Um Estranho no Ninho
(One Flew Over the Cuckoo's Nest, 1975)

Uma obra-prima do cinema, perfeita em todos os aspectos.

Talvez, mais brilhante que o mérito de Milos Forman por ter dirigido essa obra-prima do cinema mundial seja a história da produção em si. Um sonho de Michael e Kirk Douglas que apenas após muita luta, muito trabalho e muita espera foi realizado, ao ser lançado “One Flew Over The Cuckoo’s Nest”.


01 Jan 1966 - Kirk Douglas, Michael Douglas
(Photo by Hulton Archive/Getty Images)

Tudo começou no ano de 1961 quando um homem chamado Kirk Douglas carregava uma paixão consigo. Kirk, desde que lera o livro que deu origem à “One Flew Over The Cuckoo’s Nest” ficara encantado com o mesmo. E isto, passou de pai para filho, tamanho a admiração do ator pelo projeto. Michael Douglas sempre compartilhou e conservava a mesma paixão pela obra que seu pai.

Curiosidades a parte, o fato é que Kirk Douglas levou sua paixão pelo livro a um lado muito mais prático e passional; o ilustre astro do cinema acabou decidindo por levar o projeto aos teatros de todo o mundo; era uma ambição grande, entretanto, Kirk acreditava cegamente na grande capacidade que a obra possuía.

Infelizmente, o sonho de Kirk quase veio por água abaixo. A peça foi um fracasso total, absoluto. As pessoas não compreendiam a essência da peça ou a mesma não passava uma certa fidelidade ao público como o filme ou o livro, por exemplo. O público simplesmente não entendia e não gostava da forma como os atores (cujos personagens eram doentes mentais) eram tratados e assim, acabaram causando uma certa aversão à peça. Por conseqüência desse “mau recebimento” do público, a obra veio a fracassar do ponto de vista econômico (e rentável) cinco meses após sua estréia.

Kirk chegou até mesmo a abaixar o seu próprio salário para manter sua paixão acesa e tentou que os outros atores fizessem o mesmo, entretanto, não conseguiu. Estava enterrado um dos maiores projetos de Kirk; contudo, o mesmo nunca descartou a possibilidade de encenar a peça novamente.

Michael Douglas, vendo, vivendo e nutrindo a paixão de seu pai, acabou por tomar as rédeas do projeto e decidiu levá-lo a frente mais uma vez, mas agora adaptando-o aos cinemas, ao invés dos teatros. A missão era difícil, até porque depois do fracasso da peça nenhum grande estúdio gostaria de realizar o filme, portanto, o projeto iria dispor de um orçamento muito reduzido.

A Procura Por Um Elenco

Michael, agora líder do projeto e produtor do futuro filme, e Kirk não tinham dinheiro algum para gastarem com “grandes astros” do cinema no elenco de “Um Estranho no Ninho”, entretanto, eles sabiam que precisariam de um grande diretor para a obra. Em uma de suas viagens pelo mundo, Michael e Kirk encontraram um amigo e jovem diretor chamado Milos Forman e, depois de longa conversa, perguntaram a Milos que se eles enviassem um livro para o diretor e se ele gostasse, ele consideraria a hipótese de levar o projeto às telonas. A resposta de Milos foi imediata, um claro e sonoro “sim”!


Milos Forman, 1970.

Anos se passaram, o livro já tinha sido enviado a Milos, contudo, o mesmo nunca respondera aos chamados de Kirk e Michael. Dez anos se passaram quando Michael resolveu mandar outra cópia do livro para Milos. E dessa vez o diretor respondeu! Milos havia aprovado o projeto! Michael foi correndo ao encontro de Milos e não perdeu a chance de perguntar: “Por que não me respondeu antes?” O diretor disse que nunca havia recebido cópia alguma do original mandada por Kirk e que aquela era a primeira versão da obra que ele havia posto os olhos.

