Grandes
Albuns III

Aqualung - Jethro Tull
Dois
filmes clássicos de Christopher Guest vem a mente
quando se ouve o Aqualung, do Jethro Tull: This is
Spinal Tap e A Mighty Wind. O primeiro é
um falso documentário heavy metal; o segundo retrata
um grupo de folck fictício. De Aqualung em diante,
o Tull passou a ser enquadrado no gênero do primeiro
filme, mas sua inspiração vem do estilo
musical do segundo.
A
faixa-título abre o álbum com o ecletismo
típico da banda. Num primeiro momento, surge o
dedilhar de um violão tranqüilo e um piano
civilizado; no seguinte, é a vez do baixo frenético
e de passagens de bateria - tudo isso coroado por um solo
firme de guitarra. "Cross-Eyed Mary" segue um
padrão mais tradicional. A flauta característica
do vocalista Ian Anderson paira sobre a pulsante linha
de baixo de Jeffrey Hammond e os floreados arranjos orquestrais
de David Palmer. A música, então, se submete
ao reinado da guitarra, embora o piano, os sininhos e
a volta da flauta de Anderson desafiem o rock potente
do núcleo formado por guitarra, baixo e bateria.
As letras de Aqualung se encaixam numa fantástica
narrativa que se desenrola ao longo do álbum e
se baseia, em parte, nas experiências de um sem-teto.
Essa história faz com que a música singular
do disco esteja vinculada a uma mensagem de conscientização,
própria da época. O conceito é estabelecido
pelo texto da contracapa do album - uma leitura distorcida
do primeiro capítulo do Gênesis. Na versão
do Tull da narrativa biblica, o homem criou Deus e, depois,
o Aqualung.
O
disco tornou-se um marco instigante do prog-rock-folk.
Sua temática não impediu que as faixas cheias
de riff fizessem sucesso nas rádios - nem que o
album vendesse milhões de cópias.

Close to the Edge - Yes
Este
album é a apoteose do rock progressivo. Antes de
mais nada, traz o enigmático design da capa de
Roger Dean, numa embalagem que tanto serve para ser admirada
como para enrolar cigarros de maconha. A lista de musicas
é outro destaque com apenas três faixas,
sendo duas em quatro movimentos, numa estrutura semelhante
à de uma sinfonia. Ao tirar o disco da capa, as
letras obscuras e deliciosas de Jon Anderson se revelam
em toda sua glória.
A melodia de Close to the Edge é uma maravilha.
Se o Yes havia mostrado talentos individuais em Fragile,
lançado no mesmo ano, neste álbum a banda
forja um todo mais coeso, alcançando o equilíbrio
entre a estética e a audácia. Sua visão
eclética faz com que o grupo vá de um jazz
furioso ao floreado gótico do orgão, passando
pelo balanço do rock - um passo em falso e tudo
se desmantela. No entanto, o disco apresenta um time de
músicos brilhantes, cada qual procurando ampliar
os limites da linguagem do rock. Os ritmos melódicos
de Bill Bruford e Chris Squire formam a base perfeita
para as linhas da guitarra funky, com pinceladas orientais,
de Steve Howe e para o rococó dos teclados de Wakeman.
No centro está o timbre agudo de Jon Anderson.
Essa mistura podia não ter funcionado, mas deu
certo - e lindamente.
O equilíbrio frágil de seu trabalho era
bom demais para durar. Bruford deixou a banda logo depois
de terminar o LP para se juntar ao King Crimson. O lançamento
seguinte do Yes, Tales From Topographic Oceans - um álbum
duplo com quatro músicas - acabou sendo uma tentativa
ambiciosa demais do grupo para se superar.

