"Cancioneiro Jobim"
Antes de morrer, Tom Jobim elaborava
um projeto de fazer uma edição com sua própria
obra musical completa, inspirado nos songbooks de Rodgers &
Hart, Cole Porter e Gershwin, os pilares da canção
americana. Posteriormente, sua família finalmente conseguiu
pôr em prática o sonho do maestro soberano. Dirigido
por Paulo Jobim, filho de Tom, o “Cancioneiro Jobim”
chega ao público em seis volumes – cinco com a obra
completa e uma edição de luxo, com obras escolhidas
– contendo partituras originais para piano, fotos e textos
(em português e inglês). Os filhos de Paulo, Daniel
e Dora Jobim, também integram a equipe de produção
do trabalho.
Mistério Profundo
Tom Jobim, pianista, compositor,
cantor, arranjador, violonista às vezes, é praticamente
uma unanimidade quando se pensa em qualidade e sofisticação
musical. Inexplicavelmente, a genialidade de Tom Jobim continua
sempre mais reconhecida no exterior do que entre nós, brasileiros,
que, afinal, estaríamos em melhores condições
de apreciar a beleza de suas canções, por exemplo
no que se refere à concatenação melodia/letra.
Nesse sentido, muito aquém
do que exigiria a magnitude do fato foi a divulgação,
entre nós, de sua recente consagração como
compositor nos EUA ao ingressar no Hall of Fame, ao lado de outros
imortais como Gershwin ou Porter. Afinal, ele é o autor estrangeiro
mais tocado nos EUA diversas de suas canções ultrapassaram
um milhão de execuções e foram interpretadas
por Ella Fitzgerald, Sinatra, Nat King Cole, Sarah Vaughn e outros.
Grande e grandiosa, inquietante,
"Águas de Março" soa aos nossos ouvidos,
sempre de novo, como diz sua letra, como "um mistério
profundo". Parte desse mistério reside, talvez, no fato
de a poesia de Águas de Março nos arrancar de nossos
padrões usuais de pensamento ocidental e nos conduzir às
formas de pensamento do Oriente, "lugar" por excelência
do mistério.
Heidegger fala de um enclausuramento
do ser humano, onde não só a linguagem está
a serviço do pensamento, mas também ocorre o contrário.
Pense-se, por exemplo, na linguagem-pensamento árabe onde,
em vez dos longos e complicados discursos ocidentais, encontramos
um rápido e cortante suceder de flashes, em frases nominais
provenientes de uma imaginação fulgurante com a irresistível
força da imagem concreta.
A orientalização chega ao extremo
quando no final da canção, interpretada por Tom e
Elis (Elis com riso mal contido), o verbo ser é suprimido
e se diz simplesmente:
|