Claude Debussy, Arnold Schoenberg e Igor Stravinsky

Entre as grandes inovações do séc. XX aparecem em Paris e Viena, aspectos presentes e interrelacionados na obra desses três compositores, que constituiram a partir daquele ponto, influências fundamentais para os músicos.

Claude Debussy - Composições Harmónicas/formais - Prélude à l' après-midi d'un faune, 1892-94, Paris, inaugura o modernismo musical, onde a liberdade formal está intrinsecamente ligada à ambiguidade tonal.

Prélude à l'après-midi d'un Faune

Arnold Schoenberg - Composições Harmónicas - As três Peças para Piano, de 1911, Viena, marcam em absoluto a início da fase da atonalidade, que já se vinha desenhando praticamente desde o Sexteto de cordas Verklärte Nacht ,op. 4 de 1899.

Three Piano Pieces Op. 11

Stravinsky - Composições Rítmicas com Le Sacre du Printemps(A Sagração da Primavera), em 1913. Complexa estrutura politonal e dissonante.

Le Sacre du Printemps

 

Prelúdio à Tarde de um Fauno

Prélude à l'après-midi d'un Faune (Prelúdio à Tarde de um Fauno) é uma obra-prima da música composta por Claude Debussy, músico francês, entre 1892 e 1894, baseada em um poema de Stéphane Mallarmé. Sua estréia se deu em Paris na Société Nationale de Musique , no dia 22 de dezembro de 1894 sob a direção de Gustave Doret. Alguns críticos consideram sua apresentação como marco inicial da música moderna. É uma obra considerada um dos expoentes da música impressionista.

A música é baseada no poema "L'Après-midi d'un faune" de Stéphane Mallarmé, escrito em 1865 e publicado em 1876, com ilustrações do pintor impressionista francês, Édouard Manet. O poema conta a história, em um clima sensual, de um fauno que toca sua flauta nos bosques e fica excitado com a passagem de ninfas e náiades, tentando alcançá-las em vão. Então, muito cansado e fraco, cai em um sono profundo e passa a sonhar com visões que o levam a atingir os objetivos que dentro da realidade não tinha alcançado. A música de Debussy e a poesia de Mallarmé inspiraram um balé, criado por Vaslav Nijinski em 1912, revolucionário por sua sensualidade.


Fauno de Magnus Enckell, 1914
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Debussy procurou considerar "a impressão geral do poema" ilustrada por instrumentos que realçam e colorem as emoções e as impressões das passagens invocadas. Segundo o autor "...São na verdade sucessivos cenários por onde se movem os desejos e os sonhos do fauno no calor da tarde". Debussy denominou a esta peça de "Prelúdio" porque tencionava escrever uma suíte (prelúdio, interlúdio e parafrase final). Porém, nunca o fez, ficando só a primeira parte.

Prélude à l'après-midi d'un Faune (Prelúdio à Tarde de um Fauno) costuma ser tocada por uma orquestra formada por três flautas, dois oboés, um corne-inglês, dois clarinetes, dois fagotes, quatro cornetas de pistão, duas harpas, e instrumentos de cordas (violinos, violas, violoncelos, contrabaixos).

 

Três peças para piano

Arnold Schoenberg revolucionou a música moderna, ao escrever em 1909 suas Três peças para piano, Opus 11, a primeira obra completamente atonal, para muitos a mais significativa composição do século XX.

Schoenberg viveu na época de uma revolução artística, no mesmo período em que Freud divulgava suas primeiras teorias.


ARNOLD SCHOENBERG (1874-1951)

O impressionismo, nascido na França, retratou o ar livre, os campos e os oceanos. É o exterior refletido desde o interior. O Expressionismo, nascido na Alemanha tem o seu olhar voltado para o oculto, para o interior.

"Pode você imaginar uma música na qual a tonalidade (ou seja, a coerção por qualquer tipo de sistema tonal) é suspensa completamente? Enquanto ouvia essa música, em que cada som firmemente se estabelece por si mesmo (como focos de cor em uma tela em branco!), eu pensava continuamente na "Composition" de Kandinsky, que também não possuía traços de sistema tonal (...)" - Prólogo da primeira edição do Tratado de Harmonia, junho de 1911.

Schoenberg parecia convencido da inexorável dissolução das leis européias sobre arte e harmonia, e capta o sentido musical do Oriente, considerado (até então) primitivo. "(...) As cores primárias devem saltar da tela, e criar ‘dissonâncias parciais’ que, no efeito geral da pintura, criariam de fato uma nova consonância, ou ‘harmonia’."

