Pablo Picasso: Dom Quixote (1955)

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Para o escritor espanhol Oitocentista Angel Ganivet: “não existe na arte espanhola nada que sobrepuje o Quixote, e o Quixote não somente foi criado à maneira espanhola, mas é a nossa obra típica, ‘a obra’ por antonomásia, porque Cervantes não se contentou em ser ‘independente’: foi um conquistador, porque enquanto os demais conquistadores conquistavam países para a Espanha, ele conquistava a própria Espanha, encerrado numa prisão”. A magnitude do Dom Quixote de Cervantes foi reconhecida por Montesquieu nos seguintes termos: “O melhor livro dos espanhóis é aquele que zomba dos outros”. Na opinião do crítico literário norte-americano Kenneth Rexroth, Cervantes escreveu o maior livro de ficção que a cultura ocidental produziu.

Composto por 126 capítulos de sabedoria, amizade, enternecimento, encantamentos, loucuras e divertimento, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615.

A história é apresentada sob a forma de novela realista. A primeira parte da obra deixa a impressão de liberdade máxima, a segunda parte produz a sensação constante de nos encontrarmos encerrados em limites estreitos. Essa sensação é sentida mais intensamente quando confrontada com a primeira parte. Se anteriormente, a ironia era, sobretudo, uma expressão amarga da impossibilidade de dar realidade a um ideal, com a segunda parte nasce muito mais da confrontação das formas da imaginação com as da realidade. A primeira parte de Dom Quixote é tipicamente barroca. Cervantes dá a sua própria definição da obra: "orden desordenada (...) de manera que el arte, imitando à la Naturaleza, parece que allí la vence". O processo adoptado por Cervantes — a paródia — permite dar relevo aos contrastes, através da deformação grotesca, pela deslocação do patético para o burlesco, fazendo com que o burlesco apague momentaneamente a emoção, estabelecendo um entrelaçado espontâneo de picaresco, de burlesco e de emoção. O conflito surge do confronto entre o passado e o presente, o ideal e o real e o ideal e o social.

Síntese da Obra

A ação principal do romance gira em torno das três incursões feitas pelo protagonista e por seu fiel amigo e companheiro, Sancho Pança, que tem um perfil mais realista, por terras de La Mancha, de Aragão e de Catalunha. O personagem principal da obra é um pequeno fidalgo castelhano que perdeu a razão pela leitura assídua dos romances de cavalaria e pretende imitar seus heróis prediletos.

Envolve-se em uma série de aventuras, mas suas fantasias são sempre desmentidas pela dura realidade. O efeito é altamente humorístico.

O verdadeiro nome do pobre fidalgo é Alonso Quijano (Quixano), chamado pelos vizinhos de o Bom. Já de certa idade, entrega-se à leitura desses romances e sua loucura começa quando toma por realidades históricas indiscutíveis as façanhas dos personagens dos livros, as quais comenta com os amigos, o cura e o barbeiro do lugar. Quijano investe-se dos ideais cavalheirescos de amor, de paz e de justiça, e prepara-se para sair pelo mundo, em luta por tais valores e por viver o seu próprio romance de cavalaria. Escolhe um título para si mesmo, o de Don Quijote de la Mancha, apelida um cavalo velho e descarnado com o nome de Rocinante e elege como dama ideal de seus sentimentos uma simples camponesa a quem dá o nome de Dulcinea del Toboso, suposta dama de alta nobreza

Após um dia inteiro de caminhada sob o sol, depara com uma estalagem, que em sua mente perturbada se converte num castelo, onde pede para ser ordenado cavaleiro pelo estalajadeiro, que quase não consegue conter o riso. No dia seguinte, ao investir contra o grupo de comerciantes que vê como adversários, cai de rocinante e tem seu corpo moído por pauladas. Um conhecido da aldeia encontra o cavaleiro, entre gemidos e lamentos, e o conduz novamente à sua casa.Seguindo aos conselhos do Pe. Tomás e do barbeiro Nicolau, a ama e a sobrinha queimam seus livros e lacram a porta da biblioteca.

Enquanto todos acham que a estratégia da destruição dos livros havia sido um sucesso, Dom Quixote, pensando tratar-se de uma magia de algum cruel feiticeiro, resolve voltar à aventura, agora acompanhado do escudeiro Sancho Pança: um ingênuo e materialista lavrador, que aceita seguir o fidalgo pela promessa de uma ilha para governar.

As viagens se sucedem sob a alucinação de quem está vivendo no tempo da cavalaria. Em suas andanças, Dom Quixote encontra moinho de vento que confunde com gingantes. Arremete contra um dos moinhos, cujas pás, devido a um vento mais forte, lançam o cavaleiro para longe.O escudeiro socorre seu mestre. Dom Quixote não dando o braço a torcer, diz que o feiticeiro, ao notar que o cavaleiro estava vencendo, transformou os gigantes em moinhos.

Mas adiante confundindo dois rebanhos de carneiros com exército de inimigos, avança contra os animais e mais uma vez é surrado, pelos pastores; além de ser pisoteado pelas ovelhas. No chão em meio ao estrume dos animais, ferido e desdentado, recebe do escudeiro a alcunha de O Cavaleiro da Triste Figura.

No desejo de combater as injustiças do mundo e homenagear sua dama, o nobre e patético personagem segue viagem enfrentando situações supostamente perigosas e sempre radículas: imagina gigantes em rodas-d`águas; vê um cavaleiro de elmo dourado em um barbeiro; ajuda criminosos a fugirem, pensando estar libertando escravos. De suas desventuras, restam-lhes sempre os enganos, as surras, as pedradas e as pauladas.

À beira da estrada, o cavaleiro da triste figura e seu fiel escudeiro encontram abrigo e deparam com o Pe. Tomás e o barbeiro Nicolau, amigos da aldeia onde moram e que estão à sua procura. Os dois convencem Sancho a ajudá-los e acabam levando, mais uma vez, e agora enjaulado, Dom Quixote para casa. Lá, cansado doente e abatido pelos reveses e pelas surras que levara, o fidalgo sossega. Até receber a visita do bacharel Sansão, que traz consigo um livro narrando As estranha aventuras de Dom Quixote. Com a fama, o cavaleiro tem seu espírito aventureiro revigorado e mais uma vez, convencendo Sancho Pança a companhá-lo, parte para a estrada, ainda guiado pelo amor de Dulcinéia, e pelo desejo de vencer o perverso feiticeiro e, com ele, as injustiças do mundo.

Em Toboso, à procura de sua amada, Dom Quixote encontra três lavradoras montadas em asnos, carregando repolhos para o mercado. Sancho diz que se trata de Dulcinéia e suas damas de companhia, tentando convencer Dom Quixote. Ao se ajoelhar diante de sua sonhada dama, o cavaleiro leva uma repolhada na cabeça. Sancho diz se tratar de um anel de esmeralda enfeitiçado em repolho, e Dom Quixote guarda a “prenda” na bolsa, duvidoso, todavia satisfeito.

Disfarçado em cavaleiro dos Espelhos, o baixinho Sansão desafia Dom Quixote, no intuito de levá-lo para casa e, com isso, agradar a sobrinha do fidalgo. Mas, traído por seu cavalo, que prefere comer grama ao duelar, perde o combate. Adiante, Dom Quixote encontra um duque e uma duquesa que, por já terem lido o livro com suas aventuras, resolvem se divertir à custa da dupla: disfarçado em feiticeiro Merlin, o duque inventa um suposto cavalo mágico de madeira que levaria Dom Quixote até o perverso feiticeiro. Vendam o cavaleiro e o escudeiro sobre a “mágica montaria” e chacoalham o cavalinho de balanço, enquanto os dois pensam estar voando. Ao atear fogo no rabo do cavalo, recheados de fogos de artifício, o cavaleiro e o escudeiro são lançados à distância.

