O Retrato do Doutor Gachet

Há algum tempo uma conhecida tela de Vincent van Gogh, "Rapaz de quepe", foi vendida por 15 milhões de dólares, Nada a estranhar. Um de seus girassóis estava cotado a 35 milhões. O espanto seria do próprio pintor, se pudesse presenciar um desses leilões. Van Gogh morreu em 1890 sem ter vendido um só quadro na vida. Não tinha dinheiro nem para comprar tinta. Produziu cerca de 900 pinturas e 1100 desenhos. Perto de morrer, presenteou seu médico com uma tela que foi usada durante anos para tapar buraco num galinheiro.

O Retrato do Doutor Gachet é uma das mais famosas pinturas de Van Gogh. É notável por vários razões. Foi pintado nos últimos meses da vida de Vincent e o assunto foi motivo de muito controvérsia. Como era o competente Doutor Gachet ? O que quis dizer Vincent quando ele escreveu ao seu irmão Theo ".. ele é mais doente do que eu" ? Para sua irmã escreveu : “Encontrei em Gachet um verdadeiro amigo..quase como um irmão”.

Em 15 de maio de 1990 O Retrato do Doutor Gachet, no qual a melancolia se une à expressividade de seu rosto, foi arrematado em apenas três minutos por US$ 82.5 milhões, por Ryoei Saito, o segundo maior fabricante de papel do Japão. Não se trata de um retrato por semelhança “fotográfica”, mas sim de uma imagem impetuosa, recorrendo à cor como meio de expressão e como forma de engrandecer o carácter, procurando penetrar psicologicamente para revelar a alma do retratado. Dizia o próprio Van Gogh: “Estou trabalhando no seu retrato; usa um boné branco, é muito loiro, muito claro, mesmo a pele das suas mãos é muito rosada; veste um casaco azul; o fundo é azul-cobalto; está apoiado numa mesa vermelha”. Observe a mesa de Gachet. A planta que aparece é a "dedaleira" da qual extrai-se a droga digitalis. No século 18 a dedaleira chegou a ser usada no tratamento da epilepsia, mas não há registro de que ela tenha sido receitada e usada por Van Gogh. Segundo o site Gerolimicht : "Depois de prolongada destilação, esta planta tóxica e alucinógena tem excelente ação sobre as feridas externas. O mesmo extrato, tomado em doses homeopáticas, é útil contra as palpitações do coração, os vômitos e a opressão". Alguns consideram que isto pode ser um símbolo para a profissão de Gachet, para outros é uma indicação que o próprio Van Gogh estava fazendo em relação ao médico que o tratava. Esta pintura reflete uma atitude mais tranquila e reflexiva, um desejo de ordem e calma; Van Gogh refreia a sua imaginação, desaparecendo os arabescos, redemoinhos e as linhas exaltadas das telas feitas em St.-Rémy. O retrato reflete o carácter melancólico, moderno e intelectual do Dr. Gachet.

Cartas de Van Gogh

Carta de dezembro de 1881 (Van Gogh com 28 anos) : "Eu creio que ele não lhe vem mesmo ao espírito senão quando começamos a nos fazer uma idéia de Deus repetindo a conclusão que Multateli tirou em sua Prece do ignorante: "Oh! meu Deus, não há Deus!" Tome o Deus dos pastores; eu o acho morto. Sou um ateu por isto? Os pastores me consideram como tal - que seja - mas eu amo, veja você, e como eu poderia conhecer o amor se eu não vivesse e os outros não vivessem? Já que nós vivemos, tudo isto é maravilhoso. Chame isto de Deus ou de natureza humana, ou o que quer que você queira, porque em cada sistema filosófico existe alguma coisa para a qual me será impossível de dar uma definição, ainda que este núcleo seja muito vivo e muito real; isto é que é Deus ou seu equivalente, você compreende?"

