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Dave
Brubeck ainda desafia o ritmo
O documentário
Rediscovering mostra um jazzista religioso
e alegre que escapa ao esteriótipo do viciado.
No documentário
de Hedrick Smith, feito para a PBS em 2001, que a Indie Records
coloca agora no mercado em DVD com o título de Rediscovering,
há cenas históricas da vida do pianista e compositor
Dave Brubeck recuperadas de filmes caseiros. É possível
extrair delas alguns dados preciosos sobre a formação
do caráter não só do músico, como
do homem que renovou a linguagem do jazz - sempre fiel ao
espírito ecumênico de usar a música para
unir etnias e difundir o amor ao próximo. Esse é
o principal traço de sua personalidade, segundo seu
amigo brasileiro, o maestro e pianista João Carlos
Martins, que vai tentar convencer o músico americano
a tocar aqui no ano que vem(2006) com sua Bachiana
Chamber Orchestra.

"Quando
a Time o colocou na capa, em 1954, ele e Duke Ellington estavam
no mesmo hotel em Denver e Duke bateu à porta de seu
quarto, numa manhã de sábado, colocando a revista
em sua mão." Brubeck confirma a história
de diz que quase morreu de vergonha. Martins completa "Ele
me disse que foi o dia mais alegre e mais triste de sua vida,
porque achava que Ellington merecia estar em seu lugar na
capa." A cena se repetiria anos mais tarde quando uma
equipe alemâ filmava Brubeck e Martins na casa do primeiro,
em Connecticut, para um documentário sobre o pianista
brasileiro. "Eu estava em pânico por tocar ao lado
dele e Dave me acalmou, dizendo que ele é que deveria
se sentir assim."
Essa modéstia
passa tanto na entrevista feita pelo Estado por telefone,
como nos depoimentos a Hedrick registrados no DVD. Smith acompanha
o músico em gravações, ensaios e, principalmente,
em sua casa, lembrando da infância que teve ao lado
do pai rancheiro e de sua mãe pianista. Brubeck estudou
veterinária antes de se decidir pelo jazz. Queria mesmo
é ser caubói como o pai, mas veio a guerra e,
sob as ordens do general Patton, o músico foi enviado
à Europa para lutar contra os nazistas.
Em Rediscovering,
a vida musical de Brubeck, claro, ganha uma dimensão
maior. A experiência com seu quarteto, formado em 1951
com Paul Desmond(sax alto), Eugene Wright(contrabaixo) e Joe
Morello(bateria), é analisada em entrevistas com os
remanescentes do grupo. Brubeck conta como foi composto o
maior sucesso do quarteto, Take Five, gravado em seu disco
mais popular até hoje, Time Out, de
1959 e, modestamente brinca com o entrevistador, que lembra
como parte da crítica foi resistente a todas aquelas
passagens bruscas e ao ritmo irregular da peça. Brubeck
admite que, talvez tivesse mesmo dificuldades para manter
o tempo em 5/4, como observou um crítico após
um concerto no Carnegie Hall. Mas ele tentou arduamente, admite,
irônico.
Outro
aspecto que chama a atenção, além da
modéstia, é a união familiar dos Brubeck.
Dave sempre respeitou a opinião dos filhos. Quando
se converteu ao catolicismo e começou a compor música
religiosa, seis meses após a dissolução
de seu quarteto, em 1967, ele começou a receber propostas
de igrejas, mas, sempre ouvindo os flhos, tentou incorporar
em suas composições as pesquisas musicais de
todos eles com etnias fora da América. A missa To
Hope, por exemplo, encomendada pelo seminário
católico Our Sunday Visitor, era para ser uma simples
cantata que incorporasse elementos da música indígena
americana e do jazz. Acabou introduzindo novos sons, sendo
possível identificar entre eles a influência
das culturas espanhola e hebraica.
O DVD
Rediscovering é mais que um tributo a um dos maiores
músicos americanos de todos os tempos. Seu maior mérito
é o de revelar a personalidade de Dave Brubeck como
um pianista que se manteve fiel ao experimento musical sem
se converter ao esteriótipo do músico de jazz
caído na sarjeta, consumidor de drogas e vestido de
mendigo. A felicidade de Brubeck transparece em cada nota
tocada pelo pianista em Rediscovering. Depois de meio século
de estrada, o músico que quase quebrou o pescoço
e morreu na praia de Waikiki em 1951, continua firme no comando
da onda.
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Fonte
: "Dave Brubeck ainda desafia o ritmo" - Antonio
Gonçalvez Filho ( O Estado de S.Paulo 06/11/05)
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