ênfase maior na música
contemporânea. Ele também trouxe uma maneira
mais arejada de abordar o classicismo, como fica evidente
na coleção com sua gravação da
Serenata Haffner, de Mozart. Em 1998, Abbado anunciou que,
diferentemente de seus antecessores, que haviam ficado no
posto até a morte, ele sairia do comando da orquestra
em 2002 para "ler, viajar e velejar". No cargo até
hoje, seu sucessor foi o britânico sir Simon Rattle,
um comunicador vigoroso, de técnica clara, e uma capacidade
de entrega e arrebatamento evidenciada, na coleção
de CDs, com na gravação de sua estréia
com a filarmônica: a Sinfonia no 6, de Mahler, em 1987.

Simon
Rattle conducts the Berlin Philharmonic. Photograph: Stuart
Ramson/AP
A
bem da verdade, hoje o britânico não é
unanimidade entre os críticos da capital alemã.
Muitos preferiam ter visto em seu lugar Daniel Barenboim,
64, pianista de primeira classe que, como regente, se revelou
um seguidor do estilo e dos ideais de Furtwängler. Barenboim
também está contemplado na coleção,
em um concerto histórico: o registro da apresentação
que ele regeu três dias depois da queda do muro de Berlim,
em 12 de novembro de 1989.
Outros
maestros que não foram diretores da orquestra, mas
regeram como convidados, também aparecem na caixa,
como Jascha Horenstein (1898-1973), Erich Kleiber (1890-1956),
Kurt Sanderling (venerando senhor de 94 anos que o regime
comunista da Alemanha Oriental tentou transformar no "Karajan
vermelho") e mesmo David Oistrakh (1908-1974), mais conhecido
como violinista e que, aqui, dirige uma apaixonada leitura
da Sinfonia Patética, de Tchaikovski. Surpreendente
é ouvir o grupo tocando Bach sob a batuta de Nikolaus
Harnoncourt, 67: o especialista em música antiga faz
a filarmônica soar como uma orquestra barroca, no mais
autêntico estilo "de época", mostrando
que parece não haver limites para a versatilidade da
melhor orquestra do mundo.
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Fonte:
Irineu Franco Perpetuo
(Bravo), Vienna Online e Macconnect
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