Mistérios e paradoxos de Chopin, para Freire

A eloquência de Nelson Freire ao piano costuma ser inversamente proporcional à sua capacidade de falar de si mesmo e de sua relação com a música. Mas ele é categórico. "Não imagino minha vida sem Chopin." Freire, portanto, deve estar no melhor dos mundos. Esta em cartaz na Sala SP, em São Paulo, um festival dedicado ao compositor, de quem se lembra em 2010 o bicentenário de nascimento - e isso apenas alguns dias depois da chegada ao mercado brasileiro e internacional de seu novo disco para o selo Decca, com a integral dos Noturnos, gravada em dezembro DE 2009 na Inglaterra.


Nelson Freire

"Martha acha que ele é o compositor mais difícil", continua o pianista, citando Martha Argerich, colega de instrumento e de fama. "Eu lembro com muito carinho das conversas que tínhamos e temos até hoje sobre Chopin." Não há aí um paradoxo? Chopin não é, afinal, um dos compositores preferidos do público, autor de melodias que extravasam o mundo dos clássicos? "O fato é que com sua música tudo soa muito natural, espontâneo, os sons vão direto ao coração das pessoas. Mas, para o pianista, as obras exigem um trabalho sem igual, entrega completa e muito tempo de dedicação", diz ele. E completa: "Há muitos paradoxos em sua obra".

Tarefa do pianista é desvendá-los, "ou ao menos tentar". Nesse sentido, os Noturnos servem de exemplo. O plano original era aproveitar o bicentenário para lançar os dois concertos para piano do compositor, que seriam gravados com o maestro Riccardo Chailly e a orquestra do Gewandhaus de Leipzig, mesma trupe com quem registrou os concertos para piano de Johannes Brahms. "Mas houve algum problema na agenda, o tempo foi passando e nos demos conta de que não daria tempo de fazer. Foi então que surgiu essa outra possibilidade."

Os 20 Noturnos foram escritos ao longo de toda a vida criativa de Chopin, de 1833 a 1849 (há outros publicados postumamente) - e, entre muitas qualidades, costuma-se chamar atenção para a influência que a ópera tem nessas peças, que exigem do intérprete "fazer o piano cantar". Freire fala ainda em mistério e expressividade. "Não há como não se encantar com a riqueza que essas peças sugerem", diz. "Cada um deles tem uma característica, um ambiente muito próprio, no qual Chopin explora elementos como poesia, drama, sedução, sensualidade."

  Chopin Nocturne Op.06 No 20

  Chopin Nocturne Op. 27 No.1 - Larghetto in c Sharp Minori

  Chopin Nocturne Op.48 No 2 - Daniel Barenboim

O pianista lembra que o primeiro contato com a obra foi com Guiomar Novaes, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. "Uma revelação. Eu tocava Chopin desde menino, mas nunca tinha percebido a obra daquela maneira." Freire perdeu as contas do número de gravações de Guiomar tocando a peça, feitas ao vivo. Para nós mortais, há apenas uma edição comercial, importada, em que ela toca ainda o Concerto nº 4 de Beethoven, uma de suas especialidades. Não é fácil de achar, mas vale o esforço. E afinal, o que havia de tão especial na interpretação de Guiomar? "Era diferente de tudo, nunca havia ouvido algo igual. E desde então esse concerto acabou virando meu preferido, ele é misterioso, e isso para mim significa que ele é autenticamente chopiniano."

Já se falou à exaustão que os noturnos são para Chopin o seu modo mais íntimo de criação musical. Talvez por isso mesmo - e Nelson demonstra isso com um refinamento notável -, ouvi-las em conjunto pode nos dar a chave para a compreensão da arte pianística do compositor, já que ele conviveu com o gênero dos 17 anos, quando ainda morava em Varsóvia, até a morte em Paris em 1849.

A recusa ao virtuosismo; o gosto pelo detalhe; a construção dos longos arcos que constituem as melodias características dos noturnos; o entrechoque do acompanhamento aparentemente imutável da mão esquerda, com frequência em tapetes de arpejos, e o rubato aplicado com extrema parcimônia no fluir da mão direita; o timbre brilhante e cristalino que extrai do piano - todos esses são atributos que fazem desta gravação um modelo e referência (e olhem que há centenas de registros dos noturnos, incluindo leituras iluminadas como as de Rubinstein, Arrau, Ashkenazy, Maria João Pires, Barenboim e Pollini, entre tantos outros).

Quem sabe a maior qualidade desta versão de Nelson Freire seja o equilíbrio. Ele jamais descamba para o sentimentalismo barato que acomete mais de um dos ilustres citados; nem se deixa arrebatar tentando acentuar coisas que não existem nos noturnos, tal como a virtuosidade, por exemplo. É por causa dessa ambivalência que essas peças são até certo ponto desprezadas no conjunto da sua produção pianística, tidas como meros produtos de consumo, destinados às moçoilas bem-nascidas dos salões parisienses e às casas que em cada vez maior número compravam o seu próprio piano. Peças musicais fáceis, simples, destinadas a amadores.

