Shane
Um
filme memorável sob todos os aspectos. O universo
do Oeste visto oníricamente idealizado pelos
olhos de uma criança.
''Shane''
é talvez um dos faroestes mais populares que
Hollywood já produziu - no caso, a Paramount,
que realizou este filme para homenagear o aniversário
de 80 anos de seu fundador, o húngaro Adolph
Zukor (morto em 1976, com 103 anos de idade).
Já
se passaram mais de 50 anos desde que Shane irrompeu
nas telas para preencher integralmente os sonhos do
menino Joey. Rodado em 1951, mas lançado no cinema
somente dois anos mais tarde, o western "Os brutos
também amam" começa com uma imagem
emblemática do gênero: o mocinho errante
(Alan Ladd) chega à fazenda em que Joey (Brandon
De Wilde) vive com o pai e a mãe. Jean Arthur
logo se sente atraída por aquele forasteiro de
maneiras finas, que será um pouco o Lancelot
de um triângulo amoroso apenas insinuado. O pai
(Van Heflin) faz dele o ajudante, que, num momento decisivo
da história, recorrerá à força
das armas para livrar a família - e o vale inteiro
- do mal encarnado por outro pistoleiro, Wilson (Jack
Palance). No final, concluída sua missão,
Shane partirá de volta para as montanhas, refazendo,
em sentido inverso, a trajetória do começo.

Muitos
críticos o vêem por isso como uma encarnação
do próprio Cristo, vindo à Terra para
uma nova crucificação. A interpretação
não é de todo descabida, pois George Stevens
(1904-1975) era mesmo um cineasta cristão, obcecado
pelos temas do pecado original e da redenção
como provam a sua versão de "Uma tragédia
americana", de Theodore Dreiser - "Um lugar
ao sol"(A place in the sun), Oscar de direção
de 1951 -, e também "A maior história
de todos os tempos", em que fez do bergmaniano
Max Von Sydow o seu Jesus Cristo. Não menos polêmica
é a classificação de "Os brutos
também amam" como o mais clássico
dos westerns clássicos. É a tese que defendem
críticos como Will Wright, Robert Warshaw e Paulo
Perdigão. Todos - Warshaw no seu ensaio "The
westerner", ao qual Paulo Perdigão não
deve ter sido alheio ao escrever "Western clássico:
gênese e estrutura de Shane" - tentam provar
que o filme e o personagem contêm a própria
essência do gênero.

As
passagens por aquele território haviam sido desbravadas
pelo lendário Kit Carson nos anos de 1840, caçador
e guia de alta fama que conhecia o Oeste como a palma
da mão. Tornou-se caminho obrigatório
para quem marchasse pela trilha do Oregon, um dos últimos
rincões à beira do Oceano Pacífico
a serem integrados ao restante da União norte-americana,
em 1850. No tempo em que filme se passa, a população
branca do território era insignificante, mal
ultrapassando vinte mil moradores, mas nos dez anos
seguintes saltaria para mais de 60 mil.
Sua
geografia diversificada, onde esplêndidas cordilheiras
intercalam vales majestosos e despovoados, também
atraiu bandoleiros como os célebres foras-da-lei
Butch Cassidy e Sundance Kid, líderes da gangue
do Hole-in-the-Wall, a quadrilha do buraco, dedicada
a assaltar os trens da Union Pacific. Igualmente foi
cenário de uma terrível batalha racial
entre os trabalhadores chineses, contratados pelos donos
das minas de carvão como fura-greves, e os mineiros
do sindicato Knights of Labor, os cavaleiros do trabalho.
Guerra que culminou no trágico incidente de Rock
Springs, de 1885, ocasião em que os coolies orientais
foram massacrados pelos brancos.

Entre
os diversos conflitos que se intercruzam no filme de
George Stevens (como duelo final entre Shane e Wilson,
paradigma do mal, o pistoleiro contratado por Ryker
para assustar os colonos e pô-los a correr), está
subjacente o que havia separado os americanos durante
a Guerra da Secessão (1861-65): o embate da Propriedade
contra o Trabalho.