Seguindo viagem, com mais alguns arranhões, Dom Quixote e Sancho Pança ouvem um grito assustador, É o cavaleiro da lua cheia (na verdade, Sanção, agora mais bem preparado e decidido). Que desafia O cavaleiro da Triste Figura: quem perder o combate terá de pôr fim à sua vida de cavaleiro andante. Sanção vence, o fidalgo volta ao lar. No final da história, recuperando a razão, Dom Quixote renuncia aos romances de cavalaria e morre como um piedoso cristão.


Don Quixote Toledo. Romanelli.

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Literatura Comentada

I, pg. 28: [...] e que todos os Cavaleiros Andantes levaram as capangas cheias para o que desse e viesse, e que igualmente levaram camisas, e uma caixinha pequena cheia de ungüentos para curar as feridas que recebessem a não ser que tivessem por amigo algum sábio encantador o qual, quando estivessem feridos, lhes enviasse pelo ar, em alguma nuvem, uma donzela ou anão com alguma redoma cheia de tais poderes que, em provando de uma só gota, sarassem de suas feridas. Mas, se isto não fosse possível, todos os cavaleiros providenciavam que seus escudeiros trouxessem dinheiro, camisas e ungüentos.

Essa passagem nos sugere que a magnitude da missão dos Cavaleiros Andantes, o seu significado ético e moral, o desprendimento de suas ações, tudo isto implica num interesse pelo semelhante e, num certo sentido, no abandono de seus interesses pessoais. Assim sendo, o Cavaleiro Andante tinha uma expectativa, e talvez até uma crença na existência de uma rede de mobilização social ou mesmo mística, no sentido de ampará-lo. Nesse trecho, são mencionados como personagens passíveis de vir em seu auxílio, as donzelas e os anões, quer dizer, figuras míticas cuja função precípua seria atendê-lo e assessorá-lo. Na ausência, no entanto, desses seres sobrenaturais, espécie de "gênios da lâmpada" que pudessem socorrê-lo mediante um estalar de dedos, restava-lhe a presença terrena de um fiel escudeiro. Esse escudeiro, curiosamente, deveria portar pelo menos três objetos, dinheiro, camisas e ungüentos, ou seja, elementos simbólicos do poder de troca, do poder protetor e do poder curativo. Está implícito aqui que o escudeiro é um mero "portador" desses objetos, sendo o seu uso e significado de competência exclusiva do Cavaleiro Andante, que poderia solicitá-los na medida das suas necessidades. Essa questão comporta, porém, uma sutileza já que sendo o escudeiro um "espírito prático" que se contrapõe ao "mundo da lua" do seu amo, ele possui uma sabedoria material a respeito do uso dos objetos sob sua guarda que lhe confere, de fato, uma opinião de valor.

I, pg. 58: Neste meio tempo, Dom Quixote começou a persuadir um lavrador seu vizinho, homem de bem (se tal título se pode dar a um pobre), mas de pouca inteligência, a sair consigo como escudeiro: tanto lhe martelou, que o pobre coitado concordou. Dizia-lhe, entre outras coisas, que deveria ir de bom grado, pois poderia ocorrer de ter a sorte de ganhar uma ilha, da qual poderia ser governador.

O "aliciamento" de Sancho na empreitada fantasiosa de Dom Quixote nos é descrita como fruto de uma manobra astuciosa, impingida a um espírito simplório e de pouca inteligência que se deixa enganar pela isca sedutora de ser presenteado, ao final das aventuras, com a governança de uma ilha hipotética. Parece-me interessante indagarmo-nos a respeito do significado dessa oferta. Por que uma ilha? Se o intuito verdadeiro fosse conferir-lhe um poder genuíno, o natural seria a outorga de algum feudo e não a posse de uma ilha, prontamente associável à idéia de exílio ou desterro. Fica-se aqui com a falsa impressão de que Sancho embarcará enganado nas aventuras e não, como me parece ser o caso, que ambos necessitam um ao outro, para encontrar-se.

I, pg. 64: – E é verdade – respondeu Dom Quixote – e se me não queixo com a dor, é porque aos Cavaleiros Andantes não é dado lastimarem-se de feridas, ainda que por elas lhe saiam as tripas.

– Sendo assim, já estou calado – respondeu Sancho – mas sabe Deus se eu não achava melhor que Vossa Mercê se queixasse quando lhe doesse alguma coisa. De mim sei eu, que, em me doendo seja o que for, hei de por força berrar, se é que a tal regra, de não dar mostras de sentir, não chega também aos escudeiros do Cavaleiro Andante.

O próprio Dom Quixote, no entanto, encontra-se exilado num mundo irreal de sonhos e fabulações que o deixa alienado não só de seu grupo social e do momento histórico em que vive, mas também de seu próprio corpo, como explicitado nessa postura de "anestesia moral" que ele assume, colocando-se acima e a salvo das mazelas do corpo. Sancho, por seu turno, deixa explícito que, doendo-lhe alguma coisa ele não hesitaria em "botar a boca no trombone", reivindicando assim qualquer tipo de ajuda que pudesse lhe aliviar o sofrimento. Temos aqui dois sistemas de funcionamento: um estóico o outro hedonista; o mais significativo, porém, é que, permitindo-se sofrer a dor Sancho, em princípio, dava-se a chance de aprender com a experiência enquanto Dom Quixote negando a dor, anulava concomitantemente o valor da experiência, alçando-se a um universo idealista.

I, pg. 76: Das graciosas argumentações que ocorreram entre Dom Quixote e seu escudeiro Sancho Pança:

– Que bálsamo é este (Bálsamo de Ferrabraz) – disse Sancho Pança.

– É um bálsamo – respondeu Dom Quixote – do qual tenho a receita na memória, com o qual não precisam ter medo da morte, nem pensar em morrer por qualquer ferimento; e assim, quando o tiver preparado e o entregar a você, se constatar que me partiram o corpo ao meio em alguma batalha, como muitas vezes pode acontecer, recolha o pedaço do corpo que tenha caído ao solo (com muito cuidado, antes que o sangue fique gelado) e a coloques sobre a outra metade que tiver ficado na sela assegurando-se que estejam bem encaixadas; a seguir, me faça beber só dois tragos do referido bálsamo e verás que eu estarei mais saudável que uma maçã.

–Se isto for verdade – disse Sancho Pança – renuncio agora mesmo à governança da ilha prometida e nada mais quero em pagamento de meus muitos e bons serviços, do que receber de Vossa Mercê a receita desta bebida milagrosa, que tenho para mim se poderá vender a olhos fechados cada onça dela por mais de quatro vinténs. Não preciso mais para passar o resto da vida louvadamente e com todo o descanso. O que falta saber, é se não será muito custoso arranjá-la.

– Com menos de 3 reais se pode fazer camada e meia – respondeu Dom Quixote.

– Valha-me Deus! – replicou Sancho. E o que Vossa Mercê está esperando para me ensinar?

– Cala-te, amigo – respondeu Dom Quixote – que maiores segredos penso lhe ensinar e com maiores favores lhe obsequiar; mas , por enquanto, vamos nos curar, pois minha orelha está doendo mais do que eu gostaria.

