Um território
livre, um reino onde os limites não existem e tudo
pode ser celebrado, porque a estrada dos excessos é
o que leva ao palácio da sabedoria. Um lugar onde vive
um herói, um jovem de imenso talento e rebeldia. No
século 19, o personagem que cabia nessa descrição
era o poeta George Gordon Byron, o Lord Byron. No início
do século 21, seu correspondente seria Pete Doherty,
o líder do grupo Babyshambles, disposto a provar ser
o cenário da música pop o que foi a Itália
para toda uma legião de poetas românticos: o
espaço para a coragem e a diversão. De acordo
com esse pensamento, se poetas do século 19 como Byron,
Percy Shelley ou William Blake tivessem surgido hoje, estariam
formando bandas e se apresentando em festivais - e não
promovendo a poesia apenas em livros.
Os Babyshambles
lançaram Shotter's Nation no final de outubro, o segundo
trabalho do grupo. O álbum se mostrou uma surpresa.
A principal delas, o simples fato de existir. Nas bolsas de
apostas de Londres, Pete Doherty é tema de uma pergunta
bizarra: por quanto tempo ele conseguirá permanecer
vivo? Os apostadores têm dado em média oito anos,
e é muito fácil observar a flutuação
desse mercado. Basta seguir o rastro deixado diariamente por
Pete nos jornais de escândalos. Em um dia, ele deixou
sua namorada, a modelo Kate Moss. Na noite seguinte, estão
mais uma vez juntos, com cocaína e heroína,
provavelmente numa clínica de desintoxicação.
E lá está Pete, 28 anos, saindo ou entrando
em uma prisão. Como afirmou à imprensa britânica:
"Cada um destrói aquilo que ama". E ele parece
se adorar.
BYRONIANO
A frase dita por
ele é uma criação do escritor Oscar Wilde
(1854-1900), mas a atitude é a mais típica de
Pete, que nas ocasiões mais inesperadas (como diante
de um juiz em um tribunal) responde a questões sobre
sua vida ou carreira recitando poemas ou frases de textos
conhecidos da literatura britânica. Quando ele recebeu
em 2004 um prêmio da revista inglesa New Musical Express
(NME), agradeceu na cerimônia de apresentação
com o poema Suicide in the Trenches ("suicídio
nas trincheiras"), de Siegfried Sas soon (1886-1967),
que possui este significativo verso: "Ele colocou uma
bala na cabeça/e ninguém falou dele outra vez".

Babyshambles play
the Boogaloo Bar, North London: (l-r) Mick Whitnall, Adam
Ficek, Pete Doherty, Drew McConnell. Photograph: Richard Skidmore
O mundo dos Babyshambles,
guiado pelo espírito de Pete, é feito não
apenas de referências à poesia inglesa e aos
feitos dos grandes poetas do Romantismo. A questão
passa a ser outra: recuperar esse espírito perdido,
no qual a poesia está no modo como se escolhe viver
e os poemas são a ilustração dessa existência.
E sua plataforma é a mitologia em torno do nome Albion.
Assim era chamada a Grã- Bretanha em seus primórdios.
Mas é também um país heróico,
habitado por gigantes, segundo a imaginação
do poeta William Blake (1757-1827) em seus versos. O primeiro
CD dos Babyshambles se chama Down in Albion (2005), e The
Books of Albion é o nome de sua coleção
de escritos, publicada neste ano.
Pete Doherty
é filho de um oficial militar inglês, e aos 16
anos ganhou um concurso de poesia, que o levou a excursionar
pela Rússia em leituras promovidas pelo governo inglês.
Na Universidade de Londres, sua escolha foi Literatura Inglesa,
mas abandonou o curso antes do terminar o primeiro ano. Depois
de um breve período trabalhando como coveiro, seu interesse
se transferiu para a música. Com o também guitarrista
Carl Barat, Pete formou o grupo The Libertines, uma verdadeira
mania na Inglaterra entre 1997 e 2004. Durante esse período,
Pete e Carl passaram a se definir publicamente como verdadeiros
libertinos. Mais do que um fenômeno da música,
Pete começou a encarnar o papel do herói byroniano
para críticos surpresos e adolescentes a seus pés.
O herói
byroniano (definido a partir da produção do
poeta inglês, que viveu entre 1788-1824) possui as seguintes
características: tem grande talento, demonstra uma
imensa paixão, se distancia da sociedade e suas instituições,
promove a rebelião, esconde um passado difícil,
é arrogante e age de maneira autodestrutiva. Esse perfil
é uma possível (e perfeita) descrição
de Pete em uma coluna de fofocas - nesse caso, a intuição
do músico é precisa. Se Byron estivesse vivo
na era das celebridades, teria o mesmo destino, em razão
de sua agitada existência: inúmeros casos amorosos,
drogas, uma fixação sexual por sua meia-irmã,
Augusta Byron, e seu envolvimento na guerra de libertação
da Grécia, então dominada pelos turcos.
Essa estreita
e assumida relação entre Pete Doherty e o romantismo
permeia todo o álbum Shotter's Nation. Há uma
presente e melancólica insatisfação com
os rumos de uma sociedade, a inglesa, pálida, conformada,
sem senso de aventura. Em Side of the Road, ele se vê
como vítima dessa mesma nação desgovernada:
"Meio morto/um terço vivo/um quarto pulsando no
canto da estrada/ Não fique cercado pelas pessoas que
você odeia".
Pete,
com seus Babyshambles, navega entre os mais repetidos clichês
do rock (jovem promissor se destrói com drogas e a
máquina do sucesso) enquanto projeta um desejo muito
maior, o de aproximar sua vida e poesia de alguns dos mais
potentes e corajosos nomes da cultura, os poetas românticos,
isso no momento na qual uma pretensão como essa pode
rapidamente ser reduzida ao ridículo pela lente da
câmera fotográfica de um paparazzo. O que o amanhã
pode lhe reservar? "Eu tenho uma péssima relação
com o futuro. Nós não nos entendemos. Na verdade,
nos ignoramos", disse ele à mesma NME que o premiou.
Desta vez, não se trata de uma citação.
É um Pete Doherty original.