  Chopin Nocturne Op. 9 No. 2 - Yundi Li

  Chopin Nocturnes Op.9 No.3 - Artur Rubinstein

Chopin criou temas ao mesmo tempo raros e naturais, para um gênero efêmero, destinado a não viver mais do que algumas semanas ou meses como peças favoritas nos salões parisienses. Transformou pecinhas de consumo em seu laboratório de experimentação para gêneros mais ambiciosos, como os scherzi, as sonatas e a barcarola. Como Chopin, Nelson também possui um toque ao mesmo tempo raro e natural.

 

Frederick Chopin: Genius or monster?

Everyone knows Chopin, yet of all the great composers he's the least well-known. This is thanks partly to the myths that have accrued about him, and partly to the paradoxes in his music and character. The stock images are of the staunch Polish patriot, and of the hypersensitive aesthete coughing his heart out as he pens his romantic melodies. Yet in truth Chopin was a political arch-conservative, an artistic and social snob, and a dandy who hated contact with the rest of the human race.


Fréderic Chopin

Moreover, though his music may have been revolutionary, he was a stern Classicist, despising the Romanticism of his friends Liszt, Schumann and Mendelssohn. Meanwhile, his phenomenal reputation as a virtuoso rested on a mere 30 concerts. None of this fits the stereotype.

Chopin's character still troubles even his most ardent champions. "A very strange person, very hard to like," is the verdict of Andras Schiff, who plays his music with rare insight and sensitivity. Anti-Semitism was only one of Schiff's charges: after researching him in depth for a biographical film, he found he didn't like the man at all.

This feeling would have been echoed by the 19th-century Polish poet Adam Mickiewicz, for whom Chopin was a "moral vampire". Mickiewicz was one of two Polish exiles who called on Chopin at the height of his fame, and he didn't even answer the door to them. Chopin's heart had bled for his native Poland in 1831 as the Russians advanced on Warsaw, but all thoughts of revolution, indeed of any kind of political instability, horrified him. As an exile, he desperately needed the reassurance of a fixed social order.

Chopin's Polish childhood had been very happy: he was feted as a prodigy, and loved by his family and friends. But ever since his talented elder sister Emily died when he was 14, tuberculosis had burdened him with the guilt of the survivor. His addiction to solitude went hand-in-hand with a fanatical dandyism, but his need for exquisitely tailored waistcoats, gloves, and boots was probably dictated by something deeper and darker than mere vanity. In her brilliant book Chopin's Funeral, Benita Eisler argues that this dandyism was a flight from rage and melancholy. For Schiff, the freshly laundered white gloves that Chopin put on each day signalled his horror of human contact.

And Chopin's treatment of Schumann, who eulogised him, was sadistic: when Schumann sent him one of his own works, Chopin contemptuously dismissed it as "no music at all". Liszt had been Chopin's flatmate but Chopin's envy of Liszt's success, and his open contempt for the "vulgar" cadenzas Liszt inserted into Chopin's concerti, put an end to their relationship.

Though Chopin had droves of fainting female fans, little is known about his sex life before his fateful relationship with the writer George Sand. So it's no surprise that attempts should have been made to embellish the myth, most notably by the "discovery" in 1945 of some scatological letters allegedly sent by Chopin to the Polish singer Delphina Potocka. Though these are now generally regarded as fake, a number of biographers have been taken in by them.

Sand seems to have given Chopin the stability and maternal love he needed: their ill-starred sojourn on Majorca resulted in a rich crop of compositions. Sand may have been heroically supportive in the early years of their relationship, but her eventual dismissal of him, after robbing him of his dignity, was breathtakingly callous. And his end had terrible pathos: dying destitute at the smartest address in town, publicly shunned by a lover to whom his devotion had never wavered.

Since much of Chopin's oeuvre is largely unknown today, Radio 3's Chopin Experience is going to be at least as interesting as the BBC's wall-to-wall efforts with Beethoven, Bach, and Tchaikovsky. Chopin's commodification by advertisers will here get a comprehensive riposte.

If his music has an exhilarating freshness and irresistible charm, that's just his genius: phobic in front of crowds, he was happiest performing for intimate gatherings of friends, and this crucially shaped his art. His style of playing was by all accounts infinitely subtle, masking huge technical difficulties with a beguilingly velvet touch. The sound-world he created in his nocturnes paralleled the visual world of Whistler and the poetic miasmas of Baudelaire; the heroism he evoked in his polonaises, the epigrammatic poetry of his preludes, the operatic eloquence of his concertos – all this was completely new, and still startles today.

  Chopin Nocturne Op.15 No.3i

  Chopin Nocturne Op.55 No. 1 - Vladimir Horowitz

 

Discografia Chopin


Fontes: O Estado de S.Paulo; .Independent.co.uk; Getty Images

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