O bálsamo de Ferrabraz, substância milagrosa cuja fórmula Dom Quixote guarda em sua "memória" tem não só o poder radical de afastar a morte, mas também o poder reparador de reconstituir o todo, mediante o rejunte de suas partes. As instruções que Sancho recebe para recolher a metade do corpo de Dom Quixote que possa ter caído ao solo, encaixando-a na outra metade que tenha permanecido na sela, acompanhadas por uma série de cuidados (presteza para impedir o congelamento do sangue e ministração de dois goles do bálsamo), ilustra com clareza a busca do Eu no Outro. De fato, a fórmula que Dom Quixote guarda na memória a respeito de sua unicidade, é algo teórico que para completar-se depende de um complemento prático a ser instrumentalizado por Sancho. Note-se que nessa divisão de funções do par humano, encontramos uma repetição da cisão artificial sofrida por um corpo que é dividido em dois por um golpe de espada. Mas, qual será o "bálsamo" que "cola" a parte fantasiosa da dupla (Dom Quixote) com a parte realista (Sancho Pança)? Socorrendo-nos aqui da psicanálise, diríamos que esse conectivo é o elemento subjacente a todas as teorias de intersubjetividade, que nos ensinam, em resumo, que a unidade funcional do ser humano é o par ou seja, o sujeito se constitui através do objeto, e o objeto através do sujeito.

Na parte final do diálogo, observamos uma inversão na colaboração mútua: Dom Quixote aplaca a cobiça de Sancho inflada pela perspectiva de enriquecer com o elixir milagroso, advertindo-o de que não se deslumbrasse com o ganho fácil pois assim, diz Dom Quixote, "maiores segredos poderei lhe ensinar".

A analogia entre o indivíduo reconciliado consigo mesmo, mediante a junção de suas partes, e a maçã, ilustra o cuidado simbólico com que Cervantes revestia as suas metáforas, se lembrarmos ser a maçã o fruto da liberdade e do conhecimento que garante a juventude, a renovação e o frescor eternos.

I, pg. 82: Cena da refeição com os cabreiros onde Dom Quixote, emocionado com o espírito democrático do grupo, convida Sancho a sentar-se a seu lado:

– Viva muitos anos – respondeu Sancho – mas devo dizer a Vossa Mercê que, se fosse para comer bem, eu preferia comer sozinho e de pé, do que sentado junto a um imperador. E para ser sincero ainda saboreio mais aquilo que como no meu cantinho sem cerimônias ou melindres, mesmo que não passe de pão e cebola, do que os perus de outras mesas com a obrigação de mastigar devagar, beber pouco, me limpar o tempo todo, não espirrar nem tossir quando me der vontade, nem fazer outras coisas que a solidão e a liberdade permitem. Portanto, meu senhor, as honras que Vossa Mercê quer me dar por ser eu ministro da cavalaria andante e seu escudeiro, troque-as por outras coisas que me sejam de melhor proveito pois, se bem que estas me agradem, dispenso-as desde já até ao fim do mundo.

Apesar disso hás de te sentar, porque Deus celebra quem se humilha.

[...] Dom Quixote: - Ditosa idade e afortunados séculos aqueles, a que os antigos puseram o nome de dourados, não porque nesses tempos o ouro (que nesta idade de ferro tanto se estima) se alcançasse sem fadiga alguma, mas sim porque então se ignoravam as palavras teu e meu.

Nesta cena, Dom Quixote emociona-se com a generosidade dos cabreiros que convidaram nossos heróis a compartilhar de sua frugal refeição e, num rompante de igualitarismo democrático, convida Sancho a sentar-se a seu lado. Sancho recusa o convite tirando da algibeira uma argumentação incontestável, segundo a qual não se pode abrir mão da sem-cerimônia natural em prol dos artificialismos da etiqueta à mesa. Sentindo-se acuado, Dom Quixote sai pela tangente prescrevendo a Sancho uma espécie de provérbio diagnóstico: "Apesar disso hás de te sentar porque Deus exalta quem se humilha"; sua finalidade é calar a boca do outro metendo-lhe goela abaixo uma frase feita.

É preciso entender que, numa tal circunstância, a dispensa do outro é só aparente já que fruto de uma argumentação que incomoda o sujeito em função de sua veracidade, obrigando-o a interromper temporariamente a fonte contestatória, tendo em mente ou uma digestão posterior do incômodo, ou uma ilusória eliminação arrogante do mesmo.

Atente-se que, ao final, Dom Quixote vale-se de uma bela imagem que não só exalta a ausência da possessividade, mas também implicitamente, a formação de um campo emocional comum entre quem oferece e quem recebe.

I, pg. 120: Na estalagem que Dom Quixote imaginava ser Castelo, Sancho explica à empregada o que é um "Cavaleiro de Aventuras":

Sancho: – Pois sabei, irmã, que cavaleiro de aventuras é um sujeito que num instante tanto pode ser desancado, quanto ser um imperador. Hoje é a criatura mais necessitada e desgraçada do mundo, amanhã terá duas ou três coisas reais para dar a seu escudeiro.

O "Cavaleiro de Aventuras" surge aqui como a versão sanchiana do Cavaleiro Andante. Sua versão, como sempre, é concisa e expressiva: "É um sujeito que, num instante, tanto pode ser desancado, quanto ser um imperador. Hoje é a criatura mais necessitada e desgraçada do mundo, amanhã terá duas ou três coisas reais para dar a seu escudeiro".

Sancho destaca de modo enfático, a instabilidade e a transitoriedade da condição do Cavaleiro Andante, preferindo assim caracterizá-lo melhor como um aventureiro, muito mais uma vítima do destino do que seu construtor. Ao puxar a sardinha para o seu lado, ele, no entanto, está também nos informando a respeito da sua consciência de que, na condição de beneficiado, sua situação também é instável e conjuntural.

Eu me surpreendi quando, pesquisando o significado do termo "escudeiro" descobri que o verbo escudeirar, na sua acepção transitiva tem não só um sentido de suportar uma provação, agüentar um rojão, enfrentar sem vacilo ou recuo uma empreitada, mas também a conotação de colocar de pé, endireitar, fixar firmemente numa dada posição. O escudeiro, portanto, antes de ser uma figura passiva, submissa e dependente do fado de seu senhor, é mais um colaborador ativo, uma instância vigorosa de apoio e solidariedade, tanto o co-criador de um destino quanto o co-responsável por sua fixação.

I, pg. 218: Sancho argumentando a impropriedade de Dom Quixote tomar as dores da Rainha Madasima, que fora injuriada pelo louco de Serra Morena ao descrevê-la como amancebada, optando por um princípio ético:

– Eu cá não o profiro nem o penso – respondeu Sancho – os outros lá, se avenham: e se os maus caldos mexerem, tais os bebam. Se foram amancebados ou não, contas são essas que já dariam a Deus; venho da minha vida, não sei mais nada. Que me importam as vidas alheias? Quem compra e mente na bolsa o sente; quanto mais, que eu vim ao mundo e nu me vejo: nem perco nem ganho. E também que o fossem, que me faz isso a mim? Muitas vezes não mais as vozes que as nozes; mas quem pode ter mão em línguas de praguentos, se nem Cristo se livrou delas?

