Alice no País das Maravilhas
"Alice no País das Maravilhas", em 3D, de Tim Burton, segundo muitos, é uma versão surrealista e gótica do cineasta. Nessa película Alice retorna, com 19 anos de idade, ao mundo mágico de sua aventura na infância, onde reencontra seus velhos amigos. Parte da filmagem foi realizada na Cornualha, na "Antony House", mansão de interesse histórico (Séc. XVIII), situada próxima a Plymouth.
O autor da estória original foi o escritor Lewis Carrol, que viveu ao norte de Yorkshire, em Croft-On-Tees. Carroll é um autor super prestigiado e polêmico. Excêntrico desde criança, seus gostos alternavam entre ópera, física e lógica, por exemplo. A história é cheia de personagens originais e inesquecíveis, como o chapeleiro maluco, o coelho apressado, os ovos gêmeos, o gato sorridente e os soldados de cartas.

Alice no País da Maravilhas (2010)
Pobre Alice, lutando em vão para encontrar algum sentido naquele país, onde, ao que tudo indica, qualquer padrão lógico parece ter sido banido para sempre. "Eu não quero me envolver com gente maluca", pontua ela. "Mas não há o que fazer! Nós somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca", retruca o Gato, um dos mais populares personagens da célebre fábula, revisitada agora, em três dimensões.
Existem alegorias nos detalhes mais óbvios. E o potente design do universo de Carroll, se evidência pela falta de proporção da personagem central em relação aos objetos que a cercam - fator que os faz ainda mais presentes e enigmáticos.
Encara-se o mundo interior, real, verdadeiro e poderoso, que clama sua existência e sua própria lógica.

Alice no País da Maravilhas (2010)
Quem ela é, significa o que ela sempre foi, mas perdeu ou esqueceu no ambiente social onde é dito às crianças como devem pensar, comportar-se e sentir. Na educação tradicional (seja na família ou na escola), o desenvolvimento coincide com formatos em moldes pré-determinados. Os papéis sociais são lentos assassinos a sangue frios. Mas ao mesmo tempo são os papéis que distinguem, e dão luz, vida, alegria aos pitorescos personagens. Se escolheram ser daquela forma, méritos a justiça criadora, mas se foram criados sem consulta, a diferença não é exercida, pois estão satisfeitos do mesmo jeito.
Não existe nesse mundo a face feia da consciência coletiva que impõe papeis e valores, que tenta moldar e julgar, diminuir e barganhar, manipular e destruir a criatividade.

Alice no País da Maravilhas (2010)
A busca de uma identidade é questionada: “Meu Deus, meu Deus! Como tudo é esquisito hoje! E ontem tudo era exatamente como de costume. Será que fui eu que mudei à noite? Deixe-me pensar: eu era a mesma quando me levantei hoje de manhã? Estou quase achando que posso me lembrar de me sentir um pouco diferente. Mas eu não sou a mesma, a próxima pergunta é: ‘Quem é que eu sou?’."
A saída de seu mundo conhecido para a entrada num outro mundo, parcialmente desconhecido (afinal, todos os seres do País das Maravilhas também existem na nossa realidade – com a diferença de que não falam), leva Alice a perder sua personalidade, sua identidade; a menina passa a viver conforme as regras do País das Maravilhas, e quem é ela nesse país? Ora, é a pergunta que a Lagarta faz no Capítulo V: “Quem é você?” A resposta de Alice ilustra uma abordagem metafísica da obra: “Eu... eu... no momento não sei, minha senhora... pelo menos sei quem eu era quando me levantei hoje de manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então. (...) Receio não poder expressar mais claramente pois, para começo de conversa, não entendo a mim mesma.”

Alice no País da Maravilhas (2010)
O novo filme de Burton, baseado nesse livro espetacular, é produzido pela Disney com roteiro adaptado de Linda Woolverton (do primeiro filme de animação indicado a melhor filme da academia, "A Bela e a Fera", de 1991). O elenco é brilhante: Johnny Depp como o “chapeleiro maluco”, Mia Wasikowska como Alice (Mia interpretou magnificamente uma ginasta com tendência a suicidio, na série de TV “In Treatment”), além de Helena Bonham Carter, Anne Hathaway, Alan Rickman, Stephen Fry, Crispin Glover e Christopher Lee. O elenco fala por si só. Assim como a roteirista, o diretor, a produtora, provavelmente os câmeras, e os contra-regras, é tudo um mix do melhor.

Tim Burton e Mia Wasikowska durantes as filmagens de Alice
Os figurinos de Alice no País das Maravilhas são de tirar o fôlego. A direção de arte de Robert Stromberg também é de alto nível: dá grande destaque às cores vivas de cada peça a partir da iluminação. A figurinista Colleen Atwood, que trabalha com Tim Burton há oito filmes, disse que fez toda a sua pesquisa como se fosse para produzir trajes para a vida real. “Acima de tudo, Tim queria que os mundos real e de animação dessem a sensação de um único mundo”, afirmou, em entrevista.
Até 28 de março a versão 3D de "Alice no País das Maravilhas", um dos dois filmes a ocupar o primeiro lugar nas bilheterias internacionais nos primeiros três meses do ano juntamente com "Avatar", encerrou o primeiro trimestre no primeiro lugar pelo quarto fim de semana consecutivo.
O filme da Disney há 15 dias atrás totalizava uma arrecadação de 363 milhões de dólares em todo o mundo, menos EUA e Canadá. Sua bilheteria global estava em 656,1 milhões de dólares.

Tim Burton Behind The Scenes Of Alice In Wonderland
A alta tecnologia aliada a um texto forte, sensível, consegue entreter e, até mesmo, para alguns hiper teóricos, filosofar. É possível lucrar com a complexidade? Até o momento, o pop, a cultura pop tem buscado a simplicidade, as sensações mais básicas, a frugalidade do pensar. Mas seriam mesmo tão frugais? Afinal nessa obra os questionamentos aparecem pela força das palavras e do visual, mas eles estão praticamente em todas obras, escondidos entres clichês e variações de um mesmo tema. |