Mais tarde, ambos descobriram que o livro que Kirk havia mandado para Milos havia ficado retido na alfândega e o diretor nunca recebera um aviso para ir lá buscá-lo. Se não fosse pela persistência da “família Douglas”, o filme jamais teria saído do papel, uma vez que Kirk havia comprado os direitos autorais da obra. Uma vez encontrado o diretor e tendo o roteiro em mãos, o próximo passo era achar um excelente produtor (além do próprio Michael) que tornasse o projeto viável. Foi assim que eles chegaram à Saul Zaentz. Os passos que se seguiram a partir desse encontro traçaram as linhas de como a produção seria realizada.


LONDON - 23 Feb 2003 - Saul Zaentz
(Photo by Dave Hogan/Getty Images)

Foi nesse momento que Kirk Douglas abandonou o barco, pois ele divergia e impunha muita resistência as idéias de Saul Zaentz. Entretanto, o próprio Kirk confessou depois que adorou o trabalho feito por Saul, Douglas e Forman, e considerou realizado seu sonho de épocas teatrais.

Um dos elementos que tomaram um considerável tempo da fase de pré-produção do filme foi a escolha dos atores da película. Nesse item foram magistralmente perfeitos nas escolhas. Todos os coadjuvantes são de um nível tão excepcional, que estão constantemente na mídia, como é o caso de Christopher Lloyd (De Volta Para o Futuro) e Danny DeVito (Los Angeles – Cidade Proibida).

O Início de um Sonho

A escolha do protagonista principal, definitivamente, não foi fácil. Encontrar uma pessoa que se adaptasse a genialidade do personagem Mac (Randle Patrick McMurphy) era uma missão quase impossível. Mac é um típico anti-herói, o rapaz que cometeu delitos, mas ao longo da projeção vai conquistando aos poucos a simpatia e a aprovação do público. Antes de Nicholson, dois outros atores haviam recebido convites de Milos: Marlon Brando e Gene Hackman.
Ambos recusaram. Foi então que Saul Zaentz citou o nome de Jack Nicholson, um jovem ator de qualidade que tinha a cara de Mac e ainda por cima, era barato. Jack fez alguns testes e logo Milos proclamou: “Esse é o meu homem!” Porém, os problemas não pararam por ai. Logo que as filmagens de “Um Estranho no Ninho” estavam prestes a começar, Nicholson informou à produção que deveria largar o projeto pois por força de contrato com outra produtora ele deveria filmar um outro filme naquela mesma época.


Jack Nicholson in One Flew Over the Cuckoo's Nest (1975)

A resposta de Forman veio de imediato: “Sem problemas, esperamos!” E por mais sete meses o filme foi adiado. Passado o período, Nicholson voltou e finalmente tiveram inicio as filmagens. “Um Estranho no Ninho” conta a história de Rundle Patrick McMurphy que, para não ficar na prisão, inventa uma suposta doença mental e acaba indo parar num hospital. Ele acaba tentando mudar o “ânimo” do local jogando cartas e basquete com seus quase inanimados companheiros. Entretanto, quase sempre Mac acaba por entrar em conflito com a enfermeira-chefe do local, Mildred Ratched (Louise Fletcher).

As filmagens da película são praticamente um capítulo à parte na história da mesma. Saul Zaentz e Michael Douglas visitaram quatro hospitais diferentes até que encontraram um onde pudessem rodar o filme. O filme é praticamente todo gravado dentro de um hospital, só há uma cena que não é filmada dentro do hospital.


Sydney Lassick (Charlie Cheswick);Jack Nicholson (McMurphy);Will Sampson (Chief)

A história dessa tal cena externa é cômica, bem como toda seqüência. Forman sempre foi muito relutante na hora de selecionar as seqüências que entrariam no filme e as que eventualmente ficariam de fora. Inicialmente, essa cena não era prevista para entrar na edição final do filme, mas após Douglas, Zaentz e todo elenco praticamente implorar, ele resolveu incluí-la. E acredite, a forma como ela foi gravada é extremamente real. Você vê aquele bando dentro de uma lancha de porte médio. Até ai tudo bem se não fosse pelo fato que, como explicado no making of do filme, apenas Jack Nicholson não estava enjoado. É muito mais engraçado ver a cena sabendo que aquelas caras de nojo são verdadeiras.