– Valha-me Deus! disse Dom Quixote – que de tolices vais enfiando Sancho! Que tem que ver o nosso caso com os adágios que estás arreatando? Por vida tua, homem, que te cales; daqui em diante ocupa-te em esporear o teu asno, quando o tiveres, e não te metas no que te não importa, e entende com todos os teus cinco sentidos, que tudo quanto eu fiz, faço ou farei, é muito posto em razão e mui conforme as regras de cavalaria, que as sei melhor eu que todos os cavaleiros do mundo.

Os princípios éticos de Dom Quixote estão pautados por regras apreendidas por ele nos romances de cavalaria, constituindo-se desse modo num conhecimento livresco, ou seja, enquadrando-o na concepção pura de pedantismo. Sancho, no entanto, nos oferece uma bela demonstração de humildade ao revelar ter aprendido, ao longo de sua vida que, tendo nascido nu como os demais, não lhe competia opinar sobre a vida alheia, muito menos emitindo juízos de valor. Para reforçar a solidez de sua argumentação, ele invoca dois provérbios sendo que o segundo ilustra com perfeição o poder injurioso das palavras conferindo precedência às vozes em relação às nozes, isto é, destacando que a palavra pode ser manipulada de tal modo a deturpar a realidade que ela representa (a calúnia que o louco imputara à Rainha Madasima).

I, pg. 446: Reencontro de Dorotéia com D. Fernando na estalagem:

Dom Quixote: – Partamos pois, o quanto antes. Sancho, vai selar o Rocinante, aparelha o teu jumento e o cavalo da rainha, e depois de nos despedirmos do castelão e destes senhores, partamos sem demora.

Sancho que participara de tudo, disse abanando a cabeça: Ai, senhor, senhor! Nem tudo o que reluz é ouro; com perdão seja dito do ouro verdadeiro [...]. Se o senhor se irritar, eu me calarei, deixando de dizer aquilo a que sou obrigado, como leal escudeiro e bom criado, a seu amo.

Dom Quixote: – Dize o que quiseres, conquanto que suas palavras não visem me atemorizar; assuma o seu medo, se o tiveres, que eu procederei como quem não tem, se for o caso.

Sancho: – Não se trata disso; cruz credo! – respondeu Sancho – mas sim de que tenho certeza de que esta senhora que diz ser a rainha do grande reino de Micomicão, não o é mais do que minha mãe; se ela o fosse, não andaria distribuindo olhares amorosos e ternos, para um dos aqui presentes.

Ah! Deus santíssimo, que fúria teve Dom Quixote ao ouvir as palavras de seu escudeiro! Foi de tal monta que, com voz atrapalhada, gaguejando e lançando fogo pelos olhos disse: - Oh! Velhaco, vilão, atrevido, ignorante, desbocado, fofoqueiro e maledicente! Que palavras são estas que ousastes dizer em minha presença e destas senhoras, como é que ousastes por na tua imaginação semelhantes desonestidades e atrevimentos? Vai-te da minha presença monstro da natureza, depositário de mentiras e embuste, inventor de maldades, publicador de sandices, inimigo do respeito que se deve às pessoas reais; vai-te, e não apareças diante de mim sob pena de minha ira.

Ao longo da história, Cervantes vai tecendo uma sutil dialética comunicativa entre Dom Quixote e Sancho Pança caracterizada pela fala desassombradamente épica do primeiro, em contraposição à fala espontaneamente crua do segundo, a qual, por saber-se portadora da verdade incômoda e antecipando a reação irada de seu amo, freqüentemente se cala atemorizada.

Ora, Dom Quixote como todo bom sujeito que tem sua curiosidade aguçada pela insinuação de um interlocutor de que possui algo a dizer, mas não o faz por temer represálias, lança a Sancho um repto, desafiando-o a "assumir o seu medo, se o tiveres, que eu procederei como quem não o tem se for o caso" e, além do mais, advertindo-o para que "suas palavras não visem me atemorizar".

Vislumbramos, aqui, o mecanismo psicológico da projeção na medida em que Dom Quixote transfere a Sancho o seu próprio medo de não suportar a verdade, sem debitar a este estratagema sua pseudo-habilidade de "proceder como quem não o tem". O interessante a observarmos é que, sendo a mentira um poderoso veneno para a vida mental, a personalidade reage vigorosa e involuntariamente a ele, do mesmo modo que sendo atingido por um gás tóxico o organismo tosse, lacrimeja e se debate.

Foi esta, exatamente, a reação de Dom Quixote: em vez de admitir a identidade plebéia de Dorotéia, ele se insurge furioso contra a insinuação caluniosa de Sancho de que ela estaria lançando olhares langorosos para um homem que, afinal de contas, não passava de seu próprio marido. O jorro de impropérios, a variedade de sentenças condenatórias, a denúncia do perigo público encerrado nesse "monstro da natureza" nos atestam o quanto Sancho tinha razão em duvidar da capacidade de seu amo de lidar com a verdade, comprovando assim, mais uma vez, que tal capacidade deveria ser exercida pelo escudeiro, instância, como vimos, apta a suportar a frustração que sempre nos é imposta pela realidade.

I, págs. 462-501: No capítulo 47 da edição ilustrada por Gustave Doré vemos um desenho onde Dom Quixote está recostado com ar sorumbático no interior da gaiola onde o colocaram, enquanto por fora da grade um risonho Sancho Pança espreita em segundo plano com tal grau de alegria, que sua imagem expansiva "salta" a imagem retraída de Dom Quixote, impondo-se assim a nós, malgrado estar na posição de fundo e não de figura.

Destaco essa imagem como uma metáfora poderosa da relação entre Dom Quixote e Sancho Pança. De fato, podia-se dizer que o Cavaleiro da Triste Figura está preso permanentemente num universo visionário onde, sendo a sombra de Cavaleiros Andantes, torna-se-lhe impossível experimentar uma identidade própria. Seu escudeiro, no entanto, apesar de ser, por definição, a sombra de seu Senhor, exerce sempre essa função a partir de sua "visão de mundo" destilando sempre com naturalidade seus desejos e valores.

Tomando como marco o episódio do engaiolamento, a narrativa de Cervantes toma um rumo muito interessante, a meu ver, já que nos permite perceber, com clareza, a pobreza dos desejos e pulsões no Quixote em contraste com a riqueza destes elementos em Sancho.

Dom Quixote contesta, inicialmente, sua condição de engaiolado invocando, como sempre, argumentos pseudo-racionais como a lentidão do carro de bois, incompatível com a "estranha ligeireza" com que os Cavaleiros Andantes costumam ser transportados seja por nuvens, carros de fogo ou hipogrifos. Sancho retruca, espontaneamente, que aqueles acontecimentos não eram nada católicos, deixando entrever sua suspeita de que o encantamento que gerara o engaiolamento, não passara de uma armação do grupo interessado em mandar Dom Quixote de volta para sua casa sem outras trapalhadas. Foi o bastante para Dom Quixote instaurar uma nova discussão, agora a respeito da imaterialidade dos demônios que o enjaularam, o que extraiu de Sancho comentários nascidos da observação prática como, por exemplo, a materialidade carnal daquelas pessoas ou a qualidade nada sulfurosa de seus perfumes.

A seguir, no momento da partida, Dom Quixote se despede formal e cavalheirescamente das "damas do Castelo", em realidade, a vendeira, sua filha e a empregada, enquanto os demais homens estavam às voltas com os belos personagens femininos, as donzelas Lucinda e Dorotéia, e a sensual Zoraida.

