"As luzes se apagam. A cortina se abre. Entra no palco, de terno, gravata e calça com o vinco perfeito, senta-se no centro, no tradicional banquinho, com apenas seu violão, um microfone para a voz e outro para o violão e algumas caixas de retorno ao seu redor. Sem palavras ele começa a tocar alguns acordes, com aquela batida na mão direita que, sozinha, tem mais síncope que toda uma escola de samba na avenida. Sua mão esquerda procura os acordes perfeitos, as seqüências harmônicas mais belas. Ele começa a cantar e você pode sentir um arrepio de prazer coletivo passando por todas as duas mil pessoas na sala. Cada nota que João Gilberto toca e canta é um embate simbólico e real entre razão e emoção, quanto mais técnico e exato ele se torna, mais próximo está da plenitude espiritual."