“Todos
falam maravilhas de vocês” – Jô Soares
17/05/2008
São
20 pessoas que fazem de tudo, atuam, trabalham no bar, servem
o público, desmontam o cenário e limpam o espaço.
Cada espetáculo tem um cardápio. Ao comprar
ingresso para o espetáculo, o público também
pode reservar a participação no jantar. Em A
Mulher do Trem, o prato é Vaca Atolada com Mandioca,
típico da região do Vale do Paraíba,
e a sobremesa é um bem-casado. Em Ferro em Brasa,
o cardápio é o Frango à Ferro em Brasa,
um cozido de frango, lingüiça, costelinha de porco
e legumes variados: milho, batata, mandioquinha, couve repolho,
banana e abóbora. Na sobremesa, doces portugueses.
Em Deus Sabia de Tudo, o cardápio é
composto por salada de frango defumado, com abacaxi, milho
e molho a base de iogurte. Para a sobremesa, salada de frutas
com chantilly.
Espaço
dos Fofos
No repertório
são quatro espetáculos as sextas, sábados
e domingos no Espaço dos Fofos:
Deus
sabia de tudo e não fez nada
A mulher do trem
Ferro em brasa
Assombrações do Recife Velho
O Espaço
dos Fofos, a sede do grupo, fica na Bela Vista, no centro
de São Paulo, na rua Adoniran Barbosa, numa travessa
da rua Jaceguai em frente aos teatros Oficina (de José
Celso Martinez Corrêa) e Imprensa (do Centro Cultural
grupo Sílvio Santos, dirigido por Cíntia Abravanel).
É também próximo à rua Rui Barbosa,
onde está o Teatro Sérgio Cardoso e o Balé
da Cidade de São Paulo, tradicionais referências
culturais da cidade. Tudo é levado em conta na hora
de correr atrás do espaço.
“Além
de um espaço que atendesse às nossas necessidades
de tamanho e verba, queríamos um lugar em uma região
em que a gente pudesse colaborar com algo. Essa área
do centro quer ser revitalizada, clama por isso”, explica
Carol Badra, integrante do grupo e também uma das administradoras
do espaço.
A atriz
Kátia Daher explica que eles procuravam um imóvel
que pudesse fugir do palco italiano, ou seja, algo para transformar
a cada nova montagem. E encontraram, mas só conseguiram
iniciar o projeto na casa nova porque o grupo foi contemplado
pela Lei do Fomento. "Em média gastamos 6 mil
reais só com a manutenção do local".
Espaço
dos Fofos
Com consultoria
artística de Leopoldo Pacheco e projeto do arquiteto
Fernando Milliet Roque, além da sala de espetáculo
e camarins, a sede abriga foyeur, cafeteria, espaço
anexo (que também pode ser usado para apresentações)
e ateliê de cenografia e figurino.
Fernando
Milliet tinha como linha mestra não descaracterizar
e preservar a memória histórica do espaço.
A proposta era projetar um espaço multiuso que permitisse
experimentar as diversas linguagens de pesquisa do grupo.
“No andar de baixo, o espaço para espetáculos,
assim como o foyer, o atelier de cenografia e figurino e o
café. Entre o foyer e a sala de espetáculo estão
os toaletes e a bilheteria. Camarins, parte técnica
e administração ficam no mezanino”, informa
o arquiteto, explicando que o ambiente é todo descortinado
para propiciar interação e o convívio
entre as pessoas.
Os integrantes
dos Fofos Encenam também se envolveram na decoração.
Carol Badra, por exemplo, encontrou pastilhas antigas no galpão
- que já foi usado como depósito desse tipo
de material -, e resolveu usá-las para a confecção
das placas de sinalização do Espaço dos
Fofos.
Espaço
dos Fofos
O ator
Leopoldo Pacheco começou a trabalhar com Os Fofos Encenam
quando atuou em Deus Sabia de Tudo. Depois, passou a assinar
a direção artística das peças
do grupo – cenário, figurino e maquiagem, junto
com Carol Badra e Marcelo Andrade. Na sede do grupo, ele –
que já ganhou vários prêmios ao longo
de sua carreira em cenografia, figurino e maquiagem - assina
a consultoria artística. Foi dele a idéia da
criação do ateliê (de cenografia, figurino
e maquiagem) e do barzinho.