Parece-me oportuno a esta altura fazermos uma observação a respeito da ausência de erotismo e sensualidade no Quixote, para quem os atrativos femininos estão condenados ao amor platônico que ele devota à imaginária Dulcinéia del Toboso, cuja existência não ultrapassa as fronteiras de seu mundo mental. Sancho, em contraparte, exala não só a objetividade prática requerida pelas lides do cotidiano, mas também a aceitação do mundo dos desejos e das pulsões, o envolvimento passional com os apetites do corpo e do espírito.

É importante ressaltar que a apreensão desse quadro não ocorre na narrativa ficcional mediante uma informação direta, mas sim por meio de descrições disseminadas ao longo do relato, que vão impregnando insensivelmente o leitor. Assim, por exemplo, contestando a reiteração estereotipada de Dom Quixote que informara a um grupo de transeuntes estar engaiolado por força de encantamento, Sancho retruca com os pés no chão: "[...] verdade é que o senhor Dom Quixote vai aí tão encantado como minha mãe que Deus haja; ele está em todo o seu juízo, come e bebe e faz todas as suas necessidades, como os outros homens e como as fazia ontem antes que o engaiolassem". E, face à intimidação do barbeiro que o ameaça de engaiolá-lo também caso insistisse em denunciar o embuste que tinham armado para conter Dom Quixote, prossegue Sancho em defesa de seu direito de receber uma ilha para governar: "[...] ainda que pobre, sou cristão, velho e não devo nada a ninguém; e se desejo ilhas, outros desejam coisas piores; e cada qual é filho de suas obras; e sendo homem, posso vir a ser papa, quanto mais governador de uma ilha, podendo meu amo ganhar tantas, que lhe falte a quem as dê".

Por outro lado, estabelece-se na seqüência um diálogo entre o Cura e o Cônego que por ali transitava, a respeito dos malefícios dos romances de cavalaria, por estimularem irrealidades e ilusões. Isto nos evoca, curiosamente, a conclusão formulada pelo establishment científico do final do século XVIII a respeito dos quadros de possessão demoníaca, sonambulismo e múltipla personalidade, todos entendidos como frutos de "doenças da imaginação". O Cura, entretanto, não deixa de reconhecer o outro lado da moeda, ressaltando a virtude de que Sendo isto feito com aprazível estilo e engenhosa invenção, que se aproxime da verdade tanto quanto possível, há de compor sem dúvida uma fina tela, entretecida de fios formosíssimos que, depois de acabada, se mescle tão perfeita e linda, que consiga o fim melhor a que se aspira nesses escritos que é ensinar e deleitar; porque a solta contextura destes livros dá lugar a que o autor possa mostrar-se épico, lírico, trágico, cômico, com todas as partes que encerram em si as dulcíssimas e agradáveis ciências da poesia e da oratória – que a epopéia tanto pode escrever-se em prosa como em verso.

Ora, a ironia ressaltada por Cervantes é que Dom Quixote realiza suas façanhas "by the book", ou seja, tentando transpor a ficção para a realidade sem adaptações enquanto Sancho, por seu turno, consegue ser espontaneamente trágico, cômico e mesmo épico. Além do mais, quando se faz necessário, Sancho mostra-se criativo dando um xeque-mate em Dom Quixote no momento que o obriga a duvidar de seu encantamento pelo simples fato de ainda estar escravo de suas necessidades fisiológicas, exortando-o, inclusive, a sair da gaiola para poder evacuar.

Esse contraponto reaparece nas cenas seguintes onde nos deparamos primeiro com um duelo intelectual entre o Cônego e Dom Quixote, a respeito da autenticidade das histórias de cavalaria e, por conseguinte, da sanidade mental de um e de outro. A dimensão de conhecimento que aqui está em jogo é aquela que, através de acumulações explicativas e sistemáticas, confunde o domínio das forças da natureza com a erudição livresca, em vez de localizá-la no aprendizado intuitivo que nos é fornecido pelas experiências da vida, dentre as quais a sexualidade é, com certeza, uma das mais significativas.

Talvez por isso Cervantes encerra a tertúlia intelectual mediante a aparição da sexualidade animal, representada pelo pastor Eugênio e sua cabra. Ambos surgem em cena em função da inquietude do animal que fugia do seu dono, só estancando quando se deparou com o grupo que escoltava Dom Quixote. A fala do cabreiro para seu animal é elucidativa da eclosão da sexualidade, abstraindo-se o viés machista aí implícito: – Ah! Serrana, serrana; malhada, malhada; porque foges tu? Que lobos te espantam, filha? Não me dirás que é isto, linda? Mas que pode ser, senão que és fêmea, e não podes estar sossegada? Volta, volta, amiga, que, se não estiveres tão satisfeita, pelo menos estará segura no teu aprisco ou com as tuas companheiras, que se tu, que as há de guiar e encaminhar andas tão desencaminhada e tão sem juízo, onde pararão elas?

A irrupção dessa energia procriativa das entranhas do vale bucólico onde se encontravam ressoou também no próprio Cônego, só que agora depurada da distorção preconceituosa: Sossegai um pouco irmão, disse ele ao cabreiro, e não vos azafameis a fazer voltar tão depressa a cabra para o rebanho que, se ela é fêmea, como dizeis, há de seguir o seu natural instinto, por muito que vos ponhais a estorvá-la.

Considerando-se que o cabreiro conta a seguir a sua história, que se resume a uma desilusão amorosa em função de sua amada ter sido enganada por um sedutor interessado mais em seu dinheiro do que em sua sexualidade, torna-se patente que ele e sua cabra representam a "sabedoria instintiva natural" com a qual Sancho está identificado. A comprovação disto nos é dada, dentre múltiplos exemplos, pela fala onde o escudeiro destaca a importância da libido oral: [...] vou com esta empada para a beira daquele regato, onde tenciono fartar-me por três dias, porque tenho ouvido dizer ao meu senhor Dom Quixote, que um escudeiro de Cavaleiro Andante deve comer quando se lhe oferecer ocasião, até não poder mais, porque às vezes, tem de se meter por uma relva tão intrincada, que não podem sair dela nem em seis dias, e se um homem não vai farto, ou de alforges bem fornecidos, ali poderá ficar, como muitas vezes fica, mudado em esqueleto; já a importância da libido genital está implícita na primeira indagação que sua esposa Teresa Pança lhe faz após sua longa ausência: Louvado seja Deus – redargüiu ela – que tanto bem me tem feito; mas conta-me agora, que lucrastes com as tuas escuderices? Que saiote me trazes?

Dom Quixote, por seu turno, ao retornar para casa depara-se tão somente com duas figuras femininas sexualmente neutras, a sobrinha e a ama, que o acolheram com cuidados maternais, despindo-o e colocando-o na cama.

II, pg. 105. Tomé Cecial: – Temos de certo, senhor Sansão Carrasco, o que merecemos; com facilidade se pensa e se acomete uma empresa, mas com dificuldade se sai a gente dela, pela maior parte das vezes. Dom Quixote é doido e nós somos ajuizados; ele vai-se rindo, são e salvo; Vossa Mercê fica moído e triste. Saibamos pois agora, quem é mais doido; quem o é porque se não conhece, ou quem o é por sua vontade?

– A diferença que há entre estes dois doidos, respondeu Carrasco, é que o doido a valer há de sê-lo sempre, e, o que o é por vontade deixará de o ser logo que o queira.

– Perfeitamente, respondeu Tomé Cecial, eu fui doido por vontade, quando me quis fazer escudeiro de Vossa Mercê; pois agora, por vontade também, quero deixar de o ser, e voltar para a minha casa.