One Flew Over the Cuckoo's Nest

Todo o filme foi filmado na seqüência que você vê na produção (o que é uma coisa rara de se ver), com exceção da cena externa que, devido a relutância de Milos, foi filmada por último. Praticamente dias antes das filmagens terem inicio, os atores já se encontravam no hospital, literalmente morando lá, aprendendo a se comportarem como pacientes. Danny DeVito (que interpreta Martini) e outros , chegaram a freqüentar sessões de terapia de grupo por horas, dias a fio.

As cenas de terapia em grupo representam algumas das melhores seqüências do filme. É interessantíssimo saber que várias tomadas dessas terapias foram feitas sem os atores saberem que estavam sendo filmados. Milos sempre desejara o máximo de veracidade das sessões de terapia por parte dos atores.


"Big Nurse" Holly Jeanne intimidates her patients in a group therapy session in this scene from the Huntington Beach Playhouse production of "One Flew Over the Cuckoo's Nest."

Jack Nicholson em plena forma. O vigor e a energia que o ator tinha eram mais do que necessários para que um personagem como Randle Patrick McMurphy se tornasse real. E Jack soube dar como ninguém vida ao personagem.

Ele sempre deixava os atores do filme mais “soltos”, por suas piadas “fora do roteiro” que ele inseria de ultima hora (e que entravam nas seqüências). Suas cenas em “Um Estranho no Ninho” são memoráveis e já entraram há muito para a história do cinema.

Umas das relações mais legais do filme também (além da principal – Mildred vs McMurphy) é entre Mac e o “chefe”, o grande e mudo índio. Desde as primeiras seqüências na quadra de basquetebol até momentos antes de Mac tomar “um choque”, a relação entre os dois é muito divertida e a prova disso são as risadas que as seqüências geram ao público.


Mac and Chief

Will Sampson, que interpreta o “chefe”, foi uma peça difícil de ser encontrada para que se encaixasse ao elenco de “One Flew Over The Cuckoo’s Nest”. Quando as filmagens estavam prestes a começar, os produtores ainda estavam a procura de alguém que se encaixasse perfeitamente no papel e que tivesse as mesmas características que o índio do livro apresentava. Foi ai que Zaentz ligou pra Michael Douglas e disse que tinha achado o homem pelo qual eles estavam procurando. Não era uma escolha fácil. Não é em qualquer esquina que você encontra um ator estreante como Will Sampson, dando fidelidade ao personagem do livro. Uma “peça” muito difícil de encontrar-se, visto que a maioria dos descendentes indígenas são baixos e ele era monstruosamente alto. Infelizmente Sampson veio a falecer em 3 de junho de 1987, doze anos após a estréia da película, por complicações cardíacas.

Mildred Ratched

Um dos personagens que mais fazem frente a Mac em termos de qualidade neste filme é o da atriz Louise Fletcher. Inicialmente a idéia para a personagem que faria a enfermeira daquela ala do hospital seria a imagem da “encarnação do mal” em pessoa. Entretanto, ao passo que as filmagens começaram, as coisas mudaram totalmente de rumo.


Mildred Ratched

Mildred não poderia ser vista como a “encarnação do mal”, até porque Louise Fletcher era bonita demais para demonstrar tendências tão maquiavélicas. Então a personagem foi reestruturada. Mildred não mais seria uma personagem 100% má; ela ainda faria de certa forma mal aos internos, entretanto, seu jeito sempre suave, tênue e não-agressivo balancearia a personagem e daria um charme todo pessoal à enfermeira Ratched.

A enfermeira acredita que está se esforçando para apenas fazer e praticar o bem dos pacientes, entretanto, muitas vezes o oposto é o que ocorre. Não há quem não se encante com a beleza de Mildred a primeira vista. Aprende-se a odiá-la. Belíssimo, exímio trabalho de Louise Fletcher.

Uma curiosidade por parte da atriz é que ela sempre reclamava que os outros atores sempre estavam se divertindo com seus personagens, falando besteiras, enfim, atuando como os loucos que deveriam parecer mesmos; enquanto isso, a personagem de Louise era sempre de postura rígida, forte e marcante. Até que um dia Louise não agüentou. Ela reclamava tanto que não podia se divertir com seu personagem como os outros faziam que simplesmente resolveu tirar a roupa no meio dos sets de filmagem.