Shane,
na verdade um ex-pistoleiro que tentava mudar de vida,
é o cavaleiro andante que desequilibra a situação.
É a versão faroeste do mito do herói
medieval que coloca-se ao lado dos fracos e dos oprimidos.
No filme de Stevens ele surge como um campeão
da ordem democrática a ser instalada nos Estados
Unidos no pós-guerra civil, favorável
aos posseiros e colonos que vinham tentar a vida na
América.
Impressiona
que um roteiro assim engajado (é de A.B.Guthrie
baseado na novela de Jack Schaefer, "Shane",
1949) como foi "Shane" tenha sido rodado em
Hollywood no começo dos anos 50, em plena Era
Macarthista, quando facilmente poderia ter sido denunciado
ao comitê de atividades antiamericanas como propaganda
subliminar comunista. Independentemente das pancadarias,
das fantásticas lutas a soco e a tiros, a conclamação
para que os mais fracos se unam e resistam ao despotismo
dos mais fortes é a marca ideológica do
filme. Shane, porém, como determina a mitologia
do andante destemido, tem como destino reparar as injurias
do mundo e não pode fixar-se em lugar nenhum.
No final ele é acompanhado pelo olhar do garoto
Joey quando galopa desaparecendo no rumo das montanhas
distantes do Wyoming, em busca de outras aventuras ou
da morte.

Título
Original: Shane
Tempo de Duração: 118 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1953
Estúdio: Paramount Pictures
Distribuição: Paramount Pictures
Direção: George Stevens
Roteiro: A.B. Guthrie Jr., baseado em estória de
Jack Schaefer
Produção: George Stevens
Música: Victor Young
Fotografia: Loyal Griggs
Direção de Arte: Hal Pereira e Walter H.
Tyler
Figurino: Edith Head
Edição: William Hornbeck e Tom McAdoo
Elenco
Alan
Ladd, Jean Arthur, Van Heflin, Brandon De Wilde, Jack
Palance, Ben Johnson, Edgar Buchanan, Emile Meyer, Elisha
Cook Jr., Douglas Spencer, John Dierkes, Ellen Corby,
Paul McVey, John Miller, Edith Evanson, Leonard Strong,
Ray Spiker, Janice Carroll, Martin Mason, Helen Brown,
Nancy Kulp, Ewing Miles Brown, Bill Cartledge, Chester
W. Hannan, George J. Lewis, Rex Moore, Howard Negley,
Charles Quirk, Steve Raines, Jack Sterling, Beverly
Washburn, Henry Wills
Críticas
Hélio
Teixeira Orgolini Jr. : "É um faroeste de
ritmo lento e grande construção psicológica."
Alexandre
Koball : “Shane parece ser o típico mocinho
de faroestes. É um pouco mais misterioso que
a maioria, na realidade, oque o torna mais humano (não
é o herói invencível comumente
encontrado no gênero). Prefere não se exibir,
apenas quando os valentões realmente o obrigam
a isso. O filme tem uma fotografia linda e um clima
estonteante.”
Antônio
Ronaldo Jatene : "Filme extraordinário,
que transcende a mágica do próprio cinema."
Jurandir
B. Lima : "É preciso que se assista para
que se comprove o porquê deste filme ser classificado
o mais perfeito filme de western já feito. "
José
Afonso Zerbini : "Talvez um dos mais belos já
feitos. Sem dúvida é o mais perfeito dos
westerns."
Marcos
Petrucelli : “Baseado no romance de Jack Schaefer,
com roteiro de A.B. Guthrie Jr. e Jack Sher, trata-se
de um faroeste que desenvolve uma narrativa psicológica,
dramática, mas cujo subtexto deixa evidente o
sentido maniqueísta da obra. É sem dúvida
um clássico, realizado de forma brilhante por
Stevens, que está entre os melhores diretores
do gênero. ”
José
Cláudio C. Carvalho : "Simboliza a história
americana."
Nílson
Pavan : "O melhor western que eu já assisti,
emocionante. Para mim a despedida final entre o pistoleiro
e o garoto é a cena mais pungente da história
do faroeste."
J.
Bosco : "Uma revolução no gênero
faroeste."
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Livro
publicado sobre o filme : “Shane”
– Paulo Perdigão – Editora Rocco
“Com a autoridade de quem entrevistou o cineasta
George Stevens, visitou os sets de filmagem e teve acesso
aos arquivos que registraram os bastidores da produção
de 1953, Paulo Perdigão realiza em Shane um aprofundado
estudo dos elementos que constituem a mitologia do western.
O olhar apurado do experiente crítico de cinema
e programador durante décadas de filmes da Rede
Globo investiga com densidade os mecanismos de linguagem
do cinema narrativo clássico que teve no diretor
de Um lugar ao sol e Assim caminha a humanidade um de
seus mais requintados artífices. Por considerar
inadequado, Perdigão rejeita o título
em português do filme, Os brutos também
amam.”
Fontes
: “Educação e Arte” / Voltaire
Schilling; "Shane, o redentor do Oeste"/Luiz
Carlos Merten; UOL; Cineclick; CNN; Cinenews - Por dentro
da telona; www.terra.com.br |