A temática da loucura verdadeira e da loucura fingida é parte essencial e fundante da narrativa cervantina no Quixote. Tomé Cecial, que se mancomunara com o bacharel Sansão Carrasco para forjar um falso combate com Dom Quixote, arrepende-se da empreitada já que o tiro saíra pela culatra, seu pseudo-amo levara uma surra e ele, cônscio de suas prerrogativas de falso-doido, reivindicava o seu direito de recuperar a lucidez e abandonar a farsa infeliz.

II, pg. 136: Confrontada nossa dupla com o malfadado amor de Basílio por Quitéria, abortado pela interferência do pai da noiva que a preferiu casá-la com o abonado Camacho, expressa Sancho a sua opinião: Eu não desejava senão que o bom desse Basílio, a quem já vou me afeiçoando, casasse com a senhora Quitéria, e má peste mate os que estorvam que se casem os que se querem bem.

A este comentário singelo de Sancho, Dom Quixote contrapôs sua rígida opinião eivada de moralismo:

- Se casassem todos os que se querem, tirava-se aos pais a escolha e a jurisdição de casarem os seus filhos com quem devem e quando querem, e se ficasse à vontade das filhas escolher os maridos, haveria tal que escolheria o criado do pai, e outra o que viu passar na rua, no seu entender bizarro e jeitoso mancebo, ainda que fosse um espadachim valdevinos; que o amor e a afeição facilmente cegam os olhos do entendimento, tão necessários para escolher estado; e no matrimônio é muito perigoso o erro, e é mister grande tento e particular favor do céu para acertar.

E, diante do temor de que o amante preterido pudesse se entregar à morte quando a noiva "proferisse o sim fatal", ponderou Sancho com sabedoria:

Deus o fará melhor, quem dá o mal dá o remédio; ninguém sabe o que está por vir; tenho visto chover e fazer sol ao mesmo tempo; a gente deita-se são e acorda doente; e digam-me se há porventura quem se gabe do ter travado a roda da fortuna; entre o sim e o não da mulher não me atrevia eu a meter uma ponta de alfinete, porque não caberia; queria Quitéria de coração e deveras a Basílio, e pode este contar com um saco de ventura, que o amor, pelo que tenho ouvido dizer, vela de tal maneira que o cobre lhe parece ouro.

Dom Quixote, ao que tudo indica, sentiu-se ameaçado com a lucidez de Sancho: Aonde vais parar Sancho, amaldiçoado sejas, que em tu começando a enfiar provérbios e contos, só te pode apanhar o diabo que te leve! Dize-me animal, que sabes tu de rodas, de alfinetes, nem de coisa nenhuma?

– Pois se me não entendeu – respondeu Sancho – não me admira que minhas sentenças sejam lidas como disparates; mas, não me importa, eu cá me entendo, e sei que não disse asneira; mas Vossa Mercê, senhor meu, é sempre "friscal" dos meus ditos e das minhas ações.

Apesar do ranço moralista, é sábia a ponderação de Dom Quixote de que "o amor e a afeição facilmente cegam os olhos do entendimento". A sabedoria do amo parece contagiar o escudeiro que nos brinda com uma réplica que desvela o outro lado da moeda, ou seja, que o amor também funciona como lubrificante da roda da fortuna, contribuindo desse modo para corrigir os desvios do destino. Sancho aventura-se, inclusive, a expressar seu bom senso metafísico, ao mencionar sua fé numa divindade justa que "dá o mal, mas também dá o remédio". Por estar impregnado das angústias terrenas, Sancho admite a sua insignificância diante de Deus-Todo-Poderoso, enquanto Dom Quixote, imaginando-se portador de um status sobrenatural, confunde-se constantemente com o poder divino "fiscalizador" da precariedade humana.

II, pg. 271 – Carta de Sancho Pança a Teresa Pança, sua mulher: [...] A duquesa, minha senhora, beija-te mil vezes as mãos; retroca-lhe com duas mil, que não há coisa que saia mais barata, segundo diz meu amo, do que os bons comedimentos.

O sistema fantasioso de Dom Quixote assemelha-se a um país cercado por fronteiras rígidas que só permite o acesso a seu interior mediante a apresentação de um passaporte diplomático que ateste a crença de seu portador na existência da Cavalaria Andante. No entanto, uma vez ultrapassada esta alfândega ideológica, adentra-se a um universo altamente organizado onde o viajante tem muito a aprender em termos de história, política, religião, e mesmo a respeito das coisas triviais que proliferam na vida cotidiana. Em momentos como estes, Dom Quixote trata a Sancho como a um filho dileto com quem compartilhamos fórmulas eficazes de convívio social, como este singelo lembrete de que "não há coisa que saia mais barata do que os bons comedimentos".

II, pg. 393: Tendo abandonado a governança da "ilha" e tomando seu caminho de volta à sua vida regular, encontra-se Sancho com um antigo vizinho, um tal de Ricote, mouro foragido que voltara disfarçado à Espanha para resgatar um tesouro que escondera. Esse inesperado personagem oferece a Sancho uma parte de seu tesouro, caso ele se disponha a ajudá-lo na empreitada mas, escaldado por sua frustrada ambição de alçar-se a uma condição que não era a sua, ele recusa, dizendo: [...] Ricote, segue o teu caminho em boa hora e deixa-me seguir o meu, que bem sei que o que bem se ganhou, perde-se facilmente; mas o que mal se ganhou, perde-se ele e perde-se a gente.

II, pg. 400: Sancho, ao ser salvo da cova por Dom Quixote e reencontrando os duques: Saí, como digo, da ilha, sem mais acompanhamento que o do meu ruço; caí numa cova, vim por ela adiante até que esta manhã, com a luz do sol vi a saída mas tão difícil que, a não me deparar o céu o senhor Dom Quixote, ali ficaria até ao fim do mundo. Assim, portanto, duque e duquesa meus senhores, aqui está o vosso governador Sancho Pança que nestes dez dias de governo, só lucrou o ficar sabendo que não serve de nada ser governador de uma ilha, nem governador do mundo inteiro. E com isto os não enfado mais e, beijando os pés a Vossas Mercês, dou um pulo do governo abaixo, e passo para o serviço do meu amo Dom Quixote que, enfim com ele, ainda que coma o pão com sobressalto, ao menos sempre me farto; e eu cá, em me fartando, pouco me importo que seja com feijões com que seja com perdizes.

A frustrada experiência de "ser Rei por dez dias" funcionou para Sancho como um choque de realidade, convencendo-o, facilmente, que os seus recursos pessoais eram insuficientes para sustentar a ambição de ser rico e poderoso. Esta lição foi incorporada por ele com tal solidez que, tendo o destino promovido o seu reencontro com este Ricote que novamente lhe ofereceu um ganho fácil, ele recusa de modo peremptório, oferecendo como argumentação que "o que mal se ganhou", ou seja, o ganho corrompido, é fonte de envenenamento para o próprio eu.

Esta sábia ponderação, fruto do aprendizado emocional recém-adquirido, prepara no fundo o retorno do filho pródigo o qual, estando mergulhado na escuridão do arrependimento, "vê a luz do sol", ou seja, a presença salvadora do pai-patrão Dom Quixote que veio ao seu encontro para recebê-lo de volta. Ao retornar, no entanto, Sancho traz consigo a fórmula redentora de como o ser humano pode aprender a modificar suas frustrações, garantindo assim a sua permanência no reino da realidade. Talvez esse tenha sido o fator crucial na recuperação da lucidez por parte de Dom Quixote, o qual, estando no leito de morte ditando seu testamento, readquiriu a identidade prosaica de Alonso Quijano, o Bom, a distribuir com bondade os seus bens entre aqueles que o amaram com lealdade, a começar, naturalmente com seu querido Sancho Pança.