As pesquisas
do grupo se dão por meio de oficinas, cada uma coordenada
por um profissional da cia. Fernando Neves, diretor de Ferro
em Brasa e A Mulher do Trem, é o responsável
pelas oficinas de circo-teatro. Fernando Esteves, pianista
dos espetáculos do grupo que têm música
ao vivo, coordena a pesquisa sobre musicalização.
Espaço
dos Fofos
Luciana
Lyra, autora de uma tese de mestrado da Unicamp sobre o corpo
do ator em cena, é quem ministra as oficinas sobre
corpo. Newton Moreno, diretor e dramaturgo de Deus Sabia
de Tudo e Assombrações do Recife Velho,
encabeça uma pesquisa sobre as memória em cena
de famílias pernambucanas.
História
do Grupo
A formação
de Os Fofos Encenam aconteceu em 1992, no curso de Artes Cênicas
da Unicamp, com atividades de pesquisa direcionadas ao humor
e as raízes do cômico dentro da grade curricular
da faculdade. No ano 2000, Os Fofos se reencontraram para
a montagem de Deus Sabia de Tudo e Não Fez Nada,
de Newton Moreno, espetáculo que marcou a transformação
do grupo em companhia profissional de teatro.
Deus
Sabia de Tudo e Não fez Nada trocou a apresentação
do palco convencional pelo camarim. Devido à temática
e ao envolvimento com o público, foi encenada em horário
pouco habitual para um espetáculo: meia-noite.
Em 2003
realizaram a montagem da comédia A Mulher do Trem,
espetáculo vencedor do Prêmio Shell de Melhor
Figurino.
Já
em 2005 encenaram Assombrações do Recife
Velho, baseado no livro homônimo de Gilberto Freyre.
Esse espetáculo ganhou os Prêmios Qualidade Brasil
de Melhor Espetáculo, Diretor e Ator (Fernando Neves)
em Comédia e recebeu três indicações
ao Prêmio Shell em 2005, Melhor Diretor, Iluminação
e Música.
Assombrações
do Recife Velho - Museu da Língua Portuguesa, SP
Em 2006
encenaram o primeiro drama de sua carreira: Ferro em Brasa.
Contemplado com o Prêmio Myriam Muniz - FUNARTE - Petrobrás,
Ferro em Brasa estreou no Teatro Julia Bergmann,
na Barra Funda e cumpriu temporada de 3 meses de sucesso.
Recebeu ainda indicação ao Prêmio Shell
na Categoria Especial pela pesquisa em Circo-Teatro e Melhor
Atriz, com Cris Rocha. Conquistou em 2007 o patrocínio
do Programa Municipal de Fomento ao Teatro para Cidade de
São Paulo. Ganhou ainda o incentivo do Projeto de Apoio
a Cultura - PAC - da Secretaria do Estado da Cultura.
As
peças
Deus sabia de tudo e não fez nada
Seis histórias
repletas de humor. As cenas mostram, segundo Newton Moreno,
“um casal de velhinhos que discute o direito de expressar
seu afeto em público; um locutor de rádio narra
a história de Valdeci, morador do morro vítima
da homofobia apenas por 'desejar' quem não devia; a
história de um travesti que decide vingar a violência
e a intolerância para com a sua classe com as próprias
mãos; um paciente terminal de AIDS negocia um último
beijo com enfermeira e com a platéia; um rapaz realiza
seu ajuste de contas com a hipocrisia da Igreja Católica
dentro do banheiro público. Por fim, na esquete que
costura o espetáculo, um casal tenta, por anos a fio,
mas não consegue se beijar.”
Deus sabia
de tudo e não fez Nada
Foto: Guto Muniz / Divulgação
A
Mulher do Trem
Comédia
francesa escrita no século 19, A Mulher do Trem
foi montada pela primeira vez no Brasil em 1920, no Circo
Colombo, mantido pelo avô do ator Fernando Neves, que
assina a direção da montagem atual.
A Mulher
do Trem
É
uma comédia de estrutura tradicional. A história
se passa no Rio de Janeiro, no dia do casamento das personagens
centrais. Por considerar a sogra uma ditadora, o noivo, mais
velho que sua noiva, aconselha o sogro a ser mais enérgico
com a mulher. Aproveita e conta também um caso insólito
que teve com uma mulher, há muitos anos, no trem entre
Rio e São Paulo. A
sogra está amoitada espreitando a conversa. Furiosa
com o conselho que o genro dá ao marido e não
querendo perder a autoridade que dispõe na família,
planeja a vingança. Após a cerimônia,
revela ser ela a tal mulher do trem, e diz também que
tivera uma filha fruto daquela relação, sua
única filha.