O Sonho Realizado

As premiações consagradoras que o filme ganhou deram um toque especial ao sonho realizado de Kirk e Michael Douglas. Entre as premiações que “Um Estranho no Ninho” levou destacamos: Todos os Globos de Ouro que disputou; 6 BAFTA’s, incluindo: ator, atriz, direção, filme, edição e ator coadjuvante; 5 Oscar, incluindo: ator, atriz, diretor, filme e roteiro adaptado.


Producer Michael Douglas, director Milos Forman, actress Louise Fletcher, actor Jack Nicholson, and producer Saul Zaentz celebrate with their One Flew Over the Cuckoo's Nest Oscars (photo by Frank Edwards)

Ken Kesey

Ken Elton Kesey (nascido em La Junta, Colorado, 1935), com a publicação de seu livro “Um estranho no ninho”, passou a ser considerado pela crítica literária do início dos anos 60 como um dos mais promissores talentos surgidos da segunda leva da Beat Generation (movimento surgido por volta dos anos 40, que teve em Jack Kerouac, Allen Ginsberg e William Burroughs alguns de seus pioneiros e maiores expoentes).


Ken Kesey

Ele está situado em um fino limiar que existiu entre a Lost Generation dos anos 40/50 e os Hippies dos anos 60 (estes últimos tendo em Ken um grande referencial para sua filosofia “drop out”). Quem já leu o livro (ou assistiu ao filme), sabe que Kesey era um intelectual que demonstrava largo conhecimento sobre a sociedade em que vivia e os valores rígidos que essa sociedade prezava. Após ter conquistado inúmeros prêmios literários, além do respeito de seus pares e da imprensa especializada, tudo sinalizava a garantia de um futuro financeiro estável e tranqüilo. O que mais poderia querer um sujeito nascido em La Junta? Mas Kesey pretendia mais, algo diferente de um futuro financeiro garantido e tranqüilo, queria ir “além”, literalmente.

Kesey, como boa parte da elite artístico-cultural de meados dos anos 50, vinha experimentando entorpecentes e drogas alucinógenas variadas, aplicando seus efeitos no trabalho que produzia e na vida que levava. Aliás, Kesey escreveu “Um Estranho no Ninho” no período em que foi voluntário no programa governamental secretamente financiado pela CIA, que estudava o efeito de drogas psicoativas na busca de uma arma química (a grande piada que Kesey contava era testemunhar solenemente que o melhor ácido que tomou em sua vida foi pago pelo Governo dos EUA).

O “american way of life”, que era exportado para o mundo inteiro por meio do cinema, não era a realidade que vivenciava parte daquela geração que não encontrava todas as respostas às suas dúvidas materializadas em liqüidificadores, lavadoras de louça automáticos e inúmeros outros gadgets eletroeletrônicos então recém-inventados


President Eisenhower

Como primeiro passo para fugir de toda a parafernália urbana que o cercava, Ken juntou sua grana e comprou um refúgio nas montanhas de São Francisco, numa localidade chamada La Honda, e ali começa a viver os grandes dias de sua “viagem”. Com uma personalidade carismática, foi inevitável a atração que Ken exerceu sobre outras pessoas também cansadas das respostas de conveniência do status quo vigente e de suas vidas café-com-leite-gravata-trabalho-casa-pijama-igreja-aos-domingos. Apareceram primeiro alguns velhos conhecidos que haviam cursado faculdade em Stanford com Ken, depois vieram novos membros para o bando que acabou se tornando conhecido como Merry Pranksters (algo que em tradução livre, sugere termos dúbios como “Festivos Gozadores” ou “Alegres Brincalhões”).