Don Quixote (2000) - Don Quixote de La Mancha/Alonso Quixano

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Cervantes

A história da Espanha dos últimos anos da vida de Cervantes é a história da decadência do Século de Ouro de Carlos V e Filipe II: a experiência dos oitenta gloriosos anos que marcaram a era do império no qual o sol nunca se põe, Quadro: "Lendo Picasso, lendo D. Quixote"em alusão às possessões de um extremo ao outro do mundo ao tempo de Filipe II. A União Ibérica — 1580-1640 — legou aos espanhóis importantes possessões portuguesas como o Brasil e regiões da Índia e da África. Sem falar na conquista espanhola das Filipinas, nome dado em homenagem ao rei Filipe II. O livro foi concebido nos anos de transição dos reinados de Filipe II e Filipe III. O momento de elaboração da obra é o da acentuação aguda da crise econômica do império Habsburgo, em seu ramo espanhol. O fim do século XVI e o início do XVII foram marcados por duas bancarrotas da monarquia — 1596 e 1607 —, sem falar na peste que dizimou um terço da população no mesmo período. Entre os anos de 1606 e 1610 a competição de ingleses e holandeses fez com que as transações comerciais da Espanha com suas possessões na América declinassem em aproximadamente 60 por cento.[1] Aliás, a crise econômica espanhola refletiu duramente sobre Cervantes, que viveu pobremente os seus últimos anos.

No tempo de Cervantes, um homem poderia revelar o seu valor notabilizando-se pelo exercício das armas ou das letras. Cervantes, exemplo de mentalidade moderna — haja vista que o Dom Quixote serviu-lhe como instrumento de combate ao obscurantismo da cultura medieval —, constrói freqüentes paralelos entre esses honrosos ofícios. Ao contrário de Montaigne — que escreveu seus Ensaios a título de modestas reflexões dedicadas a um círculo restrito de amigos — Cervantes é o exemplo do indivíduo cioso da própria genialidade, e em busca apaixonada pelo sucesso na república das letras. Na batalha naval de Lepanto contra os turcos otomanos (1571), na qual combateu “mui valientemente” e teve a mão esquerda despedaçada por um tiro de arcabuz, conquistou as glórias das armas e o apelido “El Manco de Lepanto”. Cervantes se orgulhava de sua bravura nessa batalha. No Prólogo da Segunda Parte do Quixote ele se irrita com as indignidades de Alonso Fernández de Avellaneda, o autor do falso Dom Quixote, publicado em 1614, que o chamara de velho e manco, “como se tivesse na minha mão demorar o tempo, que parasse para mim, ou como se tivesse saído manco de alguma rixa de taberna, e não do mais nobre feito que viram os séculos passados e presentes, e esperam ver os vindouros”, atroa Cervantes. As suas feridas ganhas na “prodigiosa peleja”, tal a magnitude que assume Lepanto aos olhos de toda a Europa — a batalha que salvou a Cristandade — são motivo da mais elevada honra.

As armas implicavam a exibição de virtudes como a coragem e a força. Havia ainda uma sutileza a mais na definição das armas como um ofício dignificante. Ora, num tempo de guerras recorrentes que estavam definindo a nova geografia política da Europa Moderna — os Estados territoriais emergentes —, o que poderia existir de mais elevado do que contribuir para a maior grandeza e glória do reino? A vida aventurosa nos tempos de Cervantes, em si mesma, era uma oportunidade desejada por jovens fidalgos. Em síntese, o ofício das armas era o terreno próprio às proezas pessoais que distinguiam e notabilizavam até mesmo um simples particular sem maiores predicados e recomendações, caso do próprio Cervantes. Uma façanha, um ato de heroísmo, e eis que se estava bem arranjado na vida, reconhecido e premiado. Em defesa de seu reino e de sua fé — no caso dos enfrentamentos com o Islã em franca expansão pelo Leste da Europa — nem as maiores vicissitudes das campanhas — a morte, a fome, a peste, a prisão e o exílio — seriam fontes suficientes de desencorajamento de um herói em potencial. Sem dúvida, o guerreiro deveria saber que não há triunfo sem sacrifício. Ainda que ocorra ao soldado cair em combate pela causa de seu príncipe, é sempre belo morrer de armas na mão. Eis o adágio de Virgílio, que Cervantes tomou como sua divisa. Doente no porão de um navio em Lepanto ele fez questão de subir à proa para tomar parte nos combates.

Apesar do heroísmo na vida real, as batalhas de Cervantes não haveriam de lhe render os frutos esperados na corte de El Rei. De retorno à Espanha, após quatro anos de permanência na Itália, foi aprisionado por piratas turcos no norte da África por cinco anos e meio. Soldado sem glórias militares reconhecidas e escritor frustrado, Cervantes tornou-se um eficiente arrecadador de abastecimentos e cobrador de impostos da monarquia espanhola, no tempo em que Filipe II preparava a expedição da Invencível Armada, para a invasão da Inglaterra e, inclusive, depois disso. No Quixote há claras referências a essas experiências de vida. Ao aludir ao métier de cobrador de contribuições, o autor esclarece tratar-se de coisas muito perigosas tais encargos, “ofícios que em se usando mal deles leva o Diabo quem os usa”. Sem dúvida, nota-se aqui o registro das suas prisões como suspeito de malversação dos recursos da monarquia, pelas quais foi encarcerado mais de uma vez. Por essas e por muitas outras notas da mesma natureza vemos o quanto é auto-referente a imaginação ficcional de Cervantes.

Como as armas não lhe abriram o caminho que esperava, o criador de Dom Quixote tencionou tornar-se escritor reputado, no que, aliás, teve escasso sucesso, ao menos na Espanha. Em seu livro fica estampada esta intenção autoral ao declarar que “Uma das coisas que maior contentamento deve dar a um homem virtuoso e eminente é o ver-se andar em vida pelas bocas do mundo, impresso e com estampa com bom nome, é claro, porque, sendo ao contrário, não há morte que se lhe iguale”. E muitas mais são as suas confissões e queixas contra a falta de reconhecimento seja no leito ficcional da obra seja nos prólogos das duas diferentes e desiguais partes do livro, como quando reflete que, algumas pessoas, antes do tempo e contra a lei das suposições razoáveis, vêem os seus desejos premiados. Já outros, sem dúvida de maior mérito, “importunam, apoquentam, suplicam, madrugam, rogam, porfiam, a não alcançam o que pretendem, e chega outro, e, sem saber como, nem como não, acha-se com o cargo e o ofício que muitos pretenderam”. E Cervantes conclui, em outra parte, que o que vale neste mundo é o se ter proteção pois aquele que possui influência, “quando mal se precata, acha-se com uma vara de juiz na mão, ou de mitra na cabeça”. Nem a vara nem a mitra lhe vieram, apesar de sua notável capacidade de deitar louvores às virtudes das pessoas influentes como, por exemplo, o Conde de Lemos, de cuja corte literária imaginou fazer parte, quando da nomeação deste aristocrata para Vice-Rei de Nápoles, em 1610. As suas expectativas foram frustradas, o que não lhe impediu de, alguns anos mais tarde, lançar ao aristocrata incenso como aquele que se lê na Dedicatória da Segunda Parte, de 1615: “Venha Vossa Excelência com a saúde com que é desejado, que já cá estará Persiles para lhe beijar as mãos, e eu os pés, como criado que sou de Vossa Excelência”. Nada havia de estranho em se dedicar obras a um patrono, tanto que a Primeira Parte do Quixote fora dedicada ao Duque de Béjar, que a ignorou. Mas, no caso da Dedicatória ao Conde de Lemos, a ênfase parece ter sido um pouco vigorosa, ainda que se pese a cortesia peculiar de seu tempo.