C´est Chic - ChIc
A
dance music moderna deve muito ao Chic. Influenciados
pelo Roxy Music e pelo Kiss, assim como pelo R&B,
Nile Rodgers(guitarra), Bernard Edwards(baixo) e Tony
Thompson(bateria) formaram a banda-chave da era disco.
Eles criaram um ritmo fluido e hipnótico que ressoa
até hoje.
C´est
Chic foi o segundo e melhor álbum da banda, impulsionado
por dois singles que ficaram entre os 10 Mais nos Estados
Unidos: “I Want Your Love” é um estudo
elegante sobre o fim de uma relação, com
seu compasso em quatro notas ecoado por metais, sinos,
cordas e um ardente coro feminino, enquanto o trio principal
fazia seu trabalho mágico. O retrato do grupo,
feito por Joel Brodsky para a capa, pode dar a idéia
de um bando de alpinistas sociais, mas havia uma emoção
fervente por trás desse exterior anódino.
Os
rifs curtos e rápidos de Rodgers na eufórica
“Le Freak”, primeiro lugar nas paradas, anteciparam
o estilo pós-punk de guitarra que hordas de músicos
continuam a imitar até hoje. A encorpada linha
de baixo de Edwards parecia feita para ser sampleada pelo
nascente movimento rap. As outras faixas apresentam uma
variedade e uma confiança extraordinárias,
abrangendo baladas sombrias (“At Last I Am Free),
apelos à dança (“Chic Cheer”),
instrumentalismo cinemático(“Savoir Faire”)
e excentricidade total (“Funny Bone”).
Infelizmente,
o álbum seguinte do Chic, o estranho e melancólico
Risqué, foi seu último grande sucesso. O
clima cultural dos Estados Unidos ficou hostil, embalado
pela campanha venenosa – e implicitamente racista
– contra a música disco. De forma irônica,
as mesmas pessoas que encenaram as queimas em massa dos
LPs do Chic compraram, mais tarde, os hits disco do Queen,
Rolling Stones, Rod Stewart e The Clash.

Physical Graffiti - Led Zeppelin (1975)
Embora o Led Zeppelin não possa ser responsabilizado pela homogeniedade machista do heavy metal que inspirou, Physical Graffiti foi um álbum ambicioso e de entrega a lúxuria. Sexto disco do Zeppelin e o primeiro a sair pelo seu próprio selo, Swan Song, Physical Graffiti tem um espírito nômade - consiste em sessões interrompidas tanto pelo fato de John Paul Jones ter caído doente como pela falta de um estúdio disponível.
Os quatro lados em vinil deram espaço para experimentações, A capa inovadora, composta de janelas recortadas que revelavam uma imagem impressa na parte interna, embalava rock´n´roll cru e fiel as raízes ("Boggie With Stu"), além de preciosas miniaturas folk ("Bron-Yz-Aur"), funk-metal ("Trampled Under Foot"), rock progressivo mordaz ("In The Light") e pop rápido ("Dow By The Seaside").
Inspirada pela recente viagem de Plant e Page ao Marrocos, a colossal "Kashmir" é um monstro de pseudomisticismo e exotismo, com as cordas vigorosas do Mellotron de John Paul Jones formando melodias modais, e John Bonham, monolítico, na bateria. O improviso épico de "In My Time Of Dying", composta enquanto era gravada, traz o som indistinto da slide guitar de Jimmy Page, e a banda troveja com uma força da natureza (uma clara influência nos White Stripes). "Ten Years Gone" é a faixa mais surpreendente: um lamento tocante e sentimental de Robert Plant sobre o amor que ele deixou para se juntar à banda. O solo final de Page prova até que ponto o Zeppelin podia ser suave, quando queria.
Physical Grafitti representa o auge do Led Zeppelin e é, até hoje, um álbum estonteante.