A Mulher
do Trem
A intenção
foi fazer desfilar pelo texto todos os personagens típicos
da dramaturgia da época. “Nosso interesse em
resgatar essa dramaturgia é estabelecer uma ligação
entre aquela época de expressão tão autêntica
e nosso momento teatral, com as informações
de que dispomos hoje”.
Fernando
Esteves é o pianista e Leopoldo Pacheco assina o cenário
e o figurino do espetáculo.
Assombrações
do Recife Velho
Da proximidade
com o ator vem a história contada ao pé do ouvido,
o olhar trocado que transparece o que vai por dentro, os cheiros
e os sons que embolam os sentidos e introjetam o espectador
na atmosfera de Assombrações do Recife Velho,
livre adaptação da obra do sociólogo
Gilberto Freyre.
Assombrações
do Recife Velho
Foto: Jorge Etecheber / Divulgação
A montagem,
com texto e direção de Newton Moreno e produção
de Leopoldo De Leo, mostra personagens populares narrando
histórias de fantasmas que assombravam a região
nordestina. Figuras como o Lobisomem, o Papa-figo e o Boca-de-Ouro,
são evocados por contadores que, numa atmosfera recheada
de humor e mistério, contribuem para a busca do entendimento
da formação do povo brasileiro e sua relação
com entes sobrenaturais.
Ferro
em Brasa
Ferro
em Brasa conta a história da aldeã Judith
que, às vésperas do seu casamento com o fidalgo
Júlio, percebe que ele não a ama mais. Júlio
acaba se envolvendo com a mãe de Judith, Margarida.
Ao flagrar a mulher ao lado do futuro genro, João,
o marido traído de Margarida, decide matar o casal
de maneira tão cruel que sua jovem filha Judith enlouquece.
O cenário da trama é uma aldeia portuguesa cujos
personagens, de tão peculiares, oferecem uma certa
dose de humor para suavizar o tom dramático empregado
pelo texto, principalmente nos diálogos dos protagonistas.
Ferro em
Brasa
O quarto
espetáculo da cia dá continuidade à pesquisa
de circo-teatro realizada pelo grupo e iniciada pelo diretor
Fernando Neves em A Mulher do Trem. Fernando Neves,
que é membro de uma típica família circense,
buscou uma interpretação naturalista, que salienta
os silêncios. "Recolhi do baú de minha família
uma série de textos. Grande parte deles não
chegou a ser publicada. Encontrei ali um rico repertório,
pois os autores circenses sabiam como construir uma dramaturgia
sólida para conduzir a trama e manter atenta a platéia
que ia ao circo em busca de boa diversão", explica
Neves.
Fofos
Encenam: Alex Gruli (ator), Carlos Ataíde (ator), Carol
Badra (atriz/ produtora / figurinista), Cris Rocha (atriz),
Eduardo Reyes (ator / produtor / iluminador / designer gráfico),
Eneida De Souza (contra regra em Assombrações
do Recife Velho / assistente de produção –
Leo De Leo), Erica Montanheiro (atriz), Fernando Esteves (diretor
musical e pianista), Fernando Neves (ator e diretor), Francisco
Marques (produtor), José Roberto Jardim (ator), Kátia
Daher (atriz / produtora), Leopoldo De Leo (produtor em Assombrações
do Recife Velho e Deus Sabia de Tudo e Não Fez Nada),
Leopoldo Pacheco (cenógrafo / figurinista / consultor
artístico / maquiador), Luciana Lyra (atriz / preparadora
corporal), Marcelo Andrade (ator / cenógrafo / cenotécnico),
Maria Stella Tobar (atriz), Newton Moreno (diretor / dramaturgo),
Paulo de Pontes (ator), Silvia Poggetti (atriz), Viviane Madureira
(preparadora corporal) e Zé Valdir (contra regra /
diretor de palco / operador de luz).
Espaço
dos Fofos – Rua Adoniran Barbosa, 151, Bela Vista.
Telefone para informações - (11) 3101.6640.
Telefone para reserva de ingressos - (11) 3842.5522.
Fontes:
Programa do Jô (Rede Globo); Nanda Rovere; Igor Galant;
Guia Teatral e Fernanda Teixeira (Arte Plural)