 

A Sagração da Primavera

"Não se podia, durante todo o espetáculo, ouvir o som da música", anotou a escritora Gertrude Stein sobre a vaia que estabeleceu o 29 de maio de 1913 como o dia D da arte de vanguarda. Nessa data, em Paris, estreou o balé A Sagração da Primavera, com música de Igor Stravinsky e coreografia de Vaslav Nijinsky.

Gertrude Stein estava lá, assim como o escritor e cineasta Jean Cocteau, que registrou: "Ali, para quem soubesse ver, estavam todos os elementos de um escândalo". Como escreveu o crítico musical Alex Ross, da revista The New Yorker, no livro O Resto É Ruído, escândalos como esse ocorriam de seis em seis meses na Paris dos anos 10, em que criadores da nascente vanguarda encenavam peças, escreviam músicas ou pintavam quadros destinados a sacudir e a chocar os conservadores.


Vaslav Nijinsky born 12 March 1890 (d. 1950)
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Nenhuma vaia, no entanto, ficou tão marcada na história da arte quanto a destinada à Sagração, talvez pelos desdobramentos posteriores. A peça de Stravinsky se tornou uma espécie de certidão de nascimento da música moderna. A coreografia de Nijinsky revolucionou a dança. E artistas como Gertrude e Cocteau, que estavam na plateia, se viram para sempre impregnados do espírito demolidor da Sagração - a obra de toda uma geração nascida na época atesta isso.

Depois do choque inicial da estréia, apresentada pela companhia Ballets Russes, do empresário Sergei Diaghilev, A Sagração foi aos poucos caindo no gosto do público. E se tornou - expressão paradoxal - uma espécie de "clássico da vanguarda". Os mais importantes coreógrafos do século 20 visitaram a partitura de Stravinsky e, cada um a seu modo, se impregnaram de sua música de ritmo irresistível, em que as cordas e sopros da orquestra fazem as vezes de instrumentos de percussão. Nessa aventura se lançaram nomes como o francês Maurice Béjart, em 1959, e a americana Martha Graham, em 1984. Uma dessas versões - a da coreógrafa alemã Pina Bausch, morta em junho último - volta a ser apresentada no Brasil neste mês, num programa que inclui Café Müller, com a companhia Pina Bausch Tanztheater Wuppertal.


Le Sacre du Printemps - Photo Copyright © Beth Bergman 2003
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Na versão original, os dançarinos contorciam-se e tremiam em espasmos no palco, seguindo a complexa estrutura politonal e dissonante da composição de Stravinsky. Com cabeças e pés torcidos, braços dobrados na lateral, mãos abertas e rígidas, os bailarinos levavam o grotesco ao palco para contar a história da jovem - a "eleita" - que precisa ser sacrificada em oferenda ao deus da primavera (a história do balé se baseia numa antiga lenda russa). Para elaborar os tremores e as contorções dos bailarinos, Nijinsky tomou como base a técnica de eurritmia desenvolvida pelo músico-educador suíço Émile Jacques-Dalcroze. Segundo ele, todo ritmo podia corresponder a uma livre criação motora.

Na Sagração da Primavera, os dançarinos golpeiam o solo com os pés, contrariando as regras clássicas segundo as quais os bailarinos, com sapatilhas de ponta, precisam "flutuar". No fim, acontece um dos solos mais longos e exigentes da dança moderna: a eleita, então imóvel, exterioriza com contorções seu terror diante da morte. Ela acelera seus movimentos até a convulsão final, quando gira sobre si mesma, cai morta e é erguida ao céu, em oferenda ao deus da primavera.

Criados pelo pintor e arqueólogo Nicholas Roerich, a cenografia e os figurinos ainda eram bastante suntuosos: no fundo do palco, um imenso painel retratava a paisagem do interior da Rússia. Já os figurinos, pesados, imitavam roupas de camponeses com vestidos longos, rostos pintados e uma série de adereços.

A primeira grande releitura da Sagração da Primavera ficou marcada, justamente, por tornar mais econômicos os recursos de cena, ao mesmo tempo em que retirava a história do contexto regional russo. Em 1959, com 32 anos, Maurice Béjart consagrou-se com uma coreografia despida de adereços pitorescos e um elenco formado por bailarinos das mais diferentes etnias, transformando a história num hino ao amor universal e apresentando a união profunda entre homem e mulher. Para Béjart, o encontro carnal entre um homem e uma mulher simboliza, também, a união do céu e da terra, a dança de vida e morte - "eterna como a primavera", como ele dizia.