Kesey at La Honda in 1965/66

Em La Honda, eles formaram a pioneira comunidade alternativa dos anos 60 e passaram os dois primeiros anos daquela década em longas terapias alucinógenas, para se depurarem de “anos de realidade”, ouvindo as “palestras” de Ken, curtindo o Soul Jazz de Jimmy Smith e Horace Silver, e criando os mais variados e exóticos tipos de arte: desenhos, máscaras, chapéus, quadros, cartazes, poemas, gravações de ruídos, jogos de palavras e luzes.

Além das festas que ficariam famosas primeiro na região de La Honda, mas que logo começariam a atrair personalidades de San Francisco, Los Angeles e até de outros países. Nas festas, o prato principal era o ponche, que tinha uma receita pra lá de incomum: para cada litro de suco de laranja um quarto de um Ácido Lisérgico Dietilamida, ou Lucy in the Sky with Diamonds, ou LSD para os mais práticos.


Roy Sebern and friends at La Honda in 1965/66.

Havia também um happening que consistia na leitura de poemas e textos, mais tarde alguém improvisava um som e todos caíam na mais alucinada farra que a America já tinha visto. Essas festas foram o embrião para o que tempos depois seriam os Acid Tests, não é de estranhar que logo a fama de Kesey e de seus Pranksters tivesse rompido barreiras geográficas e chegado aos ouvidos da galera de Nova York, nominalmente Timothy Leary, considerado por muitos o "pai do Movimento Psicodélico”.


Ken Kesey, who was at the center of the psychedelic counterculture
on the West Coast, speaks with his band of Merry Pranksters
San Francisco, 1966.

Leary, contudo, médico que era, levava uma vida extremamente reclusa em sua mansão, com seu séquito fazendo da experiência com o ácido algo que, num primeiro momento, era revestido de uma solenidade quase acadêmica, ficou sabendo que havia um alucinado na Califórnia que vinha usando e abusando do LSD como instrumento de exploração do subconsciente, mas tudo num nível que desafiava qualquer seriedade, o que o levou a pensar em Kesey e seus palhaços elétricos mais como um obstáculo em sua séria missão - convencer a mídia e os políticos de que o LSD era um medicamento que revolucionaria positivamente as relações humanas naquela década e que todos deveriam ter o direito de tomá-lo, após alguns prévios exames.


Timothy Leary

Somente por volta de 1967, Leary passou a encarar o que vinha “fazendo” de maneira menos hermética, mais livre de concepções científicas, e começaria a dar festas também antológicas, bolando o slogan do que mais tarde viria a se tornar o movimento psicodélico: “turn on, tune in & drop out” (algo como “se liga, entre na onda e caia fora [do sistema]”).

Em 1964, Kesey, mesmo vivendo sua rotina incomum, consegue retirar lógica sabe-se lá de onde, escreve e publica “Sometimes a Great Notion”, seu segundo romance, que quando lançado não alcança o êxito editorial de “One Flew´s Over a Cuckoo’s Nest”, mas garante nova remessa de verdinhas para seu bolso e combustível para mais uns quatro anos de “viagem”. Aliás, nesse mesmo ano, rolava a Feira Mundial em Nova York e alguém dos Pranksters sugere que eles se mandem para lá, dada a enorme audiência do evento, seria o local ideal para que eles mostrassem o que andavam urdindo em La Honda. Todos sabiam que seria um enorme fiasco um "stand” apresentando as benesses que o consumo do LSD traria para as pessoas, enquanto ao lado era apresentado ao mundo, inovações tecnológicas, como a “meia calça sem costuras”.

Conta-se que Kesey caiu na gargalhada, e como farsa era a sua praia, topou de imediato. Fazia algum tempo que ele queria cair na estrada, refazendo a grande trip de Jack Kerouac nos anos 40 (retratada no clássico “On The Road”). Compra então um ônibus escolar, instalam todo tipo de aparelhagem sonora e uma câmera 16 mm para filmarem tudo que se passaria na epopéia, sapecam uma pintura bem “discreta” na lataria e colocam naquele espaço para indicação do destino: “Furthur” (gíria que funde na mesma palavra “além” e “futuro”).