Última carta escrita por Vincent encontrada em seu bolso de suicida : " Meu caro irmão, obrigado por sua gentil carta e pela nota de cinqüenta francos que ela continha. Já que as coisas vão bem, o que é o principal, por que insistiria eu em coisas de menor importância ? Por Deus! Provavelmente se passará muito tempo antes que se possa conversar de negócios com a cabeça mais descansada. Os outros pintores, independente do que pensem, instintivamente mantêm-se à distância das discussões sobre o comércio atual. Pois é, realmente só podemos falar através de nossos quadros. Contudo, meu caro irmão, existe isto que eu sempre lhe disse e novamente voltarei a dizer com toda a gravidade resultante dos esforços de pensamento assiduamente orientado a tentar fazer o bem tanto quanto possível - volto a dizer-lhe novamente que sempre o considerarei como alguém que é mais que um simples mercador de Corot, que por meu intermédio participa da própria produção de certas telas, que mesmo na derrocada conservam sua calma. Pois assim é, e isto é tudo, ou pelo menos o principal, que eu tenho a lhe dizer num momento de crise relativa. Num momento em que as coisas estão muito tensas entre marchands de quadros de artistas mortos e de artistas vivos. Pois bem, em meu próprio trabalho, arrisco a vida e nele minha razão arruinou-se em parte - bom -, mas pelo quanto eu saiba você não está entre os mercadores de homens, e você pode tomar partido, eu acho, agindo realmente com humanidade, mas, o que é que você quer ? "

A palavra é forte, mas, em relação a Van Gogh, não há como não puxar por ela: gênio. Autodidata, incomunicável, marginalizado, sujeito a acessos de loucura. "Preferiria minha loucura à sabedoria dos outros", escreveu em 1883. Gênio e louco. Binômio tão difícil de explicar quanto sua certeza em relação ao seu trabalho. Mais ainda quando se sabe que, até quatro anos antes da frase, em 1879, nem sequer se sabia artista —não havia desenhado ou pintado nada digno de nota, não passava de um pastor religioso fanático, uma personalidade atormentada por paixões fulminantes e infelizes. É assim que o artista emerge nas principais biografias, como "Van Gogh", de Meyer Schapiro (Thames & Hudson, 1985, em inglês). Como compreender que, em pouco mais de dez anos, realizaria uma obra fulgurante ? Uma explosão vulcânica de efeitos duradouros ?

Habitualmente classificado como impressionista, a verdade é que Van Gogh travou contato com as pinturas de alguns deles somente em 1886 , quando já era um artista consumado. É fato que, quando se mudou para Paris, onde viveu por dois anos, aproximou-se de Toulouse-Lautrec (1864-1901), Paul Signac (1863-1935) e Georges Pierre Seurat (1859-1891), entre outros. A experimentação de seus colegas na redução do elenco de cores utilizadas e a busca por uma pintura realizada ao ar livre ("plein-air"), fundada na reverberação da luz nos objetos, alteraram substancialmente sua pintura. Mas seu caminho era mesmo singular. Paralelamente, foi apurando seu desenho, transformando-o num recurso vigoroso, a serviço de composições secas e equilibradas.

Como transpor para a superfície da tela a coisa vista ? Como representar uma simples cadeira se ela é o resultado do trabalho humano efetuado sobre a madeira, uma árvore, um organismo repleto de seiva ? A objetividade com que Van Gogh busca representar o mundo não se esgota na sua aparência superficial, nas pinceladas difusas e diáfanas de alguns de seus colegas impressionistas. A energia que ele capta nas coisas parece conferir energia ao seu gesto , carrega-o de paixão.

A profusão de auto-retratos - 35 realizados entre 1886 e 1889 - aliados à peculiar relação que ele mantém com o próprio corpo, cujo ponto culminante é o episódio da mutilação de sua própria orelha, devidamente retratado posteriormente, coloca Van Gogh como o artista que introduz o próprio corpo como matéria-prima da arte. Em algumas imagens, particularmente aquelas executadas com pinceladas curtas e rápidas e em cores fortes e alternadas, o artista nos coloca diante da evidência de que seu corpo é o resultado de uma coesão fugaz de matéria. Ao par de servir como um termômetro efetivo de sua vida psíquica e de atuar como suporte para o exercício de técnicas pictóricas, o exame continuado e sistemático do próprio corpo entroniza o artista como alguém que testa seus próprios limites, que indaga sobre o enigma da própria existência.

Na casa do Doutor Gachet, na cidade francesa de Auvers, o pintor deslumbrou-se com as paisagens da cidade e voltou a viver mais feliz. Mas a alegria durou pouco. Van Gogh se desentendeu com Gachet, descobriu que o irmão estava com dificuldades financeiras e acreditava então que sua loucura era incurável. Um dia, enquanto pintava ao ar livre, deu um tiro no peito. Quarenta e oito horas depois, a 29 de julho de 1890, morria o grande pintor.

Fontes : "Van Gogh : Cem Anos de Presença" - Nahman Armony ; Folha Online; Memória Virtual; Comciência - "Neurociências"

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