Agharta (1979) - Miles Davis
Agharta,
composto explosivo fabricado no Japão, traz o genial
trompetista norte-americano em um momento solene de fúria
jazzística. É o ápice, a consumação
estética da chamada "fase elétrica"
de Miles Davis. Está entre os três álbuns
mais psicodélicos de todos os tempos, e entre os
10 maiores álbuns de jazz da história.
A
década de 60 presenciava um Miles Davis caminhando
perigosamente em direção à obsolescência
artística. As circunvoluções do bebop
e do cool jazz haviam ficado para trás, e Miles
rejeitara enfaticamente a revolução free
capitaneada por Ornette Coleman e Albert Ayler, não
tanto por conservadorismo estético, pecado de que
não se pode acusar-lhe, mas quiçá
por vaidade; afinal de contas, não fora ele a lançá-la,
o que para seu ego ciclópico já era razão
mais do que suficiente para recusar-lhe qualquer mérito,
não obstante, hoje sabemos que o irrequieto trompetista,
insatisfeito com os contornos que sua carreira vinha assumindo,
estava urdindo em silêncio sua própria revolução:
a fusão supersônica entre jazz, acid rock,
música contemporânea e funk.
Dessa
sua fase elétrica de álbuns fantásticos
– uma época iluminada, um estágio avançado,
onde Miles Davis mostrava a sua genialidade promovendo seguidas
obras-primas como In A Silent Way (1969), Bitches Brew (1969),
A Tribute to Jack Johnson (1970), On the Corner (1972),
Big Fun (1974) e Get Up With It (1974) -, poucas vezes foram
vistas explosões sônicas tão viscerais
e psicodélicas como essa.
Gravado
no Osaka Festival Hall, na tarde de 1° de fevereiro
de 1975, Agharta é o primeiro de dois álbuns
gerados no mesmo dia – o outro é o concerto
noturno registrado no disco Pangaea. Ambos fazem
parte da trilogia iniciada com o disco Dark Magus (que mostra
show realizado em 1974, em Nova Iorque). Três LPs
duplos clássicos, repletos de experimentações
e improvisos, trazendo nos créditos quase a mesma
formação. Mas o apogeu é mesmo este
Agharta.
Plugando
um trompete envenenado a um pedal wah-wah, o Mago do Jazz
assombra, constrói texturas atmosféricas repletas
de efeitos e ecos, irradiando ondas elétricas. Uma
música agressivamente funky, com plena liberdade
para improvisos coletivos a partir de alguns temas pre-estabelecidos.
Seguindo essas pegadas, uma feroz tropa de choque pronta
para implodir o jazz: Sonny Fortune (sax / flauta), Michael
Henderson (baixo), Al Foster (bateria), Mtume (conga / percussão),
Pete Cosey (guitarra / sintetizador / percussão)
e Reggie Lucas (guitarra).
Disco
duplo, cinco temas longos, sonoridade adrenalítica
e caótica desprovida de qualquer tipo de harmonia.
Começa com a pegada extrema, mais de 30 minutos de
“Prelude” (partes I e II), em uma demonstração
insana de free-jazz, com destaque para os solos selvagens
de Davis, Fortune e Cosey. A performance de Cosey, por sinal,
é um capítulo à parte: auxiliado por
um conjunto de aparelhos de distorções eletrônicas,
encarna Jimi Hendrix, solando de forma animalesca.
O
álbum segue, ameaçando breve trégua
em “Maiysha” – providencial para os excelentes
trabalhos de flauta de Fortune e percussão de Mtume.
Prossegue suando frio pelos andamentos nervosos de “Interlude”,
onde “So What” (faixa do lendário álbum
Kind of Blue, de 1959) serve de parâmetro para um
novo arregaço de improvisos espetaculares. E acaba
em completa falta de ar, lá no fim do túnel,
com “Theme from Jack Johnson”, num compasso
mais frenético e nervoso que o apresentado em outras
versões. No mínimo, perturbador! É
o final apoteótico de uma maratona desenfreada pelos
improvisos do jazz, com o septeto injetando solos desesperados
e enfurecidos, experimentações sonoras ensurdecedoras,
rock, funk, groove, plutônio, urânio, outra
bomba atômica em solo nipônico!
Era
desta forma – com um novo bombardeio de jazz supersônico
– que o rebelde trompetista sorriu para seus detratores.
Acusado de ser um traidor do estilo – um músico
que denegriu o jazz ao fundi-lo ao acid rock, blues, funk
e aos experimentalismos da música contemporânea
-, Davis mostrava cada vez mais não se importar com
opiniões conservadoras. Seus discos vendiam bem e
seus shows estavam sempre lotados, essa parecia ser a lógica
a ser encarada.
Após
este registro, o trompetista ficaria cinco anos sem lançar
discos ou fazer shows, se recuperando dos problemas de saúde
relacionados ao seu intenso consumo de drogas e álcool.
Só retornaria em 1981 com o lançamento do
álbum The Man With The Horn, iniciando mais um ciclo
da sua trajetória genial como músico.
Fontes:
Sinister Salad Musikal’s Weblog; Alfredo RR de Sousa;
1001 Discos para Ouvir Antes de Morrer
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