Nessa época, Martha Graham já era um nome consagrado. Contudo, ela só iria fazer sua versão da Sagração 25 anos depois, aos 90 anos. Como Béjart, ela retirou a coreografia do contexto original. Fez uma versão contemporânea do ritual da fertilidade, investindo nos movimentos vigorosos, por meio das técnicas de contração e relaxamento do corpo pelas quais ela se celebrizou. Seus dançarinos vestem sungas, tornozeleiras e munhequeiras pretas. Os homens saem de cena carregando as mulheres nos ombros, compondo um retrato da fragilidade da mulher na sociedade patriarcal.

Essa abordagem da condição feminina também é uma característica da coreografia de Pina Bausch. Criada em 1975, quando Pina iniciava sua trajetória à frente da Tanztheater Wuppertal, ela também se afastava dos rituais da Rússia antiga. No lugar da representação do rito na natureza, concentrou-se no terror do homem diante da morte. "Pina aborda esta fábula do ritual para trabalhar as relações humanas, tema investigado em toda a sua trajetória", diz Cássia Navas, pesquisadora de dança da Universidade de Campinas (Unicamp) e consultora do Teatro de Dança. Em cena, os movimentos são violentos, evocando a força da chegada da primavera. A criação explora os sentimentos que a partitura da Sagração provocaram em Stravinsky, "uma convulsão imensa, como se toda a terra fosse sacudida em determinado momento".

A batalha entre vida e morte concebida por Pina Bausch acontece sobre um palco coberto de lama, representando uma arena arcaica. Aos poucos, a lama se aloja nos pés descalços, nas calças pretas e nos peitos nus dos bailarinos, nas camisolas transparentes, cor da pele, das mulheres. Em cena, um casal se destaca dos demais - fisicamente e pela diferenciação do figurino: a mulher veste camisola vermelha. Após uma dança frenética do coro, em movimentos que trabalham braços e pernas semiflexionados e buscam a terra ao mesmo tempo em que expressam grande tormenta, o casal em destaque se divide. O homem junta-se aos demais, deixando sua companheira solitária, entorpecida pelo medo.

"A Sagração da Primavera foi um divisor de águas não só para a dança, mas para a história da arte", diz a pesquisadora Cássia Navas. Para Luis Arrieta, coreógrafo e bailarino argentino radicado no Brasil que encenou sua própria versão da obra em 1985, a música de Stravinsky é "dotada de força e essencialidade incomuns". Segundo ambos, de Nijinsky a Pina Bausch, a ênfase na sexualidade sempre foi uma constante, com movimentos pélvicos, violentos e curvados, dotados de extrema intensidade. "Cada coreógrafo abordou a força primordial da vida na sua criação, situando-a na sua cultura, na sua história, no seu tempo. E todos endossaram os gestos primeiros de Nijinsky", diz Arrieta.

Maurice Béjart, Martha Graham e Pina Bausch foram, cada um a seu modo, inovadores na arte da dança. A alemã chegou a promover uma verdadeira revolução na linguagem ao aproximá-la da arte teatral. Nos primeiros anos de sua carreira, muitos bailarinos se recusaram a trabalhar com ela, e, em suas primeiras peças, pessoas saíam do teatro batendo as portas. Aos poucos, no entanto, a arte inovadora desses três criadores foi entendida e absorvida ao longo de um século - o 20 - em que a vanguarda se tornou o mainstream. No dia 29 de maio de 1913, a vaia mostrou que Stravinsky e Nijinsky estavam no caminho certo - o da contestação. Estabelecido o mito inaugural da vanguarda, vários artistas certamente sonharam com uma vaia assim. Já há algum tempo, no entanto, ela não é mais possível - e o fato de Martha Graham, Maurice Béjart e Pina Bausch nunca terem sido apupados por suas Sagrações é uma prova disso.

Café Müller e A Sagração da Primavera. Coreografia de Pina Bausch. Com Pina Bausch Tanztheater Wuppertal. Teatro Alfa (rua Bento Branco de Andrade Filho, 722, Santo Amaro, São Paulo (tel. 0++/11/5693-4000). Quando: 5a e sáb., às 21h, e sex., às 21h30. De 24 a 26/9. De R$ 40 a R$ 200.

Fontes: http://images.google.com.br/imgres?imgurl=http://4.bp.blogspot.com; Wikipedia; Gabriela Mellão (jornalista e dramaturga, autora da peça Minha Loucura É o Amor da Humanidade. Bravo Online); Itamar Vidal Junior -
Mestre em Artes pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista


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