Acerca da estrutura da obra é preciso dizer que são desiguais principalmente porque, na Segunda Parte — composta por 72 capítulos contra os 52 da anterior —, as peripécias de Sancho Pança ganham tal volume a ponto de comprometer a densidade do personagem central. Isso acarreta uma considerável redução das aventuras quixotescas. Quando do governo de Sancho Pança em sua ilha imaginária, e que ocupa um volume considerável de texto, Dom Quixote é praticamente deixado em quarentena. Mas não deixa de ser muitíssimo divertida a estratégia do autor em dar azo às ambições e ao materialismo do indolente escudeiro, mesmo que em detrimento das fantasias de Dom Quixote. Naturalmente, existem opiniões divergentes. Alguns autores consideram a segunda parte o ponto alto da obra: é mais complexa, melhor elaborada, desenvolve interpretações filosóficas e morais dos episódios narrados. É que Cervantes, movido pelo sucesso internacional da obra, passou a se interessar mais por sua criação, dotando-a de uma nova complexidade filosófica e estética.

Acerca do fraco reconhecimento que a Espanha conferiu ao autor em vida, digna de nota é a passagem deixada por Márquez Torres, censor da segunda parte do Quixote, publicada em 1615. Conta ele, na Sentença de Aprovação — pois os livros naquela época eram censurados pela Igreja —, que em visita à Espanha, embaixadores franceses pasmaram-se em saber da ingrata sorte do criador do Quixote, cuja primeira parte circulara pela Europa desde 1605. Pobre e esquecido, e já no final da vida, Cervantes ainda escrevia para ganhar o pão. Que reino era a Espanha que permitia tal destino, indagou com uma ponta de indignação um dos membros da embaixada. No que foi respondido por um de seus colegas: se a necessidade o obriga a escrever, Deus queira que nunca seja próspero, para que faça o mundo rico com suas obras.

O Shakespeare da língua espanhola morreu em 23 de abril de 1616, o mesmo dia da morte do autor de Hamlet. Como lembra a esse respeito o crítico norte-americano Harold Bloom, “Contemporâneos perfeitos (é possível que tenham morrido no mesmo dia), Shakespeare, evidentemente, leu Dom Quixote, mas é bastante improvável que Cervantes soubesse da existência de Shakespeare.[3] De fato, paralelos entre Cervantes e Shakespeare são recorrentes na crítica literária. A genialidade de ambos, e o fato de terem vivido numa mesma época, são as fontes naturais desses paralelos. A estatura colossal de Dom Quixote é normalmente comparada à grandeza de Hamlet.

Cervantes desenganado, triste, revoltado contra a sorte infeliz e contra a fortuna ingrata, preso em virtude de não sei que intriga reles em que o tinham injustamente culpado, lembrou-se, para iludir as tristezas do cárcere, de escrever um romance satírico contra as novelas de cavalaria, cuja extravagância, cujo mau gosto, cuja exageração grotesca tinham assumido àquele tempo um grau intolerável.

Cervantes julgava ter escrito belíssimas coisas – dramas, comédias, romances, etc., hoje inteiramente esquecidas; mas como tinha a soberba inconsciência do génio, o qual, como a Natureza, nunca sabe o que tem a referver, a germinar, a desabrochar, a crescer nos seus seios ubérrimos, ele não percebeu ao escrever o D. Quixote que fazia a sua obra única, a sua obra imortal, aquela que lhe deu direito a entrar na legião rara e luminosa dos nomes que não se apagam mais nos céus da inteligência humana; a obra que enriquecia o mundo com uma figura muito mais real do que as miríades de criaturas que até ali e dali em diante nasceriam e morreriam nele; aquela que fez de Cervantes a alma mais querida e mais luminosa da terra em que nasceu e que tão hostil e tão desamorável foi à sua forma mortal!… Hoje o centenário de Cervantes ilumina de alto esplendor essa Espanha onde ele teve fome e sofreu perseguições e inclemências!

Cervantes, ao pegar na pena para escrever esse extraordinário panfleto contra a literatura ridícula e falsa dos seus contemporâneos, ignorava absolutamente a coisa enorme, a coisa genial que ia fazer! Sem dar por isso, ele ressuscitava em si o ideal extinto da antiga pátria de Cid e metia-o da maneira mais original e mais profundamente cómica na alma do seu magro cavaleiro, criando assim um anacronismo, vivo. Fazia dele um verdadeiro herói sem meio adequado a mover-se. E no seu livro, cheio de vida e cheio de intensa objectividade, introduzia a pouco e pouco – pelo processo que o amplia e o torna numa espécie de espelho do mundo, – não só tudo que sabia pelas leituras feitas com avidez durante a sua vida errante, como também tudo que conhecia directamente pela observação que em certas naturezas privilegiadas é fecunda como a própria criação, e tudo que sofrera de desilusões e desenganos e tudo que imaginara, com aquela extraordinária e pujante fantasia que faz dele uma espécie de semideus!


Miguel de Cervantes

SOLDADO E ESCRITOR

1547
Nasce Miguel de Cervantes Saavedra

1551
O pai, Rodrigo, é preso por causa de dívidas

1566
A família instala-se em Madri

1569
Após incidente no qual teria ferido um homem, deixa Madri e vai morar em Roma

1571
Participa da batalha de Lepanto, contra os turcos. Ferido em combate, tem a mão esquerda inutilizada

1575
Capturado por corsários, é levado para Argel, com seu irmão Rodrigo, onde fica cinco anos em cativeiro

1581
Vai para Lisboa, onde escreve peças de teatro

1584
De um romance com Ana Franca, nasce Isabel de Saavedra. Casa-se com Catalina de Palacios Salazar

1585
Publica La galatea. Morte do pai

1587
É nomeado comissário real encarregado de recolher azeite e trigo para a Armada Invencível

1593
Morte da mãe. Publicação do romance La casa de los celos

1597
É preso em Sevilha, após ser condenado a pagar dívida exorbitante

1598
Deixa a prisão. Morte de Ana Franca

1605
É publicada a primeira parte de Dom Quixote

1613
Ingressa na Ordem Terceira de São Francisco. Publicação de Novelas exemplares

1614
Surge uma continuação de Dom Quixote, escrita por Avellaneda

1615
Cervantes publica a segunda parte de Dom Quixote

1616
Morre em Madri, no dia 22 de abril

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Fontes : CARVALHO, Maria Amália Vaz de, 1847-1921
D. Quixote : (a collaboração de três séculos na obra de Cervantes)
In : Ao correr do tempo / Maria Amalia Vaz de Carvalho . – Lisboa : Parceria António Maria Pereira, 1906. - p. 183-194
BN L. 11548 P.

Wikipedia; pOr trÁs dAs LeTraS ::

Marco Antônio Lopes, Docente do Depto. de Ciências Sociais da UEL.

Luiz Carlos Uchôa Junqueira Filho, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, filiada à International Psychoanalytical Association.

PORTAL DE DON QUIJOTE

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