Furthur

Mas quem os levaria? Não poderia ser qualquer um. Neal Cassady andava zanzando pelas festas de Kesey, quem melhor que ele, o grande inspirador de Kerouac em On The Road, para guiar os Pranksters em sua odisséia, como se fora um Ulisses moderno? Estava decidido, Cassady “Speed limit” seria o driver da segunda mais importante viagem da história contemporânea dos EUA. Uma viagem dentro da “viagem”.


Neal Cassady (right) with Timothy Leary in 1964.

Mas além da grande afronta ao establishment sugerida pelos Pranksters, Kesey tinha vários outros planos para a trip. Pretendia além de filmar tudo e lançar para a posteridade um documentário sobre a jornada, faturando um pouco, criar eventos pelo percurso. "Que tal se montassemos uma festa itinerante, onde todos que quisessem tivessem acesso à experiência com a mágica?”, propôs Kesey. “Yeah!” Foi o consenso geral. Kesey então, se lembrando que havia sido o governo quem financiara suas primeiras alucinações, sacou: “o Tio Sam vai dar ácido pra quem quiser!” A partir dali criou o visual que se tornaria sua marca registrada, o Tio Sam Bozo e partiram de La Honda.


Acid test 1960's, with Kesey and Babbs

É claro que a America não passaria no “teste”. Essa “viagem” aliás, levaria o país a novo patamar de piração e paranóia. Enquanto as farmácias norte-americanas ainda vendiam gomalina apenas com receita médica e os pastores do cinturão bíblico tentavam fazer crer que os Beatles eram mensageiros do demônio (e veja, isso era 1964, os Beatles ainda eram certinhos ), lá vinham aqueles palhaços multicoloridos, em um ônibus que fazia doer as vistas de tanta cor berrante, falando coisas indecifráveis como “expansão da mente” e distribuindo um “suco de laranja elétrico”, num tal de teste do ácido.


Futhur

O que seria aquilo? Depois de um tempo, claro, a polícia foi comunicada pelas agências de inteligência sobre o que era o LSD e quais efeitos a droga causava. Passou então a seguir os Pranksters, a onde quer que fossem, tentando antecipar onde seriam os testes do ácido, mas na verdade sem poder proibir o seu acontecimento, já que o LSD ainda não era droga ilegal no país. Em meados de 1965, os testes do ácido já haviam se tornado eventos ultra-cult, sendo quase um selo cool para aqueles que já tivessem participado de um.

Por essa época os eventos já tinham uma estrutura completamente diferente da proposta inicial, transformaram-se em eventos semi-profissionais, com locais alugados para abrigar os happenings, luzes estroboscópicas sendo instaladas para otimização dos efeitos alucinógenos, e uma banda que foi praticamente criada para tocar nas “sessões de magia elétrica”, os Warlocks, que logo depois adotariam outro nome, “Grateaful Dead”, iniciando a cena “acid rock” de San Francisco, que contaria ainda com Moby Grape, Jefferson Airplane e Janis Joplin e o Big Brother & Holding Company, só para citar alguns dos mais famosos.


Music was invariably provided by the Grateful Dead,
show performing in Palo Alto as the Warlocks in 1965.

Kesey, sempre no “comando da anarquia”, foi o apresentador oficial do ácido para mais gente que qualquer outro ícone dos anos 60, incluindo o próprio Timothy Leary, que num primeiro momento ficou mais restrito à elite e a círculos mais discretos, como os ícones do jazz John Coltrane e Thelonious Monk.

Mas muitos do meio artístico encontraram mais simpatia no seu discurso “anti-discurso” do que no proselitismo acadêmico de Leary. Bob Dylan, Joan Baez, Keith Richards, Brian Jones (com quem Kesey conversou demoradamente sobre pintura e as possibilidades da cor negra - paint it black) e artistas de todas as vertentes, além da galera “comum” que comparecia às toneladas nos eventos, tiveram sua primeira experiência com LSD num Acid Test. Os Tests chegaram a um nível alarmante de popularidade entre os formadores de opinião da costa oeste dos EUA, sendo aqueles primeiros eventos o esboço de um movimento que pouco tempo depois seria rotulado de Psicodélico e que mais tarde seria agregado a algo muito mais abrangente chamado “Contracultura”, uma alternativa à cultura dos Ed Sullivans, American Bandstands e Life Magazines.


