| O
que fizemos?
Sgt.
Pepper nunca foi consenso, nem mesmo entre os próprios
Beatles, mas recebe avaliações contínuas.
Os
próprios Beatles não eram pretensiosos
em relação ao que ficaria marcado como
sua obra-prima – até porque, há
controvérsias entre fãs e especialistas,
que preferem discos como Rubber Soul, Revolver ou
Álbum Branco.
Ao
longo dos anos, eles foram mudando sua noção
que tinham sobre o próprio trabalho. “Foi
o disco daquela época e é provável
que realmente tenha transformado as técnicas
de gravação, mas não fizemos
isso de maneira consciente. Acho que houve um desenvolvimento
gradual dos rapazes, à medida que tentavam
tornar a vida um pouco mais interessante no disco”,
disse um reticente George Martin, avaliando Sgt. Pepper
ainda no calor dos tempos.
Anos
depois, no entanto, em seu livro, ele já havia
mudado completamente de perspectiva analítica.
Seu capítulo sobre a comparação
entre Sgt. Pepper e a música erudita é
tremendamente polêmico. “Em 1967, eu pensava
que a música clássica estava morrendo,
ou já morrera. A música clássica,
por sua própria natureza, já é
uma música morta – foi escrita por gente
que já morreu há 50 anos ou mais. (...)
As conversas sobre música clássica tendem
a frases como: ‘Você já ouviu Bruckner
interpretado por Karajan, tão diferente de
Klemperer? É muito interessante...’ A
interpretação até pode ser interessante,
mas ainda é Bruckner. É tudo o que podem
fazer – remexer no que já está
lá. A música pop para mim estava viva;
expressava o sentido da vida, refletindo-a e comentando-a,
sempre da melhor maneira, muitas vezes inconscientemente.
Pepper certamente faz isso. (...) She’s Leaving
Home só poderia ter sido escrita por Paul,
já naquela época um compositor mestre.”
O
ano de 1967 parecia colaborar com esse espírito
despojado dos Beatles, a vida de passeios pela King’s
Road, Fulham Road, Chelsea e Mason’s Yard, lugares
preferidos de Paul, o clima do Verão do Amor.
“Outras pessoas começaram a se interessar
pelo que estávamos fazendo. Sempre achei que
os Stones pegaram nossa deixa e a seguiram. A gente
faria um determinado trabalho, como Pepper, e um ano
depois eles fariam Satanic Majesties”, disse
Paul McCartney. “Donovan, por exemplo, que na
época fazia uns disquinhos muito funks. Mas
ninguém estava entrando tanto na arte e loucura
da instrumentação como nós. A
maior influência, como eu já disse, foi
o álbum Pet Sounds, dos Beach Boys, e basicamente
foram as harmonias que eu utilizei desse álbum.
Além disso, não era realmente vanguarda,
era apenas música direitinha, surf music –
mas um pouco esticada, na letra e na melodia.”
Mas
John Lennon nunca teve uma visão tão
dourada sobre seu próprio trabalho ali. “Eu
renego ativamente partes delas que não saíram
direito. Há partes de Lucy in the Sky que eu
não gosto. Parte do som em Mr. Kite não
está legal. Gosto de A Day in the Life, mas
ainda não tem a metade da beleza que eu achava
que tinha quando a estávamos fazendo. Imagino
que poderíamos ter trabalhado mais nela, mas
não conseguiria perder mais tempo com aquilo.
Sgt. Pepper é uma canção legal,
Getting Better é uma canção legal,
e Within You without You, de George, é linda.”
A
reavaliação do trabalho dos Beatles
é contínua e propicia grandes momentos
a todo instante. A cantora Patti Smith, musa da blank
generation, acaba de lançar o álbum
Twelve, no qual gravou justamente essa preferida de
Lennon, Within You without You, de George Harrison.
“Sempre
tive afeto por George Harrison. Como Brian Jones,
ele nos apresentou numa paisagem musical ao mesmo
tempo estranha e espiritualmente estimulante. Parece
nos pedir para despertar e examinar nossa consciência,
que todos os nossos atos têm conseqüências”,
disse Patti, explicando por que escolheu gravar “a
canção esquecida de Sgt. Pepper’s
Lonely Hearts Club Band.”
PEPPERABILIA...
Maratona:
Sgt. Pepper foi a mais longa gravação
da carreira dos Beatles: 700 horas de estúdio,
29 dias das vidas dos Quatro Fabulosos (o disco Please
Please me levou apenas 585 minutos para ser gravado).
Custou 25 mil libras, uma fortuna em 1967.
Freezer:
Foram fabricadas 12 geladeiras promocionais do disco,
com a capa do álbum ilustrando o metal de suas
portas. Acredita-se que ainda haja pelo menos uma
delas em alguma cozinha da Inglaterra.
O
Caladão: A canção que
tem um único Beatle cantando e tocando é
Within You without You: trata-se do autor, George
Harrison, o Beatle Calado. Além dele, a música
traz uma seção de cordas com 8 violinistas
e 3 violoncelistas e músicos tocando instrumentos
clássicos indianos.
Estrangeira:
Nem todas as músicas do álbum foram
gravadas em Abbey Road. Fixing a Hole foi gravada
nos estúdios Regent, em Denmark Place, um lugar
para gravações demo.
Crítica
Mutante: Em 1974, o semanário NME
fez uma enquete com críticos, que elegeram
Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band o melhor
disco de todos os tempos. Em 2006, numa enquete do
mesmo semanário, o disco já não
aparecia entre os 100 melhores.
Distintivo:
O símbolo que Paul usa na capa, na manga esquerda
do seu uniforme, tem as iniciais O.P.P. Na foto, parece
O.P.D., o que levou à interpretação
que significaria Officially Pronounced Dead (Declarado
Oficialmente Morto). Essa interpretação
foi feita pelos adeptos da tese conspiracionista que
diz que Paul morreu e foi substituído por um
sósia. Mas, na verdade, as iniciais vêm
de Ontario Police Precinct. Era um distintivo presenteado
a Paul pela polícia canadense durante visita
a Toronto, em 17 de agosto de 1965. Curiosidade adicional:
um dos policiais que fazia a ronda naquela ocasião
era um certo... Sargento Pepper.

Paul
McCartney, no estúdio
Foto: Divulgação
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