Brian Jones and Bob Dylan

Kesey foi uma das principais centelhas que acenderam o pavio para a explosão revolucionária do anos 60. O cenário já estava sendo montado desde os Beats nos anos 40/50, mas só então alcançou o ponto de fervura, encontrando grande repercussão entre os jovens, que sob a constante ameaça de destruição nuclear supostamente iminente, queriam mais é viver intensamente o “hoje”, já que o “amanhã” era duvidoso. Os questionamentos aos valores vigentes dos pioneiros Beatnicks já haviam entrado na corrente sanguínea-sensorial da maioria daqueles jovens, igualmente reprimidos e sem perspectiva de um futuro. Mas só partiram da tese para a prática; só então se imbuíram de coragem para contestar ordens como “Tio Sam precisa de você, vá morrer no Vietnã pelo seu país!”; só então viram que tinham poder de fazer alguma coisa, pelo menos por si mesmos. Em algum tempo, toda uma geração de baby boomers estava largando parentela e empregos na sapataria da esquina para viajar milhares de milhas pelo país. Tudo, literalmente tudo, seria questionado e virado ao avesso, quando não destruído, assuntos então tabu, como sexualidade e a política externa do governo passariam a ser matéria de discussões inflamadas em qualquer esquina, desde o Wisconsin até Little Rock, no Arkansas, onde um certo Bill Clinton fumava mas não tragava mariajoana.

Mariajoana seria, aliás, o motivo que a polícia encontraria para prender Kesey que voltava de um exílio no México. Como quase tudo que cerca essa história, é surrealista que um sujeito que tomava LSD no café-da-manhã-almoço-jantar tenha sido preso por porte de uma bituca de capim, mas eram os anos 60 e nada parecia fazer sentido.


Easy Rider

Kesey foi preso, mas quase todos os coelhos já tinham saído de sua cartola, como se das rodas daquele ônibus partissem descargas elétricas que chacoalhavam todos os nervos de uma America que se recusava a acordar, mesmo à beira da convulsão social. Movimento estudantil e de manifestação contra a Guerra do Vietnã, luta pelos direitos civis, revolução sexual, rock, soul music, Haight-Ashbury, Verão do amor, Pet Sounds, Sgt. Pepper´s, Street Fighting Man, Hendrix, Aretha, Doors, Easy Rider, Woodstock, Kent State, Charles Manson, tudo amarrado, tudo sem controle, tudo explodindo na cara do Tio Sam. O Governo então, proíbe o uso, fabricação e distribuição de LSD no país (mantendo secretamente a pesquisa do psicoativo). Dizia a esquerda que a direita conclamava: “Deus salve a America, vamos matar mais alguns negros e democratas, tornar o alistamento obrigatório e mandar essa cambada de hippies ter alucinações no verde explosivo das florestas do sudeste asiático”. Como os EUA são o centro do capitalismo, por volta de 1968, o Movimento Psicodélico e a própria Contracultura já começavam a ser assimilados pela mainstream e a comercialização do hip (gíria que designava tudo aquilo que era “legal”, “moderno”, “atual” e que viria a gerar outra gíria, o hippie) seria a resposta do stablishment a tanta revolução e o começo do fim de uma era em que se ousou demais.

Depois que saiu da prisão, Kesey se mudou para uma fazenda no Oregon para viver com sua família. Só publicou seu terceiro livro de ficção, "Sailor Song", em 1992. Mas ele nunca sossegou totalmente. Disse, por exemplo, no seu site pessoal que vira e mexe sentia uma coceira de fazer "algo estranho".


Ken Kesey on his Oregon farm, November 1979

Kesey faleceu de câncer em 2001.

Page of notes on "One Flew Over the Cuckoo’s Nest".

Fontes: Guilherme Rodrigues; "O Teste do Ácido do Refresco Elétrico", de Tom Wolfe (publicado no Brasil pela Rocco). “Spit In The Ocean”, vols. 1 a 7. "Beat Generation", Márcio Ribeiro – Whiplash; Camilo Rocha e